AS ORIGENS CRISTÃS A PARTIR DAS MULHERES -

    elisabeth S Fiorenza

    PAULINAS
    1992
    398 páginas
    13h 16m
    ISBN-10: 8505011074
    Português Brasileiro
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    Jocelia Lima11/11/2015Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    O objetivo deste livro é buscar uma reconstrução da história cristã primitiva como história de homens e mulheres e não apenas de homens ou de mulheres (p. 11). Propõe-se a trabalhar no assunto de hermenêutica, destacando os problemas de interpretação exegética de certas passagens bíblicas, especialmente as que tratam da questão de gênero. Nota-se claramente no desenvolvimento do assunto que Fiorenza quer mostrar nesta obra que a mulher tem sido deixada de lado através da história e que merecem o reconhecimento como pessoas que fizeram parte da história, em especial da história do cristianismo, como ela mesma diz: foram “tanto quanto os homens as iniciadoras do movimento cristão”. Logo na introdução há uma afirmação de que as pessoas se recordam do nome do traidor de Jesus, mas se esquecem do nome da discípula fiel porque era mulher (p. 9), fazendo referência a uma mulher mencionada em Marcos 14.9. Este livro de Elisabeth Fiorenza ao meu ver tem dois eixos. O primeiro é a ênfase de que as mulheres foram esquecidas e que têm sido tratadas como pessoas que não participaram da história. E o segundo é o problema sério de partir da premissa de que a Bíblia não é absoluta como verdade única de Deus, e sim de que os escritos bíblicos são produtos de “varões” que “nunca viram nem conversaram com Deus” (p. 30), dando claramente a entender que a Bíblia não é infalível, inerrante ou totalmente inspirada. Fiorenza procura fazer uma reconstrução da história lembrando que o que temos hoje em mãos e em possibilidade de ser pesquisado, são produtos androcêntricos, materiais produzidos por homens e não por mulheres. Logo, até mesmo o cânon é um produto dos chamados “vencedores históricos”, como fica bastante evidente com a seguinte afirmação: “Os textos bíblicos não são revelações verbalmente inspiradas nem princípios doutrinais. São formulações históricas surgidas no contexto de determinada comunidade religiosa.” (p. 12). Ela diz que “o cânon reflete um processo patriarcal de seleção e funcionou para afastar as mulheres da liderança eclesial” (p. 81). Quando Fiorenza faz referência a Robinson e Helmut sobre o assunto do estudo do passado que os cientistas acabam fazendo com a compreensão do presente (p. 14) é exatamente o que ela mesma está se propondo a fazer nesta obra. Fiorenza está considerando a Bíblia claramente influenciada pela luta do movimento feminista do século XX e início do século XXI. Com este tipo de abordagem, diversos grupos que se auto denominam como “oprimidos” poderão também desenvolver suas “leituras” do passado, neste caso, suas leituras sobre a Bíblia. A autora também argumenta em favor de sua nova hermenêutica, dizendo que os textos bíblicos devem ser analisados, considerando seus contextos culturais. A partir daí, começa a trabalhar com o modelo sociológico existente nos tempos bíblicos, mostrando como os textos são resultados de um sistema patriarcal diferente dos tempos modernos. Fiorenza critica a acomodação das mulheres modernas quanto a este assunto e diz também que mesmo escritos cristãos femininos compartilhavam da influencia androcêntrica da cultura (p. 90). Por fim, de forma bastante sutil, podemos notar que Fiorenza chega a ter problemas de entendimento cristológico dando a entender que a morte de Cristo foi simplesmente “causada pelos romanos” não tendo nada a ver com o sacrifico exigido por Deus (p. 164). Há algo bastante coerente neste livro. A Bíblia como ela está composta e escrita não permite que a mulher exerça uma função de liderança pastoral em uma igreja local. Desta forma, defendendo uma “reconstrução” do texto bíblico, procurando desenvolver uma “nova hermenêutica”, evidencia-se uma possibilidade de atuação de mulheres em funções de pastoras e presbíteras. Aí a pergunta: precisamos de uma nova hermenêutica ou de uma nova Bíblia?

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