Depois de haver lido os romances do cearense José Alencar (1829-1877), destacando indígenas que eram do Ceará e de outros Estados, e nenhum de Santa Catarina, me imaginei que os escritores catarinenses deveriam ter feito o mesmo com os episódios do seu passado. E se o não fizeram ao tempo de José de Alencar, ainda o poderiam fazer agora. Em São Leopoldo, RS, depois de haver lido tudo sobre os índios carijós de Santa Catarina (na História da Companhia de Jesús no Brasil de Serafim Leite e de outros informantes), propus a meus colegas catarinenses do Curso de Filosofia (realizado de 1943 a 1945), que alguém criasse uma ficção destacando os referidos episódios. Não consegui que alguém se interessasse pela criação de uma ficção desta natureza. Apliquei então o provérbio, "quem quer vai, quem não quer manda", fixando na minha mente que, eu mesmo deveria escrever algum dia a ficção sobre o índio Tubarão. Já em 1948 escrevia um texto estritamente histórico para o livro de meu tio Paróquia de Sombrio, no qual foi incluído, sob o título Sombrio de Outrora (vd), em que o índio Tubarão era abordado. Aconteceu que, já depois de concluídos meus Cursos de Filosofia e Teologia, fui designado para ter ação em Sombrio (1950) e em Laguna (1951 e 1952). Estava, pois eu agora, na região em que atuara o índio Tubarão. A circunstância me estimulou a fantasia sobre o referido Índio, candidato a ser figura de romance. A respeito desta fantasia reencontrei em meu Diário: "Hoje passei a escrever, ainda sem rumo certo, o romance Indio Tiubarão. Não tenho ainda decisão definitiva sobre a iniciativa. O que fiz, por enquanto vale apenas pelo prazer da simples ocupação de escrever algo assim como se fosse um romance" (26‑5‑1951). Aquele texto se perdeu. Todavia o fato mesmo de o haver ensaiado, mostra minha persistencia na intenção de chegar a um resultado. Finalmente, quando me acontece um período mais literário e fantasioso, passo a escrever ficções. Em 1963 escrevi Madrugadas de Marina (novela publicada em 1964). E logo senti o impulso necessário para também escrever Filhas de Tubarão, com edição em 1965. Lembrando‑me de adotar o método do presente histórico, como o havia feito na novela escrita pouco antes, encontrara o caminho para com fantazia criar uma ação envolvendo o Índio Tubarão.. Transpus‑me em sonho ao ano de 1605, viajando como cozinheiro de um navio bandeirante. Assumi a figura de curioso de saber das coisas que iam acontecendo na costa Sul, onde acontecia a expansão portuguesa em conflito com os espanhóis. Por efeito da miscigenação dos bandeirantes e já de antigos náufragos teriam aparecido as assim chamadas Filhas do Indio Tubarão. Reescrevi o romance em Esperanto sob o título de Filinoj de Indiana Barono (= Filhas de um Barão Indígena). Nesta outra versão reformulo a interpretação sobre o significado sociológico do bandeirante em relação ao índio, que na primeira versão em português era negativista e unilateralmente jesuítica. Embora entre si conflitantes, jesuítas e bandeirantes exercem funções em última instância positivas sobre o índio, que, no Litoral catarinense, era o carijó. A efetivação de Filhas de Tubarão principiou na segunda quinzena de 1964, quando atingi as primeiras 50 folhas. Em agosto atingia 80, ao mesmo tempo que aperfeiçoando o todo. Simultaneamente trabalhava em Primeiras Luzes do Pensamento. A figura de Diabo Velho já a tinha concebido em 1963, mas sob a denominação mais de Diabo Manco, como novela a parte, e que de súbito se encaixou na estrutura de Filhas de Tubarão, ao identificá‑lo como chefe de navio. A impressão a encomendei ao mesmo editor da novela anterior, em São Paulo (O Livreiro, de Victor Chiodi). Em 18 de junho de 1965 chegavam os primeiros volumes impressos. A capa representa o peixe tubarão, com muitos olhos, que simbolizam as assim chamadas filhas do cacique Tubarão. Procedeu-se um lançamento na cidade de Tubarão, dada a afinidade dos nomes.
Filhas de Tubarão -
Evaldo Pauli
Biblioteca Superior de Cultura
1965
148 páginas
4h 56m
ISBN-1: 0
Português Brasileiro
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