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    As coisas - um romance dos anos sessenta

    Georges Perec

    Companhia das Letras
    2012
    120 páginas
    4h 0m
    ISBN-13: 9788535920215
    Português Brasileiro
    3.8
    97 avaliações
    Leram172Lendo11Querem254Relendo2Abandonos3Resenhas5
    Favoritos10Desejados254Avaliaram97

    Duas décadas depois da chegada às livrarias brasileiras de A vida modo de usar, os leitores terão a oportunidade de conhecer a gênese da peculiar trajetória literária de Perec. As coisas, de 1965, pode ser lido no quadro da emergência do contexto de intertextualidade. Assinado por um jovem quase desconhecido, o livrinho saído pela editora Julliard corporificava um programa de trabalho definido, uma tomada de posição diante dos dois principais modelos então vigentes nas letras francesas: a literatura engajada (ou sartriana) e o nouveau roman. Tendo escolhido como protagonista um casal de vinte e poucos anos, na condição de exemplar típico de um determinado meio social, Perec declarou que sua ambição foi expor “tudo o que pode ser dito a propósito da fascinação que exercem sobre nós os objetos”. Jérôme e Sylvie são "psicossociólogos", emprego que na verdade não constitui uma profissão, mas que emerge com promessas de ascensão rápida na esteira do nascimento das agências de publicidade. Aplicando questionários de estudos motivacionais, atividade que lhes deixa tempo para débeis veleidades intelectuais e para a vida boêmia, no fundo os dois jovens apenas hesitam diante do inevitável: um cargo dentro de uma grande agência, passaporte para um apartamento mais amplo e para as mercadorias ostentadas nas vitrines e nas revistas.

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    Matheus Petris15/05/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Sonharam e sonharão: a espiralar de As Coisas

