A sinopse já prepara o leitor para uma leitura controversa, que promete e cumpre o objetivo de criar calorosos debates sobre quem é o verdadeiro culpado , e se o estupro foi real ou não. Mickey é um canalha com C maiúsculo. Ele não se compromete com garotas e as trata com grande indiferença, não por ser uma pessoa naturalmente cruel, mas por que ele realmente não sabe como lidar com emoções, e como oferecer afeto. Vindo de uma família pobre e disfuncional, com uma mãe irresponsável e duas irmãs mais jovens, ele está acostumada a apenas ocupar o papel de provedor e nada mais. Ao descobrir que a irmã foi estuprada, ele sabe exatamente o que deve fazer. Seu primeiro impulso é o de acertar suas contas com o culpado de uma forma violenta, mas as coisas acabam se complicando quando ele conhece Ellie. A irmã caçula do rapaz acusado de assaltar sexualmente sua própria irmã. Ellie vive em uma família de classe alta onde o irmão primogênito é considerado o "garoto de ouro", futuro brilhante, personalidade cativante e um irmão maravilhoso e cuidadoso. Ela é relegada ao papel de coadjuvante até que se torna importante no álibi que provará(ou não) a inocência dele.
O livro mostra como duas famílias diametralmente diferentes lidam com a tragédia de ter dois adolescentes arrastados em um complicado caso criminal. Tanto Mickey quanto Ellie acreditam na idoneidade de seus irmãos, a lealdade de ambos é posta a prova ao decorrer do enredo, e conforme o envolvimento de ambos se aprofunda. Instintivamente a pergunta surge: Como você se sentiria? Quero dizer, nós gostamos de acreditar que conhecemos tudo o que é relevante sobre nossos entes queridos. Especialmente na relação entre irmãos. Mas até onde nós realmente sabemos do quê as pessoas são capazes? E mesmo sabendo, você colocaria seu irmão na cadeia? Entre a lealdade e o certo e o errado, a única coisa que resta é a empatia, é entender que escolhas erradas tem consequências. A autora consegue transmitir toda angústia e sofrimento que a escolha de fazer o que é certo traz para um dos protagonistas. E no fim, felizmente, a justiça é feita.
A narrativa de Jane Downham tem um poder distinto, a voz de suas protagonistas é tão forte e marcante que desde o primeiro contato o leitor estará comprometido com a trama. A autora traz qualidades intrínsecas a uma boa obra contemporânea para jovens. Ela sabe para qual público escreve e como interagir com o mesmo por meio de suas reflexões e diálogos. O livro possui conteúdo forte como sexo, estupro, drogas e eu não indicaria para menores de dezesseis anos.
Marina Moura | www.minhavidaporumlivro.com.br