Este livro poderia chamar-se Memórias de um Miliciano, numa alusão ao clássico Memórias de um Sargento de Milícias. No entanto, enquanto na obra de Manoel Antonio de Almeida prevalece o tom leve e bem-humorado, aqui temos, permeando quase toda a história, as sombras da dúvida, da angústia e da fatalidade. Mas, além de contrastes, há semelhanças com obras famosas. Os primeiros capítulos reavivam o início de O Processo, de Kafka, no qual dividimos com o protagonista a ansiedade por não sabermos o que realmente se passa. Quem leu Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, também encontrará neste livro elementos familiares. Os contatos do Soldado Oliveira com seus superiores têm papel decisivo na sua formação, assim como a relação de Riobaldo com Joca Ramiro, Zé Bebelo ou Hermógenes é fundamental para delinear a identidade do Tatarana. Mas, se o Cabo Oliveira de fato se assemelha a algum personagem de outra famosa obra, talvez seja a Marcos Vinícius, em Quo Vadis?, de Henryk Sienkiewicz. Já o assunto e a linguagem utilizada para o desenvolvimento da trama fazem lembrar os contos mais ácidos de Rubem Fonseca, com suas críticas a uma sociedade violenta, hipócrita e corrompida. Desse modo, o presente livro herda de preciosas obras da literatura ferramentas importantes ao bom texto. No mais, numa época em que o crime organizado demonstra querer tomar o lugar da democracia, uma obra que se propõe trazer à luz aspectos geralmente obscurecidos da dicotomia polícia/crime merece atenção. Se o objetivo de toda literatura de qualidade é chacoalhar o leitor, fazendo-o sair de seu torpor, este livro cumpre bem sua função. Adriano Silva dos Santos, escritor e mestrando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo.
CABO OLIVEIRA -
Daniel Dorf
Scortecci Editora
2003
80 páginas
2h 40m
ISBN-10: 8573722436
Português Brasileiro
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