Maria Olívia. São verdolengos só, porque passarinham os monturos de saudades e evocações. Como pequenos que são, são morrinhentos, encravando lições de nonadas nas abastanças dos nenúfares. Silvam comprido, arengando os ares. Marcam os mares com cuidado, mais ao longe. Cultivam alegrias falsas, cultivam sempre, protegidos pela plumagem modesta da tristeza montanhesa. Os gaturamos não são surdos, Maria Olívia, mas são tristes. Tudo porque os homens gostam de chamá-los por nomes diversos que fracionam o coro cantarinheiro deles. É gaturamo "tem-tem" é gaturamo "vim-vim" é gaturamo "bonito-do-campo". Eta bicho-homem, arretado de incréu, caduco de etiquetação. Bicho-homem, eta, maledicente, que divisioneia até mesmo a corporação esperançosa dos pássaros. Os gaturamos não são surdos, Maria Olívia, principalmente quando eles cruzam o rio Ingay e no sentido do Embaú, mirados para o mar-oceano, tempo no qual se sentem grandiosos. Então eles ouvem os rumores das oropas, no sentido sul-este e os cheiros fortes de benquerença das áfricas, no sentido leste-oeste. Proclamam a sua grandeza, quando ouvem as cantilenas dos antepassados e trinam do novo, certos de que os homens que sabem nomeá-los, não sabem ouvir com humildade o canto da história do mundo. Os gaturamos, porque não são surdos, Maria Olívia, escrevem suas próprias histórias. Que serão boas, Maria Olívia. Serão boas!
Os gaturamos não são surdos -
Adolfo Maurício Pereira
Komedi
2005
189 páginas
6h 18m
ISBN-10: 8572822098
Português Brasileiro
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