Mouchette é uma pobre menina de quatorze anos que, endurecida por uma vida miserável, se tornou taciturna, fechada ao mundo, com todos os seus sentimentos e expressões inacessíveis sobre uma máscara de seriedade que pode beirar o desprezo. Cercada de ambientes hostis, Mouchette nunca teve oportunidade de conhecer nada além do sofrimento e da humilhação. Bernanos usa de seu estilo poético para tentar capturar as movimentações interiores dessa criatura tão reclusa.
A linguagem do Bernanos foge do convencional ao fundir ação e pensamento estruturados por um lirismo extremamente sensitivo e belo, mesmo tornando a compreensão mais desafiadora. É importante reforçar o sensitivo, pois o livro é permeado de tatos, gostos, cheiros e audições; é só contemplar a primeira frase: Mas já o grande vento negro do Oeste espalha as vozes na noite. Essa sensibilidade eleva a apreciação da obra a um outro nível, até justificando os parágrafos aparentemente obscuros, difíceis, nos quais parecem às vezes haver palavras suprimidas, que são lidos e relidos em busca de uma compreensão racional: sentimentos não foram feitos para serem entendidos, mas sim
sentidos; mesmo não compreendendo inteiramente o que foi dito, ainda sim os parágrafos deixam uma marca, uma sensação que parece suprir a compreensão.
Uma criatura como Mouchette, ignorante, inexperiente, limitada e inocente (inocência mais vinculada à ignorância do que à moralidade) não possui um vasto arsenal de ferramentas imaginativas para descrever e explicar as ações de sua mente, por isso apela para instrumentos mais imediatos: os sentidos.
Essa reclusão e limitação expressiva de Mouchette acabam criando um acúmulo interior de sensações, a maior parte delas, claro, dolorosas, que vai crescendo ao decorrer da narrativa e que, pela inclusão de sentimentos novos decorrentes da fase de sua vida (a paixão principalmente) e pela brusca sequência de acontecimentos novos e repentinos, transformam o retrato da mente da pobre garota em um turbilhão vertiginoso de memórias confusas pela dor, que seguem em fluxos que são tão mais tristes, quanto mais evidente fica a sua incapacidade de expressá-los e externalizá-los: Mouchette faz um esforço absurdo. Consegue apenas precipitar o curso das imagens inquietas que lhe dão a impressão de pesadelos intermináveis, de uma odiosa monotonia de horror
Nova História de Mouchette é uma novela avassaladora sobre uma solidão abissal frente a um mundo e a uma cultura cruéis; é uma novela sobre a inacessibilidade da miséria, que não acha instrumentos para se externalizar e acaba se acumulando interiormente em desgosto e desespero.