Letitia (Tish) Everett é uma enfermeira que acabou de sair de um relacionamento abusivo, após encontrar um estranho medalhão em uma venda de usados, acaba sendo transportada para o mundo de Sang, onde as criaturas evoluíram para se alimentar de sangue (Blud), tendo o que chamamos no nosso mundo de vampiros (Bludmen). Logo descobrimos que esse lugar onde Tish foi parar é dominado pelos humanos (Pinkies), e que um golpe para acabar com todos bludmen de Sang pode estar à caminho. Tendo que se dividir entre dois mundos, será ela capaz de sobreviver?
Logo após chegar em Sang, Tish encontra Criminy Stain, o mestre de um circo ambulante e junta-se a eles, descobrindo ter um poder raro naquela terra. Uma das primeiras coisas que me decepcionou no livro foi a falta de imersão, a autora não consegue nos transportar para aquela trupe, tampouco para esse novo mundo - que ao menos deveria ser - extraordinário. Acho que o fato se deu por ela tentar explorar lugares demais, sem criar uma atmosfera para cada um dele. Para mim, não fazia diferença se estávamos em Manchester, Brighton, nos vagões, ou em qualquer outro lugar.
Nossa personagem principal, Tish, não tem nada que a diferencie das demais heroínas de romance por aí, ela teve problemas em relacionamentos passados, não está à procura de um novo, é decidida, mas ao mesmo tempo tem problemas com decisões, é forte, mas sempre precisa de alguém para a guiar. Eu sequer me lembro dos traços marcantes dela, porque eles simplesmente não existem, a única coisa que sei é que ela é uma enfermeira.
Criminy é outro caso. Ele é exatamente como outros pares românticos por aí. Cheio de segredos, lindo, algo ruim aconteceu em seu passado, charmoso, engraçado, inteligente. As únicas vezes em que eu conseguia sentir que Criminy era uma pessoa e não e um robô, era nas vezes em que víamos outro lado dele, um lado mais frágil e sem todos os seus truques, alguém que não tem um plano, mas está tentando seu melhor e acredita que as coisas acabarão bem, que confessa que não sabe tudo que aparenta saber. Mas isso foi algo que aconteceu apenas duas ou três vezes durante o livro.
No começo, estava pensando que seria ao menos poupada de mais um triângulo amoroso. Mas, oh, boy, como estava errada. É aí que conhecemos Casper, um pianista que também era do mundo de Tish, e que não tem função nenhuma na história além de causar algum atrito entre o casal principal. Não dá para pensar nem por um momento que os dois vão acabar juntos.
Outro ponto que me incomodou bastante foi o fato de que, no começo, somos apresentados a um poder da Tish, ela consegue ver pequenos pedaços do futuro quando toca nas pessoas. Acho que ela é chamada de Glancer, ou algo assim. Pois bem, esse poder é usado em umas vinte páginas e depois ninguém mais se lembra que ele existe. Sem falar que a autora quebra o suspense ao usar o poder dela no Criminy, é difícil temer pela vida dos dois quando sabemos logo no começo que ficarão bem.
A escrita da autora não é ruim, mas também não tem nada que a destaque. Meu sentimento é que o livro passou por um bom editor, ainda assim, suas quase 400 páginas poderiam tranquilamente ser 200. Existem tantas coisas que não fazem sentido, personagens que aparecem e não tem nenhum propósito na trama, eu me sinto ofendida como leitora que a única forma que a autora encontrou de desenvolver a relação do casal principal foi através do ciúmes, jogando diversos personagens em cima dos dois. Em certo ponto do livro, eles fazem uma viagem enorme cujo único propósito acaba sendo eles encontrarem uma mulher interessada em Criminy. Essa viagem foi um dos meus maiores problemas no livro, pois tudo nela parecia forçado. As paradas que eles faziam, as pessoas que encontravam, o objetivo deles, os acontecimentos. Principalmente os acontecimentos. Coincidências para criar problemas, tudo bem, mas para resolvê-los, é demais.
As falas do Criminy parecem ter sido todas programadas. A pior parte era ele tentando explicar seu amor à primeira vista pela Tish. Os diálogos dos demais personagens têm ainda menos personalidade..
A mitologia é confusa, nunca nos é explicado como as coisas acontecem, como o protagonista faz seus truques. O mais perto que chegamos, é ele dizendo a Tish que ela não quer saber como aquilo é feito. A mágica dele dura ou acaba dependendo das necessidades do livro. Não sabemos de onde vem a magia desse mundo, como é feita, qual o seu custo. Você não precisa criar e explicar detalhadamente o sistema de magia de um mundo no primeiro livro, mas os princípios básicos deveriam ter sido colocados, pois da forma que foi, pareceu mais uma ferramenta da autora para fazer o que quiser na história, contando com a suspensão de descrença do leitor.
