Como sempre, na hora de escolher um livro minhas manias não faltam. Se por um lado o doce amanhã não é um livro com título esdrúxulo, eu acabei o escolhendo por um outro simples motivo, o forte conteúdo psicológico que o livro poderia ter, afinal toda fatalidade gera pensamento sobre ela, e outras possíveis temáticas; como quem tem culpa, como reagir, se é possível superar, dentre tantos outros.
Em uma cidade do interior do estado de Nova York, Dolores Driscoll, como sempre faz, apanha todas as vinte crianças no seu ônibus escolar, mas no meio do caminho acontece um acidente com o ônibus escolar no qual ela dirige e todas as crianças morrem. Apenas Dolores e Nicole Burnell sobrevivem, mas esta acaba ficando paralítica. Com a tragédia, surge na cidade o advogado Ilmo. sr. Mitchell Stephens (como ele mesmo gosta de ser chamado), a intenção dele é representar as famílias das crianças em um processo, mas o mais interessante é que nem ele sabe contra quem, em especifico, se dirigira este processo. Em um determinado momento do seu relato na trama ele diz que faz isso não por caridade ou beneficência, mas somente porque realmente gosta deste tipo de processo.
Há dentro do livro quatro vozes narrativas envolvidas de alguma forma no acidente: Dolores Driscoll, Nicole Burnell, Billy Ansel e Mitchell Stephens. Dolores é a motorista do ônibus, mãe de dois filhos e casada com Abbot, que após sofrer um derrame fica com um lado do corpo paralisado e passa a mostrar dificuldades na fala. Ela mantém uma dependência muito grande com seu marido, parece que ele funciona como um cérebro para os dois.Nicole é uma garota normal, bonita e um pouco popular, trabalhava de babá, sofria abuso sexual do seu pai, e após o acidente fica paraplégica e acaba ficando mais introspectiva. Outro fator que faz com que ela saia pouco e que a irrita é o fato de as pessoas terem pena dela.Billy Ansel é um veterano do Vietnã, tem um posto de gasolina onde constantemente emprega outros veteranos. Ele já é um personagem bem pra baixo, pela morte da mulher. Quando os filhos morrem, basicamente ele fica sem motivos para viver, e acaba se tornando uma espécie de zumbi alcoólico. Ele também é visto como um cidadão modelo da cidade.O Sr. Stephens é aparentemente um grande advogado, que tem uma filha com constantes problemas com drogas, e gosta dos processos de fatalidade.
O que eu mais gosto no livro do Banks é o fato do que não foi feito à trama de uma história que podia ter explorado a veia sanguinária, a questão da culpa, que em minha opinião: buscar culpas em fatalidade é se comportar como cachorro que corre atrás do rabo. A grande temática do livro não é uma tragédia, mas sim como fica a vida após a tragédia. O legal é que o autor não entope o leitor com a vida pós-acidente; na verdade ele pega o acidente como gancho para fazer sondagens sobre a vida em uma cidade pequena, com pequenos comentários dos narradores sobre a vida alheia. É como se o acidente fosse um motivo qualquer para ele focar a vida naquela cidadezinha, e isso ele faz com minuciosas descrições da cidade e de quem vive lá. O estilo fluido e leve engana o leitor, que acredita que a qualidade do livro se mede em dificuldade na leitura. Outro detalhe que muito me impressionou foi que não há um caos ou pânico na cidade após o acidente, talvez ele esteja lá, mas como o fato é mostrado através de pensamentos lúcidos, há uma grande coerência.
Para quem tem medo de este ser um livro pesadão, garanto que ele não é. Pelo contrário, como o título faz menção, é como se todos acordassem em um doce amanhã, de certa forma melhores e mais serenos, apesar da deliciosa melancolia que envolve o livro. E assim este livro se torna um dos melhores que li em 2012.