O relato de Miguel Armony refere-se basicamente aos anos de 1962 a 1964, suas experiências com o movimento estudantil e o Partido Comunista na antiga Faculdade Nacional de Filosofia da então Universidade do Brasil, com a agitação daqueles anos de esperança e fé na grande aventura de ser jovem, brasileiro, politizado e de classe média culta.
A linha justa - A Faculdade Nacional de Filosofia nos anos 1962-1964
Miguel Armony
Linha Justa - Essencial
Quando meu amigo Flávio elogiou um conto da Renata, em que narra um episódio de um futuro possível, e disse que se lembrou de uma situação semelhante vivida pelo pai num passado real, e comentou sobre um livro dele que descrevia o episódio, pedi que mandasse o link, veio um site de compras, com a sinopse, me interessei, encomendei, chegou, li! E adorei! Chama-se ' A Linha Justa', de Miguel Armony... Simplesmente, muito legal, não, bem mais que isso, eu diria essencial para sentir o clima do país no últimos dois anos antes da revolução. O livro começa com a narração de um episódio no fatídico 1 de abril 64, em que Miguel e companheiros estão aguardando armas para entrarem em luta na Faculdade Nacional de Filosofia, onde estudava Física. Miguel seria o instrutor, por conta de sua experiênica no exército de Israel, mas logo viu que era uma fria colocar armas nas mãos de quem nunca atirou, e ele candidamente descreve que desistiu e pegou um táxi pra ir pra casa. E as armas também não chegaram. O cerne do livro é o período 1962/1964, mas a narrativa vai e volta, cheguei a me perder um pouco, mas logo me acostumei. Ele prefere o estilo de ir contando como certas pessoas e coisas evoluíram, ou mesmo como haviam começado, qual o destino dos companheiros e professores e personagens que conheceu, muitas que conhecemos de nome, com terminaram, algumas poucas desaparecidas pela ditadura, outras que seguiram seu caminho, aqui ou exilados. Ele conta que entrou no PCB mais para passar o tempo, ao mesmo tempo com um pouco de ideologia por conta da miséria que via no país, as idéias comunistas de igualdade certamente atraíam os jovens sensíveis, era natural na época, conta como era o aliciamento dos jovens, ele mesmo fora submetido ao processo sem perceber, até galgou alguns postos intermediários, mas acabou por se desfiliar, no final de 63, até mesmo por conta da incongruência de ser judeu em um partido comandado por Moscou, sendo a URSS uma nação que perseguia os judeus.. A desfiliação não evitou que fosse interrogado, e preso, pelo temível general Montezuma. Mas seguiu sua vida como professor de Física. Como eu disse antes, muitos são os nomes citados. Quando terminei a leitura, notei o índice onomástico de quase 6 páginas. Tirei uma foto do trecho que continha os dois campeões em citações, coincidentemente aparecendo em 40 páginas cada um. Só ali dá pra notar o monte de gente que a gente conhece que foi citada no livro. Um dos campeões era o Carlos Lacerda que foi contra Getúlio e foi contra Jango e depois foi contra a ditadura, enfim, se tivermos um adjetivo que resumisse sua trajetória, não tenho dúvidas que seria ‘do contra’; e o outro, Leonel Brizola, nacionalista ferrenho, de quem o autor foi sempre admirador, e não era pra menos, afinal sua luta pela posse de Jango, seus discursos sempre inflamados e precisos, atraíam multidões, e ele transcreve alguns trechos realmente impressionantes. O autor foi seguidor de Brizola sempre, fez campanha pra ele em todas as ocasiões, mas admite: “Ele foi brilhante nas suas apresentações, imbatível nos debates. Não sei como aconteceu em alguns anos ter se tornado um político incoerente, capaz de qualquer aliança que a ele trouxesse benefício político pessoal, às vezes brilhante lúcido, às vezes sem conseguir articular uma idéia nova. Durante anos, procurei esconder minhas decepções com suas atitudes, falando como todos os brizolistas diziam, que "ele sabe o que faz", "ele chegar longe", "ele é um estadista". Até que não deu mais. Como é que pode o grande líder guerreiro, o orador fascinante, ter se tornado em capaz de organizar coisa alguma, brigando com quase todos os seus parceiros, expulsando ou perdendo quadros importantes de seu partido?” O livro passeia pelos movimentos do Brasil e do Mundo, tanto da época, como antes e depois, tanto na política, na economia, na educação, mas bem interessantes foram os que descreviam o comportamento das pessoas numa época pré revolução sexual. Ri muito com a descrição de que as meninas eram divididas entre 'as que davam' e 'as que não davam'. E discorre sobre as vestimentas femininas, sobre o hábito de fumar. E conta da época dos bondes e da 'evolução' para um transporte pior. E conta sobre os movimentos culturais, adorei a descrição de um trecho da peça Formiguinho, de Arnaldo Jabor, veja só, em que Miguel tocava o violão e dialogava com o personagem que deseja colocar uma porta no seu barraco e para isso viaja o mundo inteiro para consegui-la. A transcrição é muito divertida... Flávio pertence ao meu grupo que se reúne de vez em quando para falar sobre Beatles, então quando montei a prévia desta minha resenha, selecionei o texto abaixo para ilustrar como Miguel citava os eventos importantes, este aqui, já passado o dia fatal...
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