Apesar de gostar de poesia, faz um bom tempo que não pego um livro do gênero para ler. Incentivada pelo desafio Leia Mulheres, uma das categorias é de autoras brasileiras esquecidas pela crítica. Após um Google, descobri Gilka Machado. Não me é um nome estranho, apesar de não me lembrar onde a vi. Provavelmente em alguma aula de português (tive ótimas professores apaixonadas por poesia).
Um pouco mais de pesquisa, descobri sua breve biografia. Seus poemas são do começo do século XX, uma época em que mulheres eram confinadas ao recato e à vida doméstica. Mulheres não escreviam. Mulheres não eram poetisas. Isso inclusive me lembra o Neve na manhã de São Paulo, do José Roberto Walker. Nesse livro ele romantiza uma história de amor entre uma jovem estudante, que era versada na literatura e arriscava a escrever seus próprios poemas, com Oswald de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros. E Oswald viveu num dilema: adorava esse jeito da menina, de ler, estudar, escrever, ao mesmo tempo que não valorizava aquilo que ela fazia por ser mulher.
Nessa época, as poucas mulheres que escreviam vinham da elite. Cresciam nos salões literários. Suas obras eram simbolistas e parnasianas. Gilka veio do meio artístico. Filha de uma família de artistas, mãe atriz e pai poeta. Isso a colocou num nível abaixo das escritoras de sua época, o que pode ter influenciado a crítica a classificar seu lirismo como pornográfico. Gilka é muito mais do isso.
Ela pode ser considerada uma das precursoras da poesia erótica escrita por mulheres no Brasil. Sua poesia é cheia de simbolismo e metáforas que refletem o prazer feminino e a masturbação, assunto tabu e polêmico.
Em A Mulher Nua, ela joga luz com um lirismo sensacional e sinestésico ao prazer da mulher. Alguns mais desatentos talvez nem vejam. De forma delicada e simbólica, Gilka busca a conexão e a união. Os poemas deste livro estão numa transição entre o simbolismo e o modernismo e em alguns poemas é possível ver as características bem definidas de cada escola e a maestria que Gilka tem.
Em 1976 foi convidada por Jorge Amado a ingressar a Academia Brasileira de Letras, porém ela declinou o convite. Em 1977, Rachel de Queiroz se tornou a primeira mulher a assumir uma cadeira na ABL. Gilka tem diversas citações nas colunas publicadas por Carlos Drummond, outro sensacional poeta. Como essa mulher caiu no ostracismo, eu não consigo entender.