A insuportável família feliz -

    Victor Mascarenhas

    P55 edições
    2011
    46 páginas
    1h 32m
    ISBN-13: 9788589655750
    Português Brasileiro

    Uma típica família de classe média que esconde seus problemas numa encenação de felicidade; um imitador de Michael Jackson abalado e em crise de identidade com a morte do ídolo; um cantor romântico em fim de carreira lutando contra o esquecimento. Esses e outros personagens protagonizam os contos de A insuportável família feliz e procuram mostrar que pode existir muita coisa oculta por trás da aparente normalidade da vida cotidiana. Fonte: http://www.livrariacultura.com.br/p/a-insuportavel-familia-feliz-25001710

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    Andreia Santana09/01/2026Resenhou um livro
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    Três contos baianos sobre decadência, apatia e solidão

    A insuportável família feliz vai te fazer rir e chorar em igual medida. O conto que nomeia a coletânea lançada em 2011 na Coleção Cartas Baianas da editora P55, começa lembrando aos leitores a frase de Tolstói na abertura de Anna Karenina ("Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira"), mas de uma forma meio "A vida como ela é", a coluna que Nelson Rodrigues escrevia no jornal Última Hora. No ônibus voltando para casa, Licinho pensa nos familiares em casa à espera para comemorar seus 30 anos. Recorda o bolo de ameixa de uma tia, que sempre deixa todo mundo com dor de barriga, as frases de todos os anos, as piadas e as cobranças mal disfarçadas. Uma festa mais ou menos para uma vida mais ou menos. Antes de chegar em casa, Licinho encontra um bêbado que, no melhor espírito da visita dos três fantasmas de Dickens em Um conto de Natal, manda a real sobre o possível futuro do rapaz. É uma história insólita e tragicômica. Na sequência, vem o conto Superstar, com o protagonista Billy Jackson, que foi transformado em HQ com roteiro de Victor e ilustrações do cartunista Cau Gomez. Billy Jackson é um rapaz pobre, negro e morador da periferia que ganha a vida como sósia de Michael Jackson em barzinhos de Salvador. Com o avançar da idade, o aumento da barriga e a própria mudança dos gostos musicais da audiência, sem contar nas muitas polêmicas envolvendo o astro pop, os shows de Billy já não rendem quase nada para a sua subsistência. A história é melancólica, com aura decadentista e tem um final trágico que sintetiza a vida de ausências e faltas do protagonista. Por fim, o livro é fechado com A última música, o meu preferido, por me lembrar da infância em Periperi, no subúrbio de Salvador, ouvindo Amado Batista e outros cantores da chamada música brega, no rádio AM eternamente ligado na cozinha da casa da minha avó paterna, onde eu passava o dia para a minha mãe poder trabalhar. Minha primeira infância foi toda ao som de boleros e letras românticas e trágicas sobre amores traídos, muito populares nas rádios AM. Embora já tivesse emissora FM na cidade desde 1977 (eu nasci em 1974), na casa da minha avó só era possível manter um aparelho antigo, com alcance apenas para as AM. Em A última música, Artur Augusto, um cantor romântico no ostracismo, percorre cidadezinhas do Brasil profundo fazendo shows e vendendo CDs pirata do seu único sucesso. Até que ele chega em Feira de Santana, a Princesa do Sertão, como a cidade baiana é apelidada. As viagens e as pequenas trapaças que Artur engendra a cada novo destino é uma forma de apaziguar a solidão e adiar o encontro com o destino final. Em Feira, o cantor se hospeda em um hotelzinho de trânsito e, de forma engenhosa e muito hilária, organiza seu próximo grande show/golpe usando o recepcionista do hotel como cúmplice. A lábia de Artur Augusto é a típica de um romântico cafajeste inveterado, na melhor tradição de Waldick Soriano, o que torna a história ainda mais divertida e nostálgica. Ao contrário dos outros dois contos, esse tem um final mais bonito. Mesmo que Artur Augusto viva o canto do cisne da carreira, errando de cidade em cidade, o show deve continuar. A conexão das três histórias e de seus personagens, além dos cenários entre Salvador e o interior da Bahia, é a solidão, a frustração e as expectativas abandonadas por esses homens ao longo da vida. Licinho, o mais jovem e já desencantado, Billy e Artur, cada um à sua maneira, lutam até o limite do suportável para manterem-se fora das garras da mesmice, da decadência e da mediocridade. São protagonistas que constroem castelos no ar, mas são esmagados pelo peso da realidade cotidiana e pela sombra do tédio e da morte, sempre à espreita. A insuportável família feliz Coleção Cartas Baianas Autor: Victor Mascarenhas Editora: P55 Edições, 2011 46 págs R$ 30,00 (na página da P55 na Amazon)

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