Nem Nietzsche, nem Marx, nem Freud
Foucault foi, sem dúvida, um pensador importante. Embora tivesse lido há anos esse pequeno texto, confesso que me passou batido. Ainda não havia lido “As Palavras e as Coisas” e não poderia avaliar o alcance das ideias dessa conferência. Muito resumidamente e de forma cristalina, Foucault expõe sua tese no livro citado anteriormente e que é de leitura difícil. Os três pensadores significam a aurora de um novo pensamento, influenciaram definitivamente a história da humanidade e ajudaram a definir o campo epistemológico das ciências humanas. Não há, como se pode supor em um primeiro momento, uma oposição significativa entre eles. Todos trabalham com a ideia de que o trabalho do pensamento não é descobrir a verdade, mas como aquilo que assumiu o posto de verdade se construiu. Para não alongar muito o comentário, vou me referir rapidamente a Freud. A cura psicanalítica era quase uma impossibilidade porque a terapia não buscava jamais o que causou o trauma. Era em relação à cadeia de significados que ele produziu que a psicanálise se debruça. Ou seja, como, dado certo fato inicial, foi produzido um sistema que altera completamente a maneira como a pessoa lida com a vida. O trabalho do analista é mostrar como a pessoa colabora na construção e manutenção desse edifício que encobre um trauma, jamais curá-la. Os sintomas, não a causa deles. Para brincar um pouco até com a questão da psicanálise, esse texto havido quase sido apagado de minha memória com o tempo. A leitura de “As Palavras e as Coisas”, por ser muito mais complexa, tomara mais tempo e dedicação. E por apresentar suas ideias de forma mais aprofundada, jamais me lembrei de recorrer ao “resumo”. Mas há poucos meses um fato pessoal — e peço desculpas pela nota — me fez indagar sobre os três autores. Tive uma pequena discussão, em um grupo que colaborava, com um marxista e uma nietzscheana. A princípio fiquei abalado pela maneira como não aparecia a contradição entre pensamentos diferentes, não apenas por amizade. Depois de um tempo lembrei-me desse texto, que o havia lido, pois não me lembrava nem mesmo disso, e fui repassar. Uma questão ficou em minha cabeça após essa discussão: afinal, se Nietzsche é um pensador caracteristicamente conservador, por que um marxista ou, mais genericamente, um comunista iria gostar dele? E para ser mais abrangente, por que o autor é tão popular no Brasil hoje em dia? Embora pareça até simples responder à segunda questão, ela é enganosa. Não se trata apenas de influência, do caso de alguém indicar um livro para um amigo. Tampouco porque repentinamente muitas pessoas começaram a gostar de filosofia. O autor é um sucesso de vendas não porquê traga uma abordagem filosófica de temas inquietantes. Poucas pessoas partem de sua leitura para outros autores, ao contrário, como muitos comentários atestam, se fixam em outras obras de Nietzsche, esquecendo que ele é apenas um dentre uma infinidade de outros pensadores e que suas respostas não são definitivas. Mas para o caso de quem busca conforto espiritual, nada melhor. Ele é um dos maiores niilistas da história, mostrando que os pensamentos que nos afligem — todos — são meros erros de interpretação da realidade, ou seja, para usar uma terminologia mais refinada, como a do próprio autor, moralismo. Esse o motivo, não muito nobre, contudo, que transformou Nietzsche em um autor popular. É muito mais fácil, quando temos um dilema moral pela frente, grave, negar a questão afirmando que ela não tem validade, que se melhorarmos o foco e prestarmos atenção ao processo histórico, o problema é uma construção social, não um tema eterno. Pois é justamente isso que o autor ensina a quem não tem interesse por filosofia e quer apenas conhecer um pouco. Embora, para assumir um tom mais grave e entrar na explicação sobre o motivo pelo qual o autor vem fazendo a cabeça de marxistas ultimamente, não possa deixar de destacar que há o fator inerente à própria obra de Nietzsche, a respeito dos valores. Um dos pontos principais de seu pensamento é afirmar que existe uma diferença não de grau, mas de espécie entre a moral do senhor e a do escravo. A diferença pode ser resumida da seguinte maneira: para o