Quem gosta da tradição do conto norte-americano, sobretudo de seus grandes expoentes no século XX, como Flannery O’Connor, John Cheever e Raymond Carver, precisa dar uma lida também nos contos do hoje esquecido Erskine Caldwell.
“Frenesi de verão” é uma mostra interessante das suas habilidades. As histórias podem versar, com grande sensibilidade (apesar da linguagem crua), sobre as descobertas do mundo adolescente, seus sentimentos e paixões (como em “A estação dos morangos”, “Evelyn e nós outros” e “O dia solitário”, no qual se nota ainda o impacto da repressão familiar no despertar de uma adolescente), e também podem tratar de violências inimagináveis que assomavam as pequenas aldeias do sul do país, marcado por um impressionante racismo, levado até as últimas consequências (vide “Sábado à tarde” e “Dia de pagamento no rio Savannah”). Por vezes, o ambiente até “exige” a violência, mesmo contra a natureza pessoal (caso de “Molly Rabo-de-Algodão).
Os contos são repletos de personagens e “tipos”, muitas vezes arrancados da memória do narrador. Há conflitos de toda espécie entre eles, pode-se dizer que um, em geral, não sabe exatamente quem seja o outro, não o compreende bem, e por vezes só irá se dar conta do que tinha diante de si depois da morte, como no belo “A velha de Joe Craddock”.
O ambiente do interior, com seus costumes, seus orgulhos e seus preconceitos, domina as narrativas. Crises familiares naturalmente abundam, e aí se destaca “John, o índio e George Hopkins”, sobre a disputa de duas filhas pelo cadáver do pai. “As calças de veludo” expõe o absurdo no caso de uma desavença entre dois amigos.
“O sonho”, por sua vez, oferece uma ambiente quase fantástico, e termina deixando ao leitor o cargo de concluir em que medida aquilo tudo faz sentido.
Nota-se, portanto, um grande arsenal de tramas. Suas histórias são curtas, poucas páginas, ágeis, fáceis de ler.