Na Batida do Surdo - A morte pede Passagem

    Antonio Luiz Mendes de Almeida

    Garamond
    1999
    247 páginas
    8h 14m
    ISBN-10: 8586435171
    Português Brasileiro

    Poucos intelectuais lograram penetrar no mágico universo do carnaval; por isto, a literatura sobre a nossa maior festa popular é escassa e pobre. 'Na batida do surdo' vem preencher essa imensa lacuna. As personagens, sambistas que vão participar do evento, envolvem-se numa trama de interesses políticos, financeiros e sociais cujo entrecho prende o leitor da primeira à última página. Há um painel de acontecimentos que vão da aventura de tentar ganhar o samba-enredo às intrigas das armações para proteger este ou aquele elemento. A figura excêntrica do patrono da escola se projeta como a de um verdadeiro monarca tupiniquim, com seus poderes ilimitados e absolutos. Antonio Luiz consegue passar o clima barroco e surrealista presente em todas as etapas dos preparativos até chegar ao grande dia do desfile - e o leitor se imaginará no asfalto, na passarela, recebendo os aplausos e vivendo as emoções únicas do carnaval, o maior espetáculo da terra.

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    Luis Eduardo Souza Costa13/09/2015Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    Samba atravessado

    Não sei se todo mundo tem a mesma sensação, mas eu fico meio que embriagado em bienais. De 1991 para cá, só perdi a de 97, sendo que em algumas edições, cheguei a ir ao evento mais de uma vez. Embora o gigantismo da organização seja algo que poderia ser revisto, além do exagerado foco na moda dos “autores celebridades” (alguém tem que pagar as contas...), essa atmosfera de culto ao velho objeto de papel, me leva muitas vezes a apostar em títulos desconhecidos (para mim), o que sempre pode trazer uma agradável surpresa ou lamento de consternação. Esse último é o caso de “Na batida do Surdo” (Garamond, 1999). Comprado em um estande da Secretaria Estadual de Cultura, que oferecia exemplares novos a um preço máximo de 4 reais, o livro chamou a atenção pela utilização do universo do carnaval carioca, mais especificamente o das escolas de samba, como elemento para um enredo policial promissor, envolvendo disputas pelo poder opondo o tráfico e a contravenção. Tinha tudo para dar certo. Não deu. Já pelo involuntário aviso da orelha, assinada por Hiram Araújo, Diretor do Departamento Cultural da Liga das Escolas de Samba, percebe-se que o autor, Antônio Luiz Mendes de Almeida, irmão do professor Cândido Mendes, não tem proximidade com o tema mas, nas palavras de Hiram, “é um intuitivo(...) e vai aos botequins conversar com gente do povo, retratando com extrema propriedade o espírito carioca(...)”. Talvez aí resida o maior problema de “Na Batida do Surdo”. Claro que nunca foi (nem será) pré requisito para qualquer autor ter intimidade visceral com o assunto que aborde, porém, o mínimo de conhecimento aliado a uma dose considerável de habilidade para entender a atmosfera e traduzi-la para letra de forma, é a base para a fabricação do cimento que constrói a ficção. Sem isso, sobram clichês e artificialismos, incapazes de sustentar uma história ainda que nascida de uma ideia original. A obra de Mendes de Almeida é um exemplo crasso desse tipo de postura. Um dos conflitos que aparentemente move a trama é a utilização da escola por parte de um traficante que pretende usar o espaço como zona de influência para seus negócios. O presidente da agremiação, envolto nos inúmeros problemas logísticos da preparação do desfile, recorre então a um contraventor que cobra pela “proteção”. Em paralelo, a disputa pelo posto de mestre e sala, envolvendo um veterano sambista e uma nova revelação, mobiliza boa parte dos integrantes da comunidade, disputa essa que também acaba sendo influenciada pela briga de poder entre Leão Branco (o traficante) e Ananias (o contraventor). Difícil afirmar o que de fato incomoda mais : se a ingenuidade no desenvolvimento do enredo, item que assemelha o texto em certos trechos a uma redação escolar de nível fundamental; a fragilidade na construção dos personagens, revestidos de má caricatura; ou ainda a utilização de diálogos descartáveis típicos de autêntica subliteratura. Muito já se escreveu sobre a distância da ficção brasileira em relação aos temas que permeiam a nossa cultura popular, notadamente o futebol e o carnaval. Embora a dívida ainda seja grande, boa parte vem sendo amortizada nos últimos anos, trazendo abordagens interessantes, jogando luz sobre autores contemporâneos. “Na Batida do Surdo” tem o mérito de ser uma obra pioneira nessa questão. Pena que só pioneirismo não basta.

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