Ler este livro de Piedade Carvalho é mergulhar fundo numa sinfonia, onde cada instrumento aparece com a nitidez de uma estrela, iluminando nossa memória, nossa consciência e nosso coração, acordando no mais escuro compartimento de nosso ser a nossa quase moribunda esperança. Nossa esperança socialista, que de tantas lutas e investidas inglórias nos lançou à marginalidade como meros bêbados entorpecidos. CHE-PARRA é o balde d'água que nos acorda, nos reanima e reacende nossa coragem e nos põe novamente em campo. Sua metáfora, poderosa, tange uma melodia envolvente e penetrante. São charangos, flautas incas, pandeiros, berimbaus e violas se harmonizando na mesma sonoridade de um canto-chão-latino-americano. Descendente de repentistas, não nega sua origem e seu livro é como um rio amazônico cujas palavras correm soltas abrindo as comportas de sua memória filosófica e lírica herdade de causa de seus pais (metafóricos) Che-Parra. Uma catarsis psico-histórico-musical-revolucionária. E de novo a vontade de recolocar na vitrola os discos de Parra, e de novo a vontade repor na parede o poster de Che. Sobretudo a vontade de retomar o processo, saindo dessa fermata à qual se refere, como se tivéssemos saído de férias e dar "gracias a la vida", "sin perder la ternura jamás".
