Uma sirene policial encheu a madrugada chuvosa de Toulouse, uma província da França. De longe, observavam os faróis de três viaturas a correrem em plena velocidade. Poucos eram os transeuntes a cruzarem as ruas, a estas horas. A grande maioria deles era composta de boêmios. Dirigiam-se para localidades incógnitas, após uma noitada de bebedeira. Quase todos ébrios, de braços dados com mulher, esperavam completamente a noite alegre. – Pouca vergonha – comentou um policial muito gordo, às vésperas da aposentadoria. – Isto é atraso de vida. – Ou uma forma de vida – retrucou um policial jovem. – Seja como for – continuou o semi-aposentado. – Não concordo com esta forma de viver. – Se assim não fosse – observou o moço – qual seria a nossa finalidade? – Eu não precisaria trabalhar madrugada a dentro – pigarreou o velho. – Sabia que tenho filhos? – E daí? – Gostaria de estar com eles. O jovem sorriu forçado, a fim de não contrariar o superior. No íntimo, ele adorava a vida noturna. Entristeceu-se um pouco ao lembrar-se de não estar em condições de vivê-la. Cruzou, pois, os braços, recostou-se no banco e esperou, pacientemente, chegarem ao local solicitado. Ao ouvir o ranger dos pneus produzidos pela parada brusca das viaturas, Adrien tratou de safar-se. Largou tudo e, na carreira, penetrou a primeira porta que se lhe deparou. A pressa fê-lo não perceber que adentrava um reservado para senhoras. Nem mesmo percebeu uma menina a pintar os lábios ante enorme espelho nem outra a enxugar as mãos em papel higiênico. Ele tinha uma só finalidade: fugir; caso contrário, cairia nas malhas da polícia. Correu uma rápida vista de olhos pelo gabinete e quase perdeu a calma ao dar com as paredes brancas, o teto branco, bacia branca, bidê branco, tudo branco como se tudo conspirasse contra ele, que era um negro.
Daniela -
Brigitte Bijou
Franco Brasileira
1971
211 páginas
7h 2m
ISBN-1: 0
Português Brasileiro
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