Uma possível maneira de sintetizar o primeiro romance de Georges Perec, As Coisas (1965), se encontra em um verbo: sonhar. O verbo em diferentes tempos verbais: sonharam, sonhavam, sonharão. Entre passado, presente e futuro, um aspecto fundante dessa narrativa é seu ritmo espiralar.
Jérôme e Sylvie, um jovem casal de publicitários, são os protagonistas e únicos personagens nomeados no romance. Antes de serem nomeados, o primeiro capítulo se refere apenas a um grupo indefinido de pessoas, que desejavam posses suntuosas. Descreve-se um ambiente luxuoso, aparentemente perfeito para quem o deseja. A vida, ali, seria fácil, seria simples, afirma o narrador sobre o até então grupo desconhecido. O último parágrafo do primeiro capítulo reafirma um possível equilíbrio em que a rotina ali descrita, traria a felicidade.
No segundo capítulo, já sabemos que se trata de um casal, porém, a felicidade equilibrada desse jovem casal é interrompida por uma conjunção adversativa: Mas o horizonte de seus desejos estava impiedosamente fechado; seus grandes devaneios impossíveis pertenciam apenas à utopia. Ou seja, sonhavam. E o narrador é direto, pois não vivem no luxo, viviam num apartamento minúsculo. É a partir desse tensionamento, entre o devaneio utópico (sempre cortada pelos adversativos) e a realidade sufocante, que o narrador irá organizar essa narrativa.
O subtítulo do romance parece informar as intenções de Perec: uma história dos anos sessenta. Na orelha da edição brasileira, traduzida por Rosa Freire dAguiar, chama-se atenção para como o escritor francês representa uma realidade da qual fazia parte. Uma chave de leitura é sugerida pelo próprio Perec, menos um romance e mais um inventário de tudo o que pode ser dito a propósito da fascinação que exercem sobre nós os objetos. O romance é voltado a classe média, uma crítica ácida e contundente a uma classe que acredita que pode ascender; e assim vive, no desejo de não ser mais médio.
Nesse sentido, os objetos, as coisas, os deslumbram. O narrador pode descrever melhor do que eu: Sonham com a riqueza e poderiam enriquecer: é aqui que começam suas desgraças (p. 52). Para eles, o dinheiro seria um meio (e fim), para se chegar na felicidade, embora eles nunca cheguem próximos dela. Pois, eram uma ilhota de pobreza no grande mar de abundância. A citação utilizada na quarta capa desta edição, pode sintetizar essa classe à qual pertenciam e eram desejos em não mais pertencer: Estavam enfiados até o pescoço num bolo do qual nunca teriam mais que as migalhas.
Embora, a imensidão dos desejos os paralisava, não tomam ações para modificar esse estado, continuavam sonhando. Claro, sabiam que tudo isso era falso, que essa liberdade não passava de um engodo (p.51), essa liberdade fictícia, da posse, de alcançar o desejo, desenha uma característica desse casal: autoilusão. Eles sabem, mas continuam. E é nesse ponto, que a organização narrativa e as escolhas lexicais, invocam a tensão, a espiral.
A maioria dos modos dos verbos são indicativos, o que presume uma certa verossimilhança, enquanto os tempos verbais poderiam ser descritos segundo essa lógica: Eles sonhavam (e não alcançavam), eles sonharam (o passado também era sonho), eles sonharão (continuarão a sonhar). Os tempos verbais vão se alternando; quando achamos que eles sairão dessa autoilusão e se firmarão em outro caminho, eles retornam ao ponto inicial, a utopia se desfaz e liberdade se mostra um engodo.
Esse tensionamento também é reforçado pelo retorno dos adversativos. Vejamos um exemplo em sequência, o final de um parágrafo e o início de outro: A) Sua paixão não conhecia limites; sua liberdade era sem amarras (p. 82); B) Mas se sufocovam sob o amontado dos detalhes. As imagens esmaeciam, perdiam os contornos; eles só conseguiam reter alguns fiapos, esvaídos e confusos, frágeis, obsedantes e idiotas, empobrecidos (p. 82). Em suma, autoilusão. E continuam se autoiludindo.
Mas enfim eles agem. A segunda parte do romance é uma tentativa frustrada, é claro, mas o é. Tentaram fugir (p. 87). É como começa a segunda parte. Ou seja, o pretérito perfeito vem entregar: não conseguiram. Perec não cria um mistério em torno disso, mas atiça à pergunta: por que não conseguiram? Não há mistério, mas há tensionamento. O casal decide se mudar para Sfax, uma cidade na Tunísia. Saem de Paris, da cúpula da classe média, para as ruínas, para o deserto de Sfax; e, paradoxalmente, enquanto em Paris moram num cubículo, em Sfax moram num lugar espaçoso demais
E se sentem vazios, sozinhos. Se antes não havia espaço para as coisas, para a suntuosidade; agora não existem as coisas, apenas o espaço. Afinal, estavam perdidos entre os escombros de um sonho antiquíssimo, entre resquícios sem forma.
No fim, sim, a vida deles era como um hábito demasiado longo, como um tédio quase sereno: uma vida sem nada (p. 102). Quando encontram um grupo a qual pertencer que relembra aos tempos de Paris , Paris em Sfax, são impulsionados a voltar, novamente esperançosos. A espiral retoma.
O epílogo retoma as possibilidades: poderiam, acabariam, teriam
Porém, Perec é cruel, o passado se volta para o futuro, os tempos verbais se modificam e a espiral é anunciada: decidirão sair, farão suas malas, voltarão a Paris
Eis o sonho retornado: Sonharão em fugir para o campo, sonharão com Sfax (p. 112). Quando em Paris, sonhavam com outros lugares. Quando em Sfax, sonhavam com Paris.
A publicidade venceu e vencerá, a classe média é apertada, serão deixadas a eles algumas migalhas para o status, para as camisas de seda, para as luvas de pecari defumado. Terão boa presença. Morarão bem, comerão bem, se vestirão bem. Não terão do que reclamar (p.114). Mas a espiralar também é cruel e o último período do romance retoma, também, a adversativa: mas a refeição que lhes servião será francamente insípida e a repetição
retornará. Sonharão e apenas isso; a espiral irá os sufocar.