Gosto de literatura regional, principalmente dos locais que tive oportunidade de conhecer, caso de Perinópolis (GO) recentemente.
A obra aborda importante manifestação cultural, a Cavalhada de Perinópolis na Festa do Divino Espírito Santo, realizada no mês de Junho, com alguns dados importantes, satisfatórios para quem não conhece, como eu, destacando-se: o início em 1826; o contexto na Idade Média de luta na Europa entre mouros e cristãos; e peculiaridades como o cavalhódromo e a conversão dos mouros para o cristianismo no final.
É literatura infantil e, com todo respeito, achei a história pouco atrativa para crianças (refiro-me ao livro, não o evento) e confusa no desenrolar. Ademais, não especifica personagens que me interei, como os curucucus, nem aquele "homem com máscara de boi" que a gente encontra por toda a cidade e desperta curiosidade.
Também denota uma alienação que merece atenção (no que não critico o autor por isso, o Brasil é pouco perceptivo, em termos de mídia, à díversidade cultural que tem).
É o seguinte... A obra traz abordagem inicial sobre as cavalhadas no Brasil, nada citando sobre a região Norte, onde existe a Festa de São Tiago no Mazagão (Estado do Amapá), uma das mais antigas, realizada desde 1777.
Vou aproveitar e descrever um pouco: diferentemente da de Pirenópolis, o contexto de lutas entre mouros e cristão aconteceu na África, quando colonizadores portugueses foram expulsos da Mazagão africana. O evento tem origem em drama histórico pois Portugal aproveitou, em manobra política, para estabelecer mais de mil famílias expulsas da colônia africana para transportá-las para cidade nos cafundós mais ermos da Amazônia (Mazagão na época, especialmente erguida às pressas) com ideologia paradisíaca e falsas promessas de assistência pelo governo português, só para firmar hegemonia colonial na região, com resultado final de fome, mortes e abandonos dramáticos em desilusão e desconhecimento da região quando as famílias vieram. Esse é o contexto histórico.
A festa em si é lendária de vitória dos cristãos, numa valorizaçào de sua identidade, com vários episódios ao longo de dias e encenação de batalha fictícia com personagens como o Bobo Velho (espião mouro descoberto e apedrejado enquanto fugia do acampamento cristão, a galera joga bagaço de laranja); o Atalaia (soldado cristão que consegue recuperar o estandarte cristão entre os mouros sacrificando a vida); o próprio São Tiago (que surge no calor da batalha para reverter a luta quando os cristão levavam a pior diante dos mouros); e o Rei Caldeirinha (uma criança que substitui o pai como rei mouro, em evento que o pai morre quando tentaram envenenar os cristãos). Alguns fatos, a festa é mais que isso...
Existem documentários, mas seria muito legal, mas legal mesmo, um filme com a história e cultura, que poderia ter idealismo, sonhos, aventura, dramas, episódios viscerais e, subjetivamente, ilustração e críticas aos interesses escusos na politicagem. Égua! Té doidé! Dependendo da idealização e investimento acho que ia ser muito paidégua.
Resenha e devaneios nas férias em Brasília...