Devo admitir que desta vez eu fui fundo no baú de obscuridades da ficção científica. Desde que essa minha fixação pelo estilo começou, há cerca de dois anos, tão logo eu passei pelos medalhões do gênero, como Asimov, C. Clarke, Robert A Heinlein, já quis conhecer os nomes não tão famosos do gênero. Então acabei conhecendo nomes como Lloyd Biggle Jr, Walter M. Miller Jr. e Jack Vance. E agora cheguei em John Varley, da forma mais aleatória possível: tem um sebo perto do trabalho que eu vou regularmente pois sempre pinta um ou outro livro novo de sci-fi por lá. Peguei as duas partes desta obra (gostei de ter as duas lá), gostei das capas e do conceito e já voltei pra casa lendo.
Este livro foi lançado em 1979 e foi ganhador do prêmio Locust no ano seguinte de melhor romance de ficção científica. Para terem ideia sobre a história, pensem em uma mistura de "Encontro com Rama" de Arthur C Clarke com "Despertar" de Octavia Butler. Isso dá uma boa ideia sobre esta trama.
Confesso que, inicialmente, eu odiei a história. O início é confuso, pois o autor não dá uma introdução à história: o livro já começa com a tripulação da nave Ringmaster descobrindo um satélite desconhecido na órbita de Saturno e chegando à conclusão de que é artificial... Assim, sem nenhuma introdução, nenhum suspense, nada... não sei se isso é um problema desta edição que li, que é bem simples, um livro de bolso de uma coleção que é quase como uma das revista pulp dos EUA dos anos 40. Aliado a isso, mal somos introduzidos à tripulação da Ringmaster, não sabemos quem são, mas o autor fez questão de já colocar o fato de que eles mantém uma relação de amor livre (se é que me entendem...), com destaque para uma cena de sexo em gravidade zero. E eu nem sabia direito quem eram aquelas pessoas... E uma tonelada de termos de hard sci-fi é despejado em cima do leitor, sem que somem grande significado à história.
À medida em que as investigações a respeito do objeto titânico (desculpem o trocadilho) progride, vamos conhecendo um pouco mais sobre a tripulação: a comandante Cirocco "Rocky" Jones, nossos olhos e ouvidos dentro da trama; a astrônoma Gaby Plauget; as clones gêmeas Abril e Agosto Polo, o piloto Eugene "Gene" Springfield, o médico Calvin Greene e o engenheiro Bill (não me lembro de citarem seu sobrenome).
Quando a Ringmaster se aproxima do objeto, eis que a reviravolta na trama acontece: tentáculos gigantes emitidos pela estrutura artificial (inicialmente chamada de Temis) destroem a nave e capturam os tripulantes!
A partir daí, ocorre uma mudança absurda na estrutura do texto, que fica muito melhor e mais profundo, descrevendo de maneira mais eficiente os cenários e os personagens. O primeiro exemplo desta melhora se dá no despertar da comandante Rocky vinda das entranhas da estrutura: Varley descreve todas as sensações da protagonista, físicas e psicológicas, até o seu "nascimento" em Gaea, literalmente saindo da terra (como um bebê saindo do útero) e emergindo em um mundo totalmente novo, com seu ecossistema próprio, com seres extraordinários e cheio de perigos e belezas.
Ou seja, nesta segunda parte, nós acompanhamos Rocky desbravando Gaea, reencontrando alguns de seus amigos da Ringmaster e enfrentando criaturas fantásticas. Outro fato interessante é que dois dos tripulantes descobrem que renasceram em Gaea podendo se comunicar com certos habitantes do "planeta": Calvin se comunica através de assobios com seres conhecidos como planadores, parecidos com baleias absurdamente grandes, voadores, que emitem silvos para se comunicar e que transportam seres dentro de si. Rocky, por sua vez, se comunica com as titânides, seres azuis parecidos com centauros, que se comunicam emitindo melodias de diversos tons. Como podem ver, essa parte acaba até deixando de lado um pouco a ficção científica e assumindo tons quase fantásticos, se tornando uma grande aventura.
Outro detalhe legal é que o autor não esconde as suas origens, fazendo citações a autores de sci-fi como Asimov, Heinlein e C Clarke, como que admitindo estar ciente de suas referências serem evidentes na narrativa.
Apesar do início caótico, o saldo até aqui é positivo e me deixou curioso pra saber se Rocky irá encontrar os dois tripulantes que ainda não reapareceram e se vai descobrir o que comanda este mundo artificial. Que venha a parte 2!