Mesmo quando se conhece pouquíssimo sobre a escrita do William Gibson (o meu caso), você sabe sobre o quão influente ele é, afinal, é o criador de um subgênero e de uma estética visual que permanece em alta (e só tende a subir), quarenta anos depois da primeira incursão do autor por aquele mundo criado por ele. Sincronicamente, enquanto eu escrevia essa resenha, as redes fervilhavam com a adaptação da Netflix de uma história no universo do Cyberpunk 2077, jogo que bebe bastante deste conto aqui. Por exemplo, no jogo da CD PROJEKT, um conceito principal da trama, o protagonista e até o mesmo ator (Keanu Reeves) de uma antiga adaptação fílmica de Johnny Mnemonic são utilizados.
Neon, megacorporações, chuva refletida em cores cromáticas, tecnologias peculiares e avançadas, segregação social, capitalismo levado ao extremo; quase tudo já enraizado no imaginário popular quando se toca no nome Cyberpunk plana de alguma maneira por aqui, en passant.
E vai além: a gente tem aqui o Jones, um golfinho veterano de guerra da Marinha, viciado em heroína por causa do PTSD, que vive num tanque de madeira estreito e se comunica por meio de um painel de pisca-piscas de natal reciclados. (Ele era utilizado pela marinha para desamar minas aquáticas.)
Ele é de longe o personagem mais marcante de uma narrativa que é simples em questão de trama. O Johnny o personagem principal , em contrapartida, consegue ser mais desinteressante que alguns dos figurantes há no bar, cenário principal da primeira parte, um Iggy Pop-esque de pele lisa, sintética e dentes podres; uma dupla de mulheres porradeiras (uma, inclusive, transgênero) que somem ou morrem em poucas páginas e, ainda sim, ofuscam o Jhonny.
Não costuma ser do meu feitio um conto que se paute quase total e unicamente na exposição e descrição, onde o encadeamento narrativo consegue ser mais simples que a já batida estrutura de jornada do herói; mas, é elogiável a maneira com que o Gibson abre a narrativa e imerge o leitor em um mundo único, antes inexistente e inimaginável, e, depois de um conto curtíssimo, agora completamente coerente é marcante. É um exercício de livre imaginação louvavél, mais próximo da tecnologia, porém sem largar mão da construção de mundo herdada da fantasia.
Um exercício saudável ao se ler esta história é: constantemente se lembrar de que para quem leu na época, não havia nada como aquilo antes, o Gibson estava inserindo os leitores em um mundo totalmente novo, liquido e conceitual. E isso ele faz muito bem. Você lê a primeira página, e está lá o Cyberpunk que conhecemos, difícil até imaginar que ninguém houvesse feito antes. Soa natural, em consonância com o avanço tecnológico da sociedade; é como disse um cientista famoso: "as verdades absolutas são perfeitamente fáceis e compreensíveis, depois de descobertas; o difícil é descobri-las." O mesmo vale para o mundo criado por Gibson & Co.
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Mesmo que as páginas seguintes fossem a mais pura porcaria (adianto, apesar da simplicidade, não são), o trabalho de inserção e ambientação acrescentados de uma curta imersão já é vale a pena. Mesmo que o Gibson tivesse morrido após "dropar essa bomba", a raiz de tudo está aqui; e entrando num desses what ifs malucos, mesmo que Neuromancer não existisse depois daqui, nossa linha temporal não mudaria tanto, Johnny Mnemonic concentra muito em poucas páginas, basta ter olhos para ver; muitos viriam beber diretamente daqui, como o fez a CD PROJEKT, que espremeu até a última palavra das dezessete páginas desse conto aqui.
A exemplo da construção, uns excertos da primeira página (coloquem em mente, como disse, que isso aqui é praticamente a inauguração do Cyberpunk, e notem como ainda é próximo do que vemos atualmente no cinema ou nos jogos):
"Desci do metrô três estações adiante da plataforma mais próxima e voltei esse trecho na caminhada. Procedimento a prova de falhas. Chequei meu visual refletido no tapume cromado de um quiosque de café: rosto caucasóide básico com uma coleira de pêlo duro e escuro.
As meninas do Na Ponta da Faca curtem muito o Sony Mao e foi difícil convencê-las a não me implantarem olhos puxados. Minha fachada provavelmente não enganaria Ralfi, mas poderia me ajudar a chegar perto da mesa dele."