    Uma possível maneira de sintetizar o primeiro romance de Georges Perec, As Coisas (1965), se encontra em um verbo: sonhar. O verbo em diferentes tempos verbais: sonharam, sonhavam, sonharão. Entre passado, presente e futuro, um aspecto fundante dessa narrativa é seu ritmo espiralar. Jérôme e Sylvie, um jovem casal de publicitários, são os protagonistas e únicos personagens nomeados no romance. Antes de serem nomeados, o primeiro capítulo se refere apenas a um grupo indefinido de pessoas, que desejavam posses suntuosas. Descreve-se um ambiente luxuoso, aparentemente perfeito para quem o deseja. “A vida, ali, seria fácil, seria simples”, afirma o narrador sobre o até então grupo desconhecido. O último parágrafo do primeiro capítulo reafirma um possível equilíbrio em que a rotina ali descrita, traria a felicidade. No segundo capítulo, já sabemos que se trata de um casal, porém, a felicidade equilibrada desse “jovem casal” é interrompida por uma conjunção adversativa: “Mas o horizonte de seus desejos estava impiedosamente fechado; seus grandes devaneios impossíveis pertenciam apenas à utopia”. Ou seja, sonhavam. E o narrador é direto, pois não vivem no luxo, “viviam num apartamento minúsculo”. É a partir desse tensionamento, entre o devaneio utópico (sempre cortada pelos adversativos) e a realidade sufocante, que o narrador irá organizar essa narrativa. O subtítulo do romance parece informar as intenções de Perec: uma história dos anos sessenta. Na orelha da edição brasileira, traduzida por Rosa Freire d’Aguiar, chama-se atenção para como o escritor francês representa uma realidade da qual fazia parte. Uma chave de leitura é sugerida pelo próprio Perec, menos um romance e mais um inventário “de tudo o que pode ser dito a propósito da fascinação que exercem sobre nós os objetos”. O romance é voltado a classe média, uma crítica ácida e contundente a uma classe que acredita que pode ascender; e assim vive, no desejo de não ser mais médio. Nesse sentido, os objetos, as coisas, os deslumbram. O narrador pode descrever melhor do que eu: “Sonham com a riqueza e poderiam enriquecer: é aqui que começam suas desgraças” (p. 52). Para eles, o dinheiro seria um meio (e fim), para se chegar na felicidade, embora eles nunca cheguem próximos dela. Pois, “eram uma ilhota de pobreza no grande mar de abundância”. A citação utilizada na quarta capa desta edição, pode sintetizar essa classe à qual pertenciam e eram desejos em não mais pertencer: “Estavam enfiados até o pescoço num bolo do qual nunca teriam mais que as migalhas”. Embora, “a imensidão dos desejos os paralisava”, não tomam ações para modificar esse estado, continuavam sonhando. “Claro, sabiam que tudo isso era falso, que essa liberdade não passava de um engodo” (p.51), essa liberdade fictícia, da posse, de alcançar o desejo, desenha uma característica desse casal: autoilusão. Eles sabem, mas continuam. E é nesse ponto, que a organização narrativa e as escolhas lexicais, invocam a tensão, a espiral. A maioria dos modos dos verbos são indicativos, o que presume uma certa verossimilhança, enquanto os tempos verbais poderiam ser descritos segundo essa lógica: Eles sonhavam (e não alcançavam), eles sonharam (o passado também era sonho), eles sonharão (continuarão a sonhar). Os tempos verbais vão se alternando; quando achamos que eles sairão dessa autoilusão e se firmarão em outro caminho, eles retornam ao ponto inicial, a utopia se desfaz e liberdade se mostra um engodo. Esse tensionamento também é reforçado pelo retorno dos adversativos. Vejamos um exemplo em sequência, o final de um parágrafo e o início de outro: A) “Sua paixão não conhecia limites; sua liberdade era sem amarras” (p. 82); B) “Mas se sufocovam sob o amontado dos detalhes. As imagens esmaeciam, perdiam os contornos; eles só conseguiam reter alguns fiapos, esvaídos e confusos, frágeis, obsedantes e idiotas, empobrecidos” (p. 82). Em suma, autoilusão. E continuam se autoiludindo. Mas enfim eles agem. A segunda parte do romance é uma tentativa frustrada, é claro, mas o é. “Tentaram fugir” (p. 87). É como começa a segunda parte. Ou seja, o pretérito perfeito vem entregar: não conseguiram. Perec não cria um mistério em torno disso, mas atiça à pergunta: por que não conseguiram? Não há mistério, mas há tensionamento. O casal decide se mudar para Sfax, uma cidade na Tunísia. Saem de Paris, da cúpula da classe média, para as ruínas, para o deserto de Sfax; e, paradoxalmente, enquanto em Paris moram num cubículo, em Sfax moram num lugar espaçoso demais… E se sentem vazios, sozinhos. Se antes não havia espaço para as coisas, para a suntuosidade; agora não existem as coisas, apenas o espaço. Afinal, “estavam perdidos entre os escombros de um sonho antiquíssimo, entre resquícios sem forma”. No fim, sim, “a vida deles era como um hábito demasiado longo, como um tédio quase sereno: uma vida sem nada” (p. 102). Quando encontram um grupo a qual pertencer — que relembra aos tempos de Paris —, Paris em Sfax, são impulsionados a voltar, novamente esperançosos. A espiral retoma. O epílogo retoma as possibilidades: poderiam, acabariam, teriam… Porém, Perec é cruel, o passado se volta para o futuro, os tempos verbais se modificam e a espiral é anunciada: decidirão sair, farão suas malas, voltarão a Paris… Eis o sonho retornado: “Sonharão em fugir para o campo, sonharão com Sfax” (p. 112). Quando em Paris, sonhavam com outros lugares. Quando em Sfax, sonhavam com Paris. A publicidade venceu e vencerá, a classe média é apertada, “serão deixadas a eles algumas migalhas para o status, para as camisas de seda, para as luvas de pecari defumado. Terão boa presença. Morarão bem, comerão bem, se vestirão bem. Não terão do que reclamar” (p.114). Mas a espiralar também é cruel e o último período do romance retoma, também, a adversativa: “mas a refeição que lhes servião será francamente insípida” e a repetição… retornará. Sonharão e apenas isso; a espiral irá os sufocar.

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    • 4 estrelas34%
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    • 1 estrelas2%
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    Georges Perec

    Nasceu em 1936 e foi um dos grandes inovadores da literatura no século XX. Filho de judeus poloneses que imigraram para a França, perdeu o pai na frente de batalha, durante a Segunda Guerra, e a mãe num campo de concentração. Em 1965, recebeu o prestigioso prêmio Renaudot por <i>As coisas</i>, seu primeiro romance, e, em 1967, passou a integrar o centro de literatura experimental <b>OuLiPo</b> (Ouvroir de Littérature Potencielle), fundado por Raymond Queneau. Sua prosa extremamente lúdica recorre à lógica e à matemática para lançar uma luz surpreendente sobre os detalhes mais repetitivos das sociedades de consumo. Perec morreu em 1982.

    38 Livros
    35 Seguidores

    Georges Perec