O que é a vida?
A clássica pergunta feita ao final de cada episódio do programa "Provocações" da TV Cultura, apresentado pelo saudoso Antônio Abujamra, é a grande questão que permeia "O teatro de Sabbath". Mas, diferente da maioria das respostas dos convidados do Abu, o protagonista deste intenso romance, o depravado Mickey Sabbath, teria a resposta na ponta da língua: sexo.
Lançado em 1995 - ano em que este que vos escreve nasceu -, O teatro de Sabbath consagrou a carreira de Philip Roth. Para muitos críticos e leitores, o ponto alto de uma vida dedicada à literatura.
Neste romance de fôlego, somos apresentados, logo na primeira página, a duas personagens que vão nos guiar nesta pequena odisseia sobre a banalidade humana: Mickey Sabbath e Drenka Balich. Mickey é um judeu estadunidense sexagenário e titereiro, ou seja, um manipulador de fantoches. Drenka é sua amante, uma estrangeira servo-croata. Em comum? Ambos veem no sexo a única razão de viver. Mas a dupla é apenas o ponto inicial de um livro com uma galeria impressionante de personagens.
Em uma prosa densa e provocante, mas ainda assim acessível, Roth destila aqui todo o seu poder como ficcionista. Mickey Sabbath é uma personagem complexa, assim como a natureza humana. É incrível como podemos fazer uma lista gigantesca da falta de qualidades em Mickey. Ele é repulsivo, misógino, cínico, manipulador, insensível
enfim, a lista de defeitos indesejáveis é extensa, mas ao mesmo tempo faz de sua personagem quase alguém de carne e osso dentro dessas páginas. Mickey é casado com Roseanna, uma alcoólatra em recuperação. Além disso, carrega consigo o passado de uma família destruída após a morte de seu irmão mais velho, Morty, pelos japoneses na Segunda Guerra Mundial. A ausência do irmão acaba afetando drasticamente a vida de sua mãe e consequentemente a vida de Mickey. Ele inclusive é perseguido pelo fantasma dela, fato que gera alguns diálogos fantásticos, em uma clara referência a Hamlet de William Shakespeare. Aliás, Shakespeare é uma espécie de herói para o autor que, durante o romance, faz constantes comparações e alusões aos personagens de outras obras do Bardo, como Macbeth e Rei Lear.
E a narrativa? Como falar de uma estrutura narrativa tão poderosa? Aqui, Roth faz o que a boa literatura deve fazer: suspender a noção de espaço e tempo dos leitores. Ao longo das suas mais de 500 páginas, o autor usa flashbacks e intervenções no texto, que é narrado em terceira pessoa, para dar voz a Mickey em primeira pessoa, e assim acompanhamos uma passagem de tempo muito peculiar, com uma quantidade de informação que vai sendo absorvida aos poucos. É quase como se a história fosse formada por uma linha narrativa de matrioskas em que vamos descobrindo cada vez mais sobre a tragédia que aflige nosso protagonista. Em certos momentos, estamos falando de um Mickey criança, para em seguida voltarmos ao presente e depois avançarmos para uma época em que ele era adolescente e assim por diante. É magnífico ver isso tão bem executado, pois são poucos os escritores que o fazem satisfatoriamente. É muito rico o modo com o qual Roth consegue constantemente desdobrar uma quantidade absurda de história sem fazer com que os leitores se percam no tempo contínuo da narrativa.
Mesmo após orgias, uma masturbação em cemitério, uma prisão por desordem, assédio sexual, agressão e obscenidade, mostrar o pênis para a esposa de um velho amigo e roubar dinheiro dela, enganar um primo centenário, o detestável Mickey Sabbath ainda consegue me cativar. E sabe por quê? Porque Philip Roth deixou para a eternidade um livro extremamente dramático que é, ao mesmo tempo, uma sátira e uma afronta ao puritanismo que corrói nossa época. É a cativante perseguição da própria ruína de sua personagem principal e a experiência subversiva proporcionada aos leitores que fazem de O teatro de Sabbath um livro necessário e essencial em qualquer estante.