Em 1815, o brigue Commerce deixou os Estados Unidos com uma tripulação de onze marinheiros comandados pelo capitão James Riley. A viagem tinha objetivos comerciais: comprar sal na c ta africana e vender tabaco e farinha. A embarcação naufragou junto ao perigoso cabo Bojador, na costa ocidental do continente (na altura da atual Mauritânia). Após enfrentar o ataque de nativos, a tripulação voltar num pequeno bote, onde passou dias de provação, esperando socorro. Exaustos e sedentos, os homens decidiram voltar para terra .Encontraram uma paisagem desalentadora: estavam às margens do Saara. Na entrada do maior deserto do mundo, foram capturados por árabes muçulmanos nômades. Escravizados, enfrentaram fome, sede, insolação, cansaço extremo, torturas. Dean King reconstitui essa aventura perturbadora de maneira impactante. Em prosa clara e envolvente, o autor flerta com a história natural, a geografia, a ciência, a antropologia e as narrativas de aventuras. King descreve os costumes islâmicos, a vida das tribos nômades e particularidades da fauna e das formações geológicas do deserto. Esqueletos no Saara inclui um glossário de termos árabes, fotos da viagem de reconstituição empreendida pelo autor e mapas de regiões que atualmente fazem parte do Marrocos e da Mauritânia. O livro, roteirizado pelo estúdio Dream Works, será filmado em breve.
Esqueletos no Saara -
Dean Martin
Esqueletos no Saara - @sabe.aquele.livro
"Esqueletos no Saara" é a história real do naufrágio do brigue Commerce, que saiu de Connecticut para diversos destinos comerciais em 1815, e, após aportar e sair de Gibraltar acabou chocando-se com os recifes da costa no Cabo Bojador, no então Império do Marrocos. O Capitão James Riley e sua tripulação, ao darem em uma praia de difícil acesso já foram saqueados por saaráuis nômades, fugindo no escaler do brigue, danificado após o naufrágio. Ficaram à deriva mais alguns dias, e chegaram mais ao sul, na costa do deserto do Saara. Novamente capturados, sofrendo de desidratação, desnutrição e insolação os homens foram divididos como escravos de diferentes famílias nômades. O capitão Riley, ao encontrar dois mercadores pelas perambulações de seu amo, propôs que estes o comprassem e a seus companheiros e os levassem até o cônsul inglês em Mogador, norte do Marrocos. Ele e mais quatro de seus homens foram então levados por Hamet e Seid em uma viagem árdua e arriscada em que mal conseguiram sobreviver a tantos perigos no inóspito deserto. Um relato que, se não tivesse sido amplamente esmiuçado, não seria de foma alguma crível. Lendo e relendo alguns trechos penso como é possível estes homens terem sobrevivido. Entre surras, bebendo a própria urina, perdendo a pele devido a queimaduras de sol e ao contato inclemente com a areia escaldante, dormindo ao relendo e tendo muito menos que vísceras de camelo e lesmas para comer, não sei o que me impressionou mais. Dean King também descreve muito vividamente a realidade das tribos islâmicas nômades que vivem no Saara: seus hábitos violentos e cruéis com os cristãos escravos, o hábito de pegarem tudo que puderem, reclamando propriedade de tudo que aparece, mas ao mesmo tempo, em momentos de extrema necessidade, compartilhando o pouco que tinham. Um povo que vivia na areia, e que na falta - constante - de água sobrevivia de leite de camela como única refeição. Não sou capaz de relatar tudo aqui, mas a jornada de Riley e seus companheiros e de Robbins (marinheiro que foi deixado para trás e fez uma rota diferente e mais longa) não teve um dia sem grandes dificuldades, ameaças de todo tipo, fome, disenteria, calor, frio, e até tortura. O relato de King se baseia nas obras de Riley e Robbins após serem resgatados, em documentos históricos e ele mesmo viajou até o Saara para observar os lugares descritos e constatou que apesar da maior povoação, muitas coisas não mudaram, mesmo após 200 anos. Apesar de no início a narrativa ser um pouco lenta, com as descrições das embarcações e rotas antes do naufrágio, a partir do momento em que começa o deslocamento pelo deserto a história pega um ritmo mais romanceado, com riqueza de detalhes. Os trajetos podem ser acompanhados pelos mapas, e o livro tem algumas ilustrações (reproduzidas do original de Riley). As descrições topográficas e geográficas também são muito detalhadas e me fizeram cansar um pouco, tornando a leitura mais lenta nestes momentos. Mesmo com esta ressalva do detalhamento descritivo, a leitura é muito enriquecedora do ponto de vista histórico, cultural e humano. Aprendi muitas coisas com este livro, e o que mais gostei foi justamente a imersão na vida inóspita, quase inimaginável - dos nômades saaráuis. Recomendo para os apreciadores de não-ficção, mas principalmente, para quem gosta de uma boa história de sobrevivência, superação e fé.
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