Foi a segunda obra publicada de José Craveirinha. Capta o quotidiano moçambicano, entre experiências neo-realistas de um povo submetido ao colonialismo e a denúncia de tudo o que odeia e ama. É um discurso inconformado que versa tanto pela luta pela sobrevivência em situações severas e precárias como pelos frutos da terra, o canto e a dança, a música e os heróis do dia-a-dia. - Este jeito de contar as nossas coisas à maneira simples das profecias - Karingana ua Karingana! – é que faz o poeta sentir-se gente E nem de outra forma se inventa o que é propriedade dos poetas nem em plena vida se transforma a visão do que parece impossível em sonho do que vai ser. - Karingana! (José Craveirinha) A primeira estrofe de “Karingana ua Karingana” é clara. O eu-lírico-poeta confessa aí qual é o seu ofício: o do contar profético. Em “Poesia Resistência”, Alfredo Bosi afirma que o poeta é o doador de sentido às coisas e que o poder de nomeá-las significou, na Antigüidade, dar a elas sua verdadeira natureza. É esta a reivindicação de Craveirinha: o direito a ser poeta, a exercer sua vocação, não mítica, mas poética. Remonta, de certa forma, à Antigüidade, o tempo no qual a poesia nomeava e desvendava o mundo, por meio da oralidade em Karingana e, agarrando-se à pele da escrita, Craveirinha dá a si próprio o direito de dar nome às coisas e profetizar, demonstrando plena consciência de que o princípio de esperança da vocação poética é propriedade do poeta. Cantar o mundo e reinventá-lo é direito exclusivamente seu. Sua vocação.

