Reflexões sobre o socialismo -

    Maurício Tragtenberg

    Unesp
    2008
    179 páginas
    5h 58m
    ISBN-13: 9788571398177
    Português Brasileiro

    O objetivo deste livro é mostrar o processo histórico das lutas dos trabalhadores, isto é, as lutas operárias condicionadas pelo tempo e lugar, oscilando entre a capacidade que têm de criar novas relações sociais igualitárias e sua deformação em relações desiguais, hierárquicas, quando os partidos ou aparelhos políticos substituem os trabalhadores na direção das suas lutas.

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    Luciano Ventura23/03/2020Resenhou um livro
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    UMA ANÁLISE SOBRE O QUE SE PRATICOU

    Por mais que alguns afirmem que hoje vivenciamos um mundo pós-utópico, dizendo que a utopia social já fora concebida, concretizada e acabada no último século, o professor Maurício Tragtenberg alega o contrário. Em sua obra Reflexões sobre o socialismo (1986), Tragtenberg afirma que as experiências ditas socialistas e comunistas no Leste Europeu, em nada – ou muito pouco – tiveram de socialismo em sua conjectura. O argumento mais forte usado por ele para corroborar sua posição fica expresso no capítulo O Capitalismo de Estado na URSS, no qual ele realiza uma aproximação dos sistemas econômico-políticos que vigoraram em ambos os hemisférios, e cimentaram a oposição ideológica vigente na chamada Guerra Fria (1947- ?,1992 talvez). O professor alega que, se no Ocidente predominou o Capitalismo clássico, com todos os seus componentes expressos no Liberalismo, por detrás da Cortina de Ferro, o que era tratado por Socialismo, na verdade, não passava de uma vertente da lógica do capital, e à qual ele denomina Capitalismo de Estado. Realizando uma análise das relações de produção e sociais praticadas do lado oriental do Muro, constata que, tão qual nos países liberais, dentro do bloco liderado pela URSS havia, na estrutura produtiva, havia o emprego do Taylorismo, existindo a divisão do trabalho entre aqueles que o planejam e gerenciam e os que simplesmente o cumprem, e possuíam o lucro como objetivo. Mostra também a impossibilidade de se nomear Socialismo um sistema que possui um eixo vertical de tomada de decisões, onde uma pequena cúpula privilegiada se apropria do Estado, fazendo-o percorrer os caminhos que acreditam serem os melhores – em menor vezes para o coletivo e em maior para si própria. Com o objetivo de provar que Socialismo é uma prática real e que nunca fora executada de fato porque suas tentativas sempre foram sufocadas, Tragtenberg enumera e explica algumas destas experiências podadas pela força do interesse particular, a saber: a Oposição Operária, ocorrida na Rússia, em 1920, quando o Estado, por meio do Partido Bolchevique, expropria os trabalhadores da prometida posse dos meios de produção, fazendo com que estes se rebelassem; a Rebelião de Kronstad, ocorrida em navios ancorados no porto de mesmo nome, em 1921, nos quais marinheiros clamavam por democracia, ausente no regime revolucionário soviético; a Revolução Makhnovistchina, onde trabalhadores camponeses da sul da Ucrânia se organizaram para gerir o trabalho e a produção, mas em 1920, à força, cederam ao comando dos líderes comunistas da URSS; os levantes populares por mais – ou alguma - liberdade no Leste Europeu, cujos símbolos são a Romênia, em 1956 e a mais triste Primavera de Praga, ocorrida em 1968. Além da análise das causas, dos desenvolvimentos e desfechos dos episódios acima citados, o professor também cita a Comuna de Paris (1871), as revoluções húngara e alemã (1918), a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e o movimento de Maio de 1968 como momentos históricos nos quais houve a tentativa de se edificar um Socialismo verdadeiro. O papel desenvolvido na trama social pelos Partidos Políticos e pelos Sindicatos também é objeto das reflexões de Maurício. Sobre os Partidos, o professor dedica-se à Social Democracia e ao Eurocomunismo na tentativa de compreender a estrutura política européia e sua influência pelo mundo. Inicia tal processo expondo um panorama composto pelas três Internacionais já realizadas: a Primeira, na Inglaterra de 1864, sob o nome de Associação Internacional dos Trabalhadores, onde os ideólogos participantes ainda não se agrupavam em partidos políticos; a Segunda, na França, em 1889, já com a participação dos partidos, liderados pelo Social Democrata Alemão; e a última, realizada na URSS, em 1919, sob a influência do Partido Comunista local. Dentro da crítica desenvolvida por Tragtenberg ao cuidar deste assunto, ele pontua o enfraquecimento da Social Democracia ao uso que dela se fizera nos momentos de crise do Capitalismo. Segundo ele, seria mais interessante aos que detinham o capital aderir a uma política menos radical, e conformar o conjunto dos trabalhadores, do que sofrer o risco de uma tomada de decisão mais enérgica destes. A emergência de um novo tipo de Comunismo, no lado Ocidental do Muro, é refletida pelo professor em um capítulo do livro que aborda o Eurocomunismo e os países nos quais mais encontrou terreno para seu desenvolvimento: Espanha, Itália e França. Sugere que a emersão desta nova postura política comunista tenha sido estimulada pela percepção das falhas existentes no Stalinismo praticado pelo Partido Comunista Soviético. O afastamento dos PC’s ocidentais com relação a Moscou culmina no “neutralismo positivo” no tocante à política internacional Ocidente-Oriente. Tragtenberg visualiza aspectos positivos no Eurocomunismo, como seu desprendimento da política soviética, mas aponta os negativos, como a proposta de reforma gradativa, caracterizada pela “crença ingênua no jogo eleitoral” como instrumento de passagem do Capitalismo ao Socialismo. Quanto aos Sindicatos, o professor credita a eles a mesma função negativamente diretiva e monopolizadora que têm os Partidos Políticos. Explica, ele, que o mal se deve à estrutura não democrática, e muitas vezes subjugada ao patronato, existente neste tipo de associação. Mas Tragtenberg enxerga a luta dos trabalhadores legitimamente representada nas ações do Sindicato Solidariedade da Polônia (1978), que conseguiu, desafiando o poder do Partido Comunista local, congregar os operários, colocando em paralelo o Sindicato Oficial existente. A obra é encerrada por uma cronologia dos fatos relacionados à política trabalhista mundialmente ocorridos entre 1964 e 1980. A ela se segue um suplemento que trata do Sindicato Independente dos Trabalhadores, criado na URSS em 1978. Nele existem relatos de trabalhadores perseguidos pelo regime soviético pelo simples fato de aderirem à agremiação que se pretendia livre do poder do Partido. Pessoas que perderam um emprego melhor e foram remanejadas para a execução de tarefas mais árduas, que foram acusadas de crimes não cometidas e presas em função disto, ou mesmo outras que foram internadas como loucos em sanatórios porque discordavam da política local. Para um exercício de reflexão que desvele um pouco da verdade contida nos regimes “socialistas” do Leste Europeu, fica aqui minha recomendação. Porém, embora este livro seja rotulado como um paradidático, não estou certo sobre o efetivo êxito de seu uso com os alunos em sala de aula por entender que ele requer uma boa base de conhecimento factual. Não se trata de condenar todo o trabalho anterior praticado com os alunos nem de subestimá-los em seu poder de compreensão e pesquisa do que não entenderem, mas acredito que seja uma leitura melhor aproveitada por pessoas já iniciadas na questões por ela proposta.

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