“Cumpre dizer que, nos nove contos que compõem o volume, há sempre histórias interessantes e muitas francamente divertidas –histórias da vida provinciana e das histórias que se contam na vida provinciana, histórias de mulheres e de adolescentes, de aprendizagem do amor e da sexualidade, de encontros e separações –, e cumpre acrescentar que Teresa Veiga escreve de uma maneira que recebe sem favor o nome de estilo: com rigor e sobriedade, a sua escrita revela um notável sentido da alusão, da ironia e do humor e, retoricamente falando, um sentido do decoro, da necessidade de o manter e da oportunidade para o perder. Mas seria inadequado alinhar este livro na prateleira dos que defendem que a história é tudo. Bem pelo contrário, o que resulta da leitura é a ideia de que a história que o conto mostra fica por contar e se resguarda como um segredo: não porque estes contos cultivem o mistério, a intriga da descoberta inacabada ou suspensa num jogo de hipóteses igualmente plausíveis, mas porque essa história é, na verdade, inacessível ao conto e ao acto de contar. [...] Assim, o conjunto pode ler-se como um corpo de narrativas da mesma narradora, fragmentos de uma narrativa mais vasta que precisamente se recusa. Ou seja, a opção pelo conto aparece como recusa do romance: porque é o conto que permite a inclusão de uma narrativa em que a narradora não é a mesma Agustina sem prejuízo para a coerência do conjunto, e sobretudo porque é o conto que desvincula a identidade da narradora da coesão de um universo acabado. Pelo contrário: cada conto se divide em histórias que, uma a uma, compõem a imagem do disperso e do inacabado em que a ideia de uma totalidade da experiência se recusa.” Abel Barros Baptista, “A história no mapa do conto”, Público –Leituras, 3.4.1992.
