Numa narrativa que procura mesclar linguagem jornalística e relato histórico, Marcos Augusto Gonçalves dá vida aos personagens e descreve as jornadas que animaram o Teatro Municipal nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, durante o festival que ficou conhecido como 'Semana de Arte Moderna'. Ao mesmo tempo em que reconstitui passo a passo o evento, o autor busca despir o episódio de mitos que o foram cercando ao longo do tempo - desde certas fantasias associadas a uma espécie de superioridade paulista na formação da cultura moderna brasileira, até as versões que, ao contrário, insistem em diminuir a importância histórica dos festivais encenados pelos rapazes modernistas e patrocinados pela elite econômica da emergente Pauliceia. O autor procura reavaliar a participação do Rio de Janeiro naqueles anos de formação da modernidade artística, e inscreve os jovens personagens de 1922 numa rede de relações pessoais ampla e complexa - na qual trafegam oligarcas, playboys, mecenas, mulheres fatais, imortais da Academia e poetas 'passadistas'. O livro tem base em pesquisa, bibliografia e entrevistas com especialistas e também traz fotos e reproduções.
1922 - A semana que não terminou
Marcos Augusto Gonçalves
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Ver maisSemana de Arte Moderna em perspectiva
Em 1922 – A semana que não terminou, Marcos Augusto Gonçalvez enriquece nossa visão da Semana de Arte Moderna e seus protagonistas, sem cair na glorificação vazia. 1922 – A semana que não terminou começa narrando o episódio, no início de 1922, que abalou a capital paulistana e tornou-se assunto nas principais rodas de conversa da emergente cidade. Não, não se trata da Semana de Arte Moderna, mas de um tremor que abalou a capital paulista no dia 27 de janeiro. É com essas maravilhosas digressões – que, de alguma forma, sempre acabam somando ao nosso conhecimento sobre a Semana em si – que Marcos Augusto Gonçalves, jornalista da Folha de S. Paulo, consegue nos transportar para a São Paulo dos anos 20. Com um desenrolar fluente e dinâmico, o livro é um retrato de um dos maiores eventos que a nossa cultura já viveu. Mas não espere ler uma descrição de um acontecimento grandioso, minuciosamente planejado, como faziam seus professores de ginásio. Passados 90 anos, Gonçalves permite-nos reavaliar com franqueza as reais dimensões da Semana, e as reais motivações de seus protagonistas. Para cumprir tal tarefa com responsabilidade, o autor nos traz valiosos insights nas vidas dos principais personagens da Semana – Anita Malfatti, Mário e Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, entre outros – que são os pontos altos do livro. Da incrível história de como Anita enfiou-se sob os trilhos do trem para ver sentido na vida, às peripécias amorosas de Oswald, as bem arquitetadas breve biografias nos tornam íntimos desses ícones culturais, derrubando-os de seus pedestais. Somente assim podemos nos aproximar o suficiente da gênese da Semana para compreendê-la integralmente. Gonçalves também sabe encaixar estrategicamente teorias curiosas – como a possibilidade de Monteiro Lobato jamais ter visitado a exposição de Anita Malfatti antes de escrever sua famosa crítica – para manter o interesse do leitor sempre vivo. De anedota em anedota, vamos descobrindo que a verdade é muito mais complexa do que a lenda cristalizada por 90 anos de reverência. Acabamos tão encantados pelo estilo da narrativa, que a pouca atenção dispensada a alguns episódios célebres (como o rompimento da amizade de Oswald e Mário, que recebeu apenas um parágrafo na página 226), bem como à Semana em si, é um pouco decepcionante. Ainda assim, 1922 – A semana que não terminou é um livro informativo sem ser enfadonho, que coloca a Semana de Arte Moderna em perspectiva de forma completamente honesta, e expondo todos os ângulos possíveis da história que tornou-se História. A obra promete agradar tanto aos apaixonados por arte, quanto aos que apreciam um bom livro.
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