Fala-se muito das Amazonas da Grécia, das Américas, da Europa e da Ásia... Foram ou não uma realidade? E as amazonas angolanas? Aquelas mulheres guerreiras que derrubaram preconceitos e cada dia lutaram contra a dominação colonial, contra invasões estrangeiras, contra a cultura, política e religiões impostas, que se notabilizaram e não são muito faladas... Que cessem as amazonas e as musas do sábio Grego e do Troiano. Da fama e das vitórias que tiveram; que eu canto o peito ilustre afro-angolano a quem Nepturno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa Antígua canta que outro valor mais alto se levanta! Entre as guerreiras gloriosas, de que a humanidade guardará a eterna e agradecida memória, avulta a Dona Kimpa Vita*, sacedortiza popular no reino do Congo, uma precursora das figuras proféticas das igrejas independentes e a criadora de um movimento que utilizava os símbolos cristãos, mas revitalizou as raízes culturais tradicionais do Kongo. Não usou espada, nem armas, não derramou uma gota de sangue humano, sequer. No entanto, encetou muitas batalhas na segunda metade do século XVII contra a desintegração cultural e um desarranjo político no reino Kongo (território que hoje faz parte Angola, Zaire e Kongo). As forças do reino do Ndongo haviam vencido o Kongo... No final de seiscentos, o Kongo possuía três reis, sendo D. Pedro IV o mais poderoso deles, aparentemente, e talvez o único capaz de levar adiante um projeto de reunificação congolês. Dentro desse vácuo cultural e político, diversos profetas messiânicos surgiram para proclamar suas visões sócio-religiosas. A mais importante entre eles foi Kimpa Vita, uma jovem moça que acreditava estar possuída pelo espírito de Santo António de Pádua, um santo católico popular e realizador de milagres. Na realidade a cristandade de Kimpa Vita já havia caído no sincretismo, uma mistura do cristianismo com as religiões tradicionais africanas... João Portelinha com esse trabalho que não é apenas uma fria pesquisa histórica de um profissional dedicado, mais ao lado do rigor cientifico, faz-nos uma narração sobre a heroína do Reino do Congo com rara beleza. São impressionantes e minunciosos relatos de como ela foi queimada viva por se considerar "Santo António"!Este livro de contos do renomado autor angolano, muito lido no Brasil, certamente não veio ao lume para repetir o que os outros já disseram, mas para trazer novas luzes, proporcionar novas emoções e entretenimento. Este é um dos aspectos do livro de Portelinha. Com paixão e rigor cientifico de um Arqueólogo empunha um pincel e vai removendo, com cuidado, a poeira para descobrir novas riquezas arqueológicas, Portelinha mergulha na pesquisa com igual dedicação para mostrar novos aspectos da história de seu povo. É um belo livro para se ler.
