O autor nos apresenta com base na teologia moderna a pessoa de Jesus um tanto incomum. Ele nos mostra o Jesus bem humano e histórico sem formalidades e despossuído de status religioso tendencioso. Segundo ele, sua obra é destinada aos declaradamente ateus, bem como para aqueles que não são lá apegados as tradições religiosas. Sua originalidade está em apresentar a pessoa de Jesus simples, dentro do contexto da Palestina do século I. Ele nos mostra as diversas construções teológicas como tentativa de compreender e tentar traduzir essa personalidade tão profunda e rica de significado para a história humana. Extraordinariamente Jesus é uma fonte abissal que não se esgota e não cabe dentro de um livro. Desse modo, nosso autor avalia as fontes, as releituras que fizeram da mesma e de modo paradoxal nos apresenta um Jesus humano, comprometido com a vida, com a pessoa humana e com o Reino. Fascinante leitura nos encanta por sua profundidade e pela originalidade que nos coloca em busca, em busca da história perdida e recuperada de Jesus de Nazaré. Quanto ao autor, consagrado teólogo da libertação e comprometido com os destinos da America Latina, nos deixou vasta produção teológica.
A história perdida e recuperada de Jesus de Nazaré - Dos Sinóticos a Paulo
Juan Luis Segundo
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O livro está organizado em duas grandes partes. Com uma longa introdução acompanhada de três capítulos e uma conclusão cujo teor nos remete a formulação da fé cristológica dos grandes Concílios. Com a introdução, o autor nos coloca o problema e o método a ser seguido por ele, para em fim chegar ao tema principal. Ele nos questiona a respeito da fé não como crença em um punhado de dogmas. Fala o que seria pois uma ideologia e como ela pode de certa forma ofuscar o brio da fé como também se tornar objeto de fé. Com isso, ele nos coloca diante da ambiguidade da religião e de sua múltiplas formas de manifestação. Daí o embate entre ciência e religião. Sua percepção de ordem antropológica descreve o ser humano e a religião de modo bem próprio daquilo que fala os filósofos existencialistas, entretanto, sua abordagem é de ordem teológica e por isso mesmo, sua descrição nos remete ao homem moderno de forma concreta e a uma religião empírica e histórica. Aí ele nos diz claramente que o cristianismo é uma religião histórica, humana, enraizada nos problemas humanos; e que Jesus de Nazaré viveu profundamente o humano, chegando a ser ele mesmo fonte inesgotável para o homem de todos os tempos. Com isso, ele abre um leque de preposições que durante todo o livro e a partir das fontes canônica desvelará para nós o Jesus que está próximo do homem, de forma que até seus interlocutores, os ateus, se renderão à Ele de modo cabal mediante suas crenças, reconhecendo em Jesus aquela fonte que sacia o sentido da vida e da trajetória humana. Em sua primeira parte, o autor já dentro da questão, nos faz mergulhar dentro das fontes canônicas usando a chave política, procurando fazer uma leitura da vida de Jesus. De modo geral ele apresenta o contexto pré-pascal e pós pascal dos textos bíblicos e nos remete a um esquema de leitura onde pouco a pouco vai se desvelando o Jesus histórico e o Jesus da fé numa linha ténue. Aí aparece os grandes temas da profecia messiânica, as concepções do reino e do julgamento de Deus sobre o seu povo; o contexto social, político e econômico, bem como ideológico da Palestina no tempo de Jesus. Pouco a pouco ele nos vai inserindo dentro desse contexto e aí, vai-nos apresentando Jesus e sua pregação, seus conflitos pessoais e com os grupos políticos ideológicos de sua gente; analisando os textos (perícopes) que segundo a pesquisa moderna são mais antigos e mais próximo do Jesus histórico, o autor nos mostra e tira das páginas bíblicas um retrato de Jesus incrivelmente excepcional e apaixonante. É esse Jesus incrivelmente cativante que as pessoas que conviveram com ele traçou de testemunhar logo após o episodio da cruz. Assim, chegamos a segunda parte. Na segunda parte, o autor se ocupa do pensamento e das comunidades paulinas. Como elas conceberam esse Jesus a partir do fato da fé, a ressurreição, e partindo daí, quais leituras e releituras fizeram desse evento, para poder comunicar uns aos outros, a riqueza inexorável que fizeram/encontraram no Nazareno. Para isso, é de profunda riqueza as cartas paulinas. Nelas, Jesus de Nazaré, o Jesus histórico, é visto em sua grandeza e em sua mais profunda realidade sobrenatural, mas que, ao mesmo tempo está e caminha de forma outra no meio dos seus discípulos. Como foi possível isso? Passar a crer e seguir um Jesus historicamente humano e que agora se torna ainda que humano e dentro desse contexto, numa outra pessoa ainda que sendo ela mesma, rica de significado e significante, capaz de preencher o vazio cotidiano e nos remeter ao sagrado da essência humana? Para se chegar a isso, o nosso autor investiga nas cartas todo processo no contexto da cultura grego-romana e nos coloca diante de algo antes nunca visto em qualquer outra religião ou sociedade. Impressionante como o Jesus histórico continua sendo o mesmo, porém se torna o Senhor, de modo a dar e a desvelar perante os olhos da fé um significado de tão vasta largura. E é esse Jesus que tem a nos dizer algo ainda hoje, como dissera aos seus ouvintes e seguidores de mil, dois mil anos atrás. O livro realmente nos coloca perante a história "perdida e recuperada" de Jesus e nos convida no olhar do autor, a fazer a experiência de sua presença significante, conduzindo-nos por caminhos dispares daqueles que por um acaso, possamos delimitar e crer. Na sua conclusão, como citado ainda a pouco, ele nos fala dos "credos" da fé cristã mostrando como no decorrer dos séculos, como os cristãos puseram-se em questionamentos perante Jesus e como descobriram e puderam testemunhar para as suas gerações "quem era" Jesus para eles. Em todo e durante o enredo do livro, interessante a concepção da crise, da morte e da vida, bem como da ressurreição a partir dos textos canônicos e da metafisica moderna.Em suma, vale apena ler, conferir. O livro tem algo a mais que só lendo, cada um achará tais e preciosas pérolas. Agora, é preciso pelo menos, aviso, ter uma boa e básica noção de teologia e um bom dicionário, se você for um iniciante nesse tipo de leitura.
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