O cenário político de Sang também é estranho. Os Bludmen parecem ser ao menos metade ou mais da população, eles são mais fortes e vivem muito mais tempo, parecem ter mais afinidade com a magia do que humanos. Então como eles foram tão completamente derrotados? Porque ou eu acredito que essa é uma raça predatória ou poderosa, ou que eles forma derrotados e domesticados por um número menor ou igual a si de humanos. Eu não vou sequer falar da tentativa de fazer paralelos com acontecimentos históricos do nosso mundo e Sang. No final, ficamos sabendo que existem outras nações cujo cenário político é diferente, o que deixa tudo ainda mais confuso, pois a autora, desde o começo, passa a impressão de que todo o mundo de Sang está na mesma situação. Por que isso não foi mencionado antes? Por que os bludmen que estão sendo oprimidos em Manchester (eu não lembro o nome do país onde eles estão) e outras cidades não fogem para o reino em que sua raça domina, explique-me como não há uma crise de migração entre os continentes. Afinal, os Pinkies desse reino iriam querer ir para Manchester também.
A tecnologia não é explicada e pouco utilizada, não me senti dentro de um mundo steampunk, mas sim em uma era do passado que alguém houvesse jogado elementos aleatórios. "Ah, sim, aqui está o seu robô, que tem várias funções, obedece a comandos de voz e não tem fonte de energia", "olhe esta carruagem que se dirige sozinha, mas também não tem sistema de localização ou fonte de energia", "sim, as casas são uma em cima da outra, porque é muito mais fácil desobedecer as leis da física do que construir casas uma ao lado da outra, fortalecer e aumentar a muralha que nos protege".
A fauna é praticamente só constituída de animais que bebem sangue e/ou comem carne, casos de canibalismo sendo comum. Eu me pergunto como uma fauna assim se sustenta e não tem grandes oscilações em sua população.
Um dos - poucos - pontos bons do livro, foi quando na cena clássica do vilão explicando seu plano era questionada pela heroína durante a narração, uma ferramente bem utilizada, a autora admitindo como o plano era absurdo para que pudesse seguir em frente. Achei interessante não existir microrganismos patológicos em Sang, mas não posso deixar de me perguntar se existem microrganismos at all e, se não, como a evolução se deu nesse mundo. Também nos é dito que os Bludmen conseguem sobreviver com até um vial (frascos pequenos parecidos com tubos de ensaio) por dia, o que me leva a duas conclusões, primeiro, é muito pouco, ou é outra parte mística mal explicada, ou então o metabolismo deles é super otimizado. Segundo, os Bludmen poderiam tranquilamente ter matado quase todos os humanos e ainda teriam meios de sobreviver, já que precisam de pouco, então por que não fizeram isso?
A inversão de vampiros sendo oprimidos por humanos foi algo interessante, mas que acabou sendo mais um problema no enredo. É algo bem simplista até, no que toca cultura e sociedade, os humanos são os cristãos, os vampiros são os politeístas com a religião apagada. A sociedade é muito simplista, não convence.
O romance é chato, por um momento, no final, quando estamos pensando que o Criminy vai morrer à despeito da visão de Letitia, cheguei a ter esperanças que a autora ousasse, que colocasse a heroína sozinha naquele mundo, sem o amor da sua vida (que ela conhece há alguns dias), que parece não ter mais motivos para voltar a Sang. Mas espere, há a trupe desfalcada e sozinha que precisa de um novo líder. Letitia se torna a noiva rainha dos ciganos, usando seu poder para guiar seu grupo e ajudar no cenário político de toda a população. Mas ele vive, claro, e continuamos a história previsível como sempre.
Tenho que dar o crédito a Letitia e dizer que o plano dela, apesar de simples, expôs o quão tolo o vilão era e a facilidade de derrotá-lo quando ele permitiu que ela voltasse ao seu mundo. O epílogo é bom, mas da a sensação de que nada realmente mudou, acabamos no mesmo ponto do começo, quando Tish chega a Sang, mas não da a sensação de ser uma história circular, mas que nada que aconteceu importou.
Foi uma decepção ainda maior porque gosto de histórias em que o personagem principal vai para outro período ou um mundo diferente do seu, mas Letitia não passa a sensação de fascínio ou confusão que alguém na posição dela teria, tornando ainda mais difícil simpatizar com ela.
Arrastado e clichê, Wicked As They Come abusa da suspensão de descrença do autor, que pode agradar leitores que estão entrando no gênero de romance paranormal (é até doloroso considerá-lo steampunk), mas que não convence os mais experientes.