senhor os valores nascem de sua vontade, é em relação a seu desejo que algo é definido como bom ou ruim. Na moral do escravo a maneira de qualificar bem e mal é completamente diferente: o bem é algo que torna melhor, que ajuda a evoluir, enquanto o mal é algo que atrapalha, que fere. Basta ver que o senhor é primeiro em relação ao mundo, dá sentido e nomeia as coisas a partir de seu desejo, do uso que faz delas. Ao escravo, sem essa capacidade, resta apenas definir o que lhe machuca ou lhe poupa. Um é totalmente ativo, enquanto o outro é passivo, resignado. Consequentemente, como os valores de uma época são decididos pela própria época, há que se lamentar que os homens estejam cedendo à maneira dos escravos de nomear e compreender o mundo. Nietzsche insiste nessa constatação e mostra como o cristianismo, a ausência de potência em seu sentido mais completo, realizou a obra de transformar a humanidade nesse ser mirrado e impotente, e, além disso, ressentido, pois ao notar que não tem mais a capacidade de decidir seu destino o homem moderno alimenta uma revolta generalizada contra a existência. Ora, os valores são, portanto, uma construção social, não há, em última análise, uma verdade a que se submeter ou que possa nos salvar, logo, por que nos prendermos a esses valores herdados do passado? E quando fala em passado, Nietzsche sempre deixa claro que se refere ao que o cristianismo traz de mais arcaico e mesquinho. Sua imagem de porões fechados, subsolos mofados, locais onde o que é saudável não habita, sempre acompanha a caracterização dos sacerdotes cristãos. Ele preferia o ar da montanha, saudável, onde seu Zaratustra poderia respirar bem, e que praticamente feria os pulmões dos homens pequenos. Todas essas metáforas conseguem criar uma imagem de repúdio no leitor. Imaginamos que precisamos seguir novos caminhos, novos valores, uma nova era. Não fica mais tão difícil imaginar como o pensamento de Nietzsche, que associava o pensamento radical anarquista ao cristianismo (por preservar valores que não passam de mera construção histórica, como a solidariedade e a caridade), mas que poderia por associação também servir em relação ao marxismo, pode ser lido sem grande peso na consciência pelos comunistas brasileiros. É a noção de que os valores não tem lastro real a não ser o que foi imposto por uma liderança decrépita, e que podem ser modificados, bastando para isso que se assuma a posição de comando o que agrada aos marxistas brasileiros. Embora não julgue necessário escrever sobre Marx nesse comentário, vale a pena lembrar que a questão do poder é essencial em seu pensamento. Porque a burguesia tomou o poder, primeiro na Europa e depois em todo o mundo, afirmando que traria uma era de liberdade para o povo. No entanto, logo se descobre que queria apenas tomar posse do Estado nacional (a posição de poder) para controlar a sociedade e direcioná-la segundo seu desejo e necessidade. É por esse motivo que não se trata de mostrar que a verdade é a luta de classes, mas que a burguesia o fez assim, ao “libertar” o trabalhador dos meios de produção feudais e submetê-lo ao regime da fábrica. É a versão da burguesia que chegou ao poder e passou a ditar todos os valores, as leis, o modo que nos relacionamos com outras pessoas, e ela precisa ser derrubada, para que novos valores dominem a sociedade. Isso é muito parecido com o que afirma Nietzsche. Embora este não se refira jamais ao termo burguesia. A questão é que não existe uma oposição real entre o pensamento de Nietzsche e o de Marx. Ambos, conforme nos mostra Foucault nesse texto, trabalham com o conceito de que a verdade é mera construção histórica. Quanto às críticas ao socialismo como descendente do cristianismo, é fácil resolver com a referência a base científica do marxismo. Como é a análise econômica que Marx faz do capitalismo o que embasa suas afirmações, fica fácil deixar de lado o aspecto dos valores que a proposta comunista de sociedade exige. Esses valores dão um capítulo à parte, porque não basta apenas afirmar que o passado está morto, como muitos acreditam, para que ele pare de nos incomodar. E basicamente é esse passado que perturba a realização do projeto marxista de sociedade...