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"O Drome tem um ambiente único e estreito com um bar ao fundo e mesinhas na lateral, carregado de cafetões, empresários de lutadores e uma sinistra variedade de traficantes.
As Cadelas Magnéticas tomavam conta da porta naquela noite e não me agradava a ideia de ter de passar por elas caso as coisas dessem errado e eu tivesse que fugir correndo. Elas tinham dois metros de altura e eram magras como cães galgos. Uma era branca; a outra, preta. À parte essa diferença, eram tão idênticas quanto possível ser com ajuda de cirurgia plástica. Amantes há anos, eram barra pesada quando o pau quebrava. Eu nunca me lembrava ao certo qual das duas tinha sido homem."
[~]
(...) Ralfi estava em sua mesa de sempre. Devia-me muita grana. Eu tinha centenas megabytes armazenados na cabeça no sistema idiota/sábio. Não tinha acesso a essas informações. Ralfi as tinha postas lá, mas não havia voltado para buscá-las. Só ele poderia recuperar os dados utilizando uma frase código. Já não sou barato, pra começo de conversa, e minha hora extra para armazenagem de dados é bem cara."
Eu dei uma volta, e não falei do Johnny, mas, resumidamente, ele é um traficante/contrabandista de memória: num mundo onde a informação em dados está sempre a mercê de ser facilmente quebrada e decodificada, Johnny, que não sabe o que armazena, que só transporta (-se) de um lado a outro, que só com uma senha do contratante tira a informação da cabeça dele (ele fica inconsciente nesse processo), faz-se de ferramente útil nesse futuro.
A trama revolve-se em torno de um desses trabalhos que deu errado, Johnny pegou informações demais, e o contratante não veio retirar. Isso para o Johnny significa perigo. A sua memória (ou o que restou) começa a se diluir e se misturar por causa do excesso de informações. Esquece quem é; sofre lapsos de (ir)realidade; deve, portanto, imediatamente procurar o contratante e resolver isso de uma vez.
Molly Millions, apesar de "cool", é inserida de modo totalmente caótico na história, que combina com a função da personagem, mas não a grega nem eleva muito o conto; é ela que dá ação à história e carrega o Johnny literal e figuradamente: é uma personagem central para os trabalhos seguintes do Gibson. É aqui que a vemos em ação pela primeira vez.
Outro ponto apenas suscitado aqui e bem explorado nas diversas adaptações desse subgênero, é a decadência camuflada pela alta tecnologia; aqui temos, por exemplo, o próprio painel de luzes de
natal recicladas do golfinho Jones, o grupo de revolucários LoTeks (lê-se, low-techs) e a cidade deles, suspensa em vigas e cordas acima de Nightcity; a cirurgia plástica para adquirir o rosto perfeito e o contraste com a imagem de seus dentes podres e decantes; o Neon avariado, crivado de tiros e a desistência das equipes de manutenção a continuar a repará-los; os arcos da cidade, consequentemente, cobertos de fuligem
Até o embate final, que se dá numa espécie de arena suspensa (que também serve de distoce para os habitantes dali).
Em aspectos literários e estílisticos, apesar de eu recomendar o conto, retirando os objetos (fictícios, fantasiosos) e os fenômenos (idem), o que se tem é apenas descrição; quase como um passeio, uma noite em Nightcity, que retirando todo este caráter mencionado, influente e inaugural, não tem muita potência; é o tipo de história que só funcionaria nas mãos de um escritor com um GRANDE domínio sob a linguagem, que não é o caso do Gibson. As coisas funcionam, acontecem, mas nada além disso.
A estrutura é bem bobinha; no entanto, quando a história é colocada numa coleção ou situada num universo mais amplo, reaparecendo em fragmentos, a exemplo do que ocorre aqui, até que ganha contornos mais interessantes. Por exemplo, o final: quando o Johnny decide [ se enfiar ainda mais na merda: agora ele não mais contrabandeia informação simplesmente, ele a partir do fim do conto, torna-se um subornador, a conclusão da história de Jhonny é dada nos livros seguintes: ele foi não surpreendentemente morto pela Yakuza. Isso, de certa forma, meio que quebra um pouco a estrutura engessada dessa narrativa como pedaço solto; mas quando emendada em outra é um acontecimento ilustrativo do microcosmo da Nightcity. (hide spoiler)] Vale a leitura.