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    Nova história de Mouchette -

    Georges Bernanos

    É Realizações
    2011
    112 páginas
    3h 44m
    ISBN-13: 9788580330410
    Português Brasileiro
    4.2
    20 avaliações
    Leram33Lendo3Querem61Relendo0Abandonos0Resenhas2
    Favoritos1Desejados61Avaliaram20

    Mouchette é essa menina taciturna de quatorze anos que, durante apenas algumas horas, vai descobrir a vida. A sonhadora oprimida não tem ninguém a quem se confiar. Foge a um só tempo de uma escola de vexações e de uma família corroída pelo álcool, pela miséria e pela doença, assim como de uma aldeia de costumes ameaçadores. Em busca de uma vaga liberdade, numa noite de temporal, passeia entre os bosques encharcados e encontra Arsène, um caçador epilético. Ela percorre, sobretudo, um destino cruel que vai tragá-la entre estupro e mentira. Uma inquietante emanação do amor numa noite sem fundo. Nesse mundo fechado de violência e de incomunicabilidade, Mouchette, ultrajada e mortificada, torna-se uma vítima designada. O que aflora na alma de Mouchette, Georges Bernanos tenta capturá-lo, estenografá-lo. Um pensamento flutuante, lacunar, e que às vezes de seus limbos sobe até a luz.

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    Miguel Freire  picture
    Miguel Freire 04/02/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Limitação expressiva diante das dores e angústias do mundo.

    Mouchette é uma pobre menina de quatorze anos que, endurecida por uma vida miserável, se tornou taciturna, fechada ao mundo, com todos os seus sentimentos e expressões inacessíveis sobre uma máscara de seriedade que pode beirar o desprezo. Cercada de ambientes hostis, Mouchette nunca teve oportunidade de conhecer nada além do sofrimento e da humilhação. Bernanos usa de seu estilo poético para tentar capturar as movimentações interiores dessa criatura tão reclusa. A linguagem do Bernanos foge do convencional ao fundir ação e pensamento estruturados por um lirismo extremamente sensitivo e belo, mesmo tornando a compreensão mais desafiadora. É importante reforçar o “sensitivo”, pois o livro é permeado de tatos, gostos, cheiros e audições; é só contemplar a primeira frase: “Mas já o grande vento negro do Oeste espalha as vozes na noite”. Essa sensibilidade eleva a apreciação da obra a um outro nível, até justificando os parágrafos aparentemente obscuros, difíceis, nos quais parecem às vezes haver palavras suprimidas, que são lidos e relidos em busca de uma compreensão racional: sentimentos não foram feitos para serem entendidos, mas sim… sentidos; mesmo não compreendendo inteiramente o que foi dito, ainda sim os parágrafos deixam uma marca, uma sensação que parece suprir a compreensão. Uma criatura como Mouchette, ignorante, inexperiente, limitada e inocente (inocência mais vinculada à ignorância do que à moralidade) não possui um vasto arsenal de ferramentas imaginativas para descrever e explicar as ações de sua mente, por isso apela para instrumentos mais imediatos: os sentidos. Essa reclusão e limitação expressiva de Mouchette acabam criando um acúmulo interior de sensações, a maior parte delas, claro, dolorosas, que vai crescendo ao decorrer da narrativa e que, pela inclusão de sentimentos novos decorrentes da fase de sua vida (a paixão principalmente) e pela brusca sequência de acontecimentos novos e repentinos, transformam o retrato da mente da pobre garota em um turbilhão vertiginoso de memórias confusas pela dor, que seguem em fluxos que são tão mais tristes, quanto mais evidente fica a sua incapacidade de expressá-los e externalizá-los: “Mouchette faz um esforço absurdo. Consegue apenas precipitar o curso das imagens inquietas que lhe dão a impressão de pesadelos intermináveis, de uma odiosa monotonia de horror…” Nova História de Mouchette é uma novela avassaladora sobre uma solidão abissal frente a um mundo e a uma cultura cruéis; é uma novela sobre a inacessibilidade da miséria, que não acha instrumentos para se externalizar e acaba se acumulando interiormente em desgosto e desespero.

    2 curtidas

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    4.2 / 20
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    Georges Bernanos

    Foi um escritor e jornalista francês. Católico, está vinculado a uma visão trágica e pessimista do cristianismo, semelhante à de François Mauriac e Graham Greene, que é uma resposta de fé ao tema central da relação entre o homem e o mundo na literatura contemporânea. Em suas obras, explora a batalha espiritual do bem contra o mal, especialmente por meio da personagem de um padre católico que luta para a salvação das almas de seus paroquianos.

    21 Livros
    28 Seguidores

    Georges Bernanos