O livro foi escrito ao longo de uma árdua campanha de imprensa. A maior parte dos documentos e testemunhos que o autor reuniu foram lançados em uma batalha que sensibilizou a consciência dos homens de bem do Brasil a tal ponto que o próprio marechal Castelo Branco, sob cujo governo as torturas ocorreram e os torturadores continuaram impunes, teve de mandar ao Nordeste seu chefe da Casa Militar, general Ernesto Geisel. A missão Geisel teve como resultado a permissão para que o autor tivesse condições de penetrar nas prisões do Recife e confirmar as denúncias recebidas. Segundo o autor, “a exposição da onda de crimes oficiais que varreu o Brasil nos primeiros meses do golpe militar de 1964 (...) foi feita com objetividade e com o propósito de deixar estes crimes documentados para o julgamento do futuro”. O livro está disponível para download, gratuitamente, na página do autor: http://www.marciomoreiraalves.com/livro.1966.htm
Torturas e Torturados -
Márcio Moreira Alves
Relato audaz.
O destaque inicial, acerca desta obra, é que ela foi redigida em um contexto de consolidação de uma ditadura que se perpetuaria por duas décadas. Diante de tal fato, a exibição de absurdas arbitrariedades e violências praticadas após o golpe de 1º de abril de 1964 ganha maior significação, na medida em que foram feitas, com audácia, pelo jornalista Márcio Moreira Alves, o qual era parte de uma campanha de divulgação de tais fatos por meio da imprensa. O livro é uma consequência desse trabalho jornalístico. É escrito com proximidade temporal em relação aos fatos, mas nem por isso mostra-se superficial, já que a capacidade crítica do autor é continuamente exposta. A transmissão da atmosfera de repressão que preponderava em certos pontos do país (especificamente em Recife) impressiona. Os relatos das torturas estarrecem. Ainda mais na medida em que o autor demonstra, apoiado em diversas fontes, que a própria existência do encarcerado era uma decisão de alguns repressores. Especialmente revoltante, em relação a tal aspecto, são as internações compulsórias de alguns presos em hospitais psiquiátricos, sem que fosse determinada pela autoridade competente. A exposição que o livro faz vai além dessas violências corporais e psicológicas. Também é mostrada a explícita coação institucional, como no caso do Poder Executivo para que o decreto de intervenção em Goiás fosse aprovado ou simplesmente por militares em relação ao Poder Judiciário, para que este fizesse prevalecer as arbitrariedades daqueles. Também é registrada, objetivamente, a hipocrisia oficial e o acobertamento das atividades repressivas que se realizaram. O relato acerca da deposição de Mauro Borges é aviltante para a política brasileira, em que se associaram as violências retromencionadas. Ao final do livro, é analisada o falecimento de um preso político e confrontada a apuração oficial que foi feita em relação ao fato, apontando inconsistências significativas, de modo a demonstrar a plena indisposição do governo de então de fazer prevalecer direitos fundamentais do ser humano.
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