Mais do que as questões literárias (e se trata de um Nobel de Literatura), o que chama a atenção nos contos desse livro é a situação incrivelmente cruel da mulher na Índia no tempo do autor (não sei em que medida isso mudou de lá para cá). Em quase todos os contos se percebe a mulher como mercadoria na sociedade indiana. A mulher valia menos do que um homem mesmo se o homem fosse alguém com transtornos psiquiátricos.
Embora resvale aqui e ali, a posição do autor em relação às mulheres parece ser favorável, ainda que isso vá contra os preconceitos que a tradição legou àquela sociedade. Há mulheres que, depois de muito padecer, adotam posições libertadoras (muitas vezes só com a morte) e outras cuja própria aceitação do seu destino expõe a crueldade do sistema em que estão inseridas. Há dramas que, se bem que narrados com simplicidade, chocam a nossa visão contemporânea.
Em termos literários, eu achei que esses contos ficaram a dever a alguns que eu já conhecia do Tagore, como os belíssimos "O abandonado" e "O homem de Cabul", que li em antologias com outros escritores. Não sei se os desse livro são de uma fase diversa do autor, mas a mim pareceu que estão um nível abaixo em relação aos que eu já conhecia. A exceção talvez fique por conta do último conto do livro, "Os vivos e os mortos", interessante história de uma mulher que se acreditou morta e continuou vivendo no mundo dos vivos (mas não por muito tempo).