Obra de Walter Fuller Taylor.
A HISTÓRIA DAS LETRAS AMERICANAS -
Walter Fuller Taylor
Livro básico. Para quem nada conhece da literatura americana e quer saber por onde começar. Ou para quem conhece algumas obras, mas quer começar a se aprofundar. Essa obra é um mapeamento da literatura americana através do seu cânone. Organiza todos aqueles autores que conhecemos (pelo menos de nome) num esqueleto básico: organiza-os cronologicamente, geograficamente, estilisticamente. Aproxima uns, contrasta outros. Segue um modelo antigo: cada capítulo tem nas páginas iniciais uma introdução ao período de que vai tratar, esclarecendo suas fontes históricas, seu período de formação, suas características marcantes. Depois disso, o autor passa a tratar, um a um, os autores mais representativos do período em questão, sempre segundo o mesmo modelo: uma breve biografia, seguida por uma explanação de suas principais obras e uma visão geral do estilo, da filosofia, dos ideais, das qualidades e problemas do autor. Ao final dos trechos dedicados a cada autor (assim como a cada período) temos um didático resumo do que vimos. Depois de ler muita literatura, senti necessidade de ter uma visão histórica mais ampla, localizando cada autor dentro da literatura nacional e universal, fazendo paralelos e contrastes, por julgar que isso enriqueceria minhas leituras e releituras. Tenho, portanto, lido várias histórias da literatura, das literaturas mais divulgadas do “complexo europeu” (isto é, da Europa e de suas ex-colônias nas Américas), nomeadamente das literaturas alemã, inglesa, francesa, italiana, espanhola, portuguesa, brasileira, hispano-americana e norte-americana. Pude perceber vários paralelos bem concretos. Bem evidentes no período colonial de toda a América (de sul a norte), onde todos os países viveram experiências semelhantes (mas de forma alguma idêntica) de país colonizado. As diferenças já começam antes da chegada dos europeus, pois alguns territórios americanos tinham civilizações mais “desenvolvidas” (como incas, astecas e maias), enquanto outros tinhas civilizações mais “selvagens”, várias tribos relativamente pequenas e independentes. Isso (e outros fatores) gerou tratamento diferente dado pelos jesuítas e colonos aos índios nativos: por isso o Paraguai preservou o guarani como uma de suas línguas, enquanto o Brasil praticamente ignora e não tem interesse pelos seus índios, suas línguas e tradições; os espanhóis cedo liberaram a imprensa em suas colônias, os portugueses só trouxeram a imprensa para o Brasil em 1808, com a vinda da família real que fugia do exército de Napoleão, que havia invadido Portugal na última tentativa de unir a Europa num único império); os estadunidenses estudaram suas tradições indígenas e distinguem várias, com suas características peculiares, pois seus índios tiveram um papel mais duradouro na sua história e mesmo no século XX surgiu uma literatura de seus povo nativos ainda sobreviventes. Ainda assim, o paralelo da literatura (e da história) do período colonial nos diversos países americanos não é de modo algum desprezível. Mesmo a partir do romantismo, que já começa com as declarações de independência por toda a América, o paralelismo ainda é razoável. Os Estados Unidos têm um romantismo um tanto sui generis por conta de diversos fatores, especialmente sua precoce independência (com a revolução americana, antecipadora e inspiradora da francesa) e a imediata implantação não de um novo império (independente da Inglaterra, mas ainda império), mas de uma república democrática (que inspirou, entre outros, nosso poeta romântico tardio Sousândrade na composição de seu longo poema narrativo O Guesa). Ainda assim, as características originais do romantismo (motivadas em grande parte pela filosofia idealista alemã) ainda podem ser claramente discernidas nos autores americanos românticos. Outra coisa que diferenciou o romantismo estadunidense daquele do restante da América foi o fato de que seu colonizador (aquele que definiu sua língua e, consequentemente, a cuja literatura se reportava) era um país do norte europeu. É sabido que o romantismo é um movimento originalmente do norte, especialmente da Alemanha e da Inglaterra que só depois “contaminou” a França e só a partir do filtro francês se espalhou para os países românicos no sul (Itália, Espanha e o distante, periférico e isolado Portugal). Ou seja, os estadunidenses tinham na literatura de seu colonizador (em sua língua inglesa) um romantismo de primeira mão, enquanto os países colonizados por Portugal e Espanha tinham como modelo direto um romantismo de terceira mão (dado o papel intermediário da França), necessariamente esvaziado de seu miolo filosófico profundo. Não deixa de ter interesse estudar a literatura canadense francófona e verificar como se deu a influência de sua colônia, cujo romantismo (n análise simplificadora que estou fazendo, era não de primeira, tampouco de terceira, mas, por assim dizer, de segunda mão. É um livro pra atiçar nossa sede pelos autores que não conhecemos, para vermos com quais autores nos identificamos (o autor, assim como Milan Kundera e eu mesmo, não cai no formalismo exagerado tão em moda que diz que o autor por trás da obra não deve ser levado em consideração. Como Milan Kundera diz em Le Rideau: o espírito que anima a obra também faz parte do conjunto do efeito de um romance, e não estou falando do narrador, mas do autor, na medida em que podemos ter acesso a ele. Esse formalismo, ao se contrapor ao subjetivismo exagerado dos românticos (que deslocaram os critérios de valor da obra para o autor, tendo como critério-guia a sinceridade da expressão) Quero ler Irving, Bryant e Melville, já amava Emerson e Thoureau, ou conhecer Hawthorne por sua… Outros autores, por enquanto, não me interessaram tanto, a julgar pela descrição\avaliação de Taylor (quem sabe mais tarde?). Se no século dezenove só a carapaça do romantismo chegou a Portugal, no início do século XX chegou o miolo: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Aqueles que colocam o romantismo como uma adolescência têm em Sá-Carneiro excelente ilustração do argumento.
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