Este foi um daqueles livros que não somos nós que os escolhemos, eles nos escolhem. Estava passeando pelos corredores da Feira do Livro da USP de 2025 quando o vi, e imediatamente me chamou a atenção, sem um motivo aparente, como se falasse comigo. Eu não sabia ainda que sua autora, a finlandesa Tove Jansson, havia sido uma renomada artista em seu país, tendo criado personagens bastante famosos por lá chamado “Os Moomins”; e nem que o livro se passava na primeira metade do século XX e foi baseado na infância da escritora, com toques de quando (anos depois) sua sobrinha Sofia foi passar o verão na mesma ilha em que cresceu.
“O Livro do Verão” é uma coletânea de contos, curtos e aparentemente descontínuos entre si, sobre a vivência de Sofia, uma menina de 6 anos, a avó de Sofia e o pai de Sofia, bem como outros personagens secundários, em uma ilha na costa finlandesa. As histórias podem ser simples ao primeiro ponto de vista, mas em uma segunda análise revelam muito do caráter humano, dos esforços que precisam ser feitos para a boa convivência, da diferença entre as gerações, do amor e da natureza. O respeito pela ilha, e até pelo musgo, é algo onipresente em todas as páginas, como se ela fosse um personagem vivo. E isso repercute na dinâmica entre avó e neta que, diferentemente de avós e netas convencionais que ficariam assando bolos ou contando histórias de dormir, saem a explorar e desbravar o pedaço de terra que chamam de lar.
Embora publicado em 1972, a ambientação se passa também na primeira metade do século 20, como refletem certas passagens de eventos históricos da infância de Tove, como a “Lei Seca da Finlândia” (1919-32). Para alguém não muito acostumado com a cultura nórdica, algumas palavras ou costumes podem ser estranhos (como usar um aerobarco ou deixar a ilha durante o inverno e preparar sua cabana para que visitantes, maioria pescadores, possam fazer uso dela durante esse período); mas nada que impeça a leitura.
É um livro belo, com um humor seco e um tanto irreverente em certa passagens, e que nos fala muito sobre os sentimentos humanos. Na leitura, é como se fizéssemos um suave passeio de barco, observando o por do Sol