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    Os mímicos -

    V. S. Naipaul

    Companhia das Letras
    1987
    319 páginas
    10h 38m
    ISBN-9: 858509326
    Português Brasileiro
    3.4
    5 avaliações
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    Um escritor filho de indianos,avesso a modernismos que escreve sobre mazelas de civilizações"feitas pela metade",que se recusa a romantizar os oprimidos.Neste romance mostra sua preocupação com as culturas dos países do Terceiro Mundo e alerta"Odeiem a opressão,mas temam os oprimidos".

    Resenhas (2)Ver mais
    Mario Cezar Tompes da Silva picture
    Mario Cezar Tompes da Silva21/04/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    À Deriva nas Margens do Mundo

    V.S.Naipaul, embora pouco lido no Brasil, é um escritor contemplado com o nobel de literatura. exatamente por essa obra: Os Mímicos. Nascido em Trinidade Tobago, descendente de indianos, transferiu-se para Londres ainda nos anos 50, aonde reside até o presente. Essa resenha é o produto de uma releitura. Meu primeiro contato com o livro foi em 1988. Na época a experiência não deixou boa impressão. Não é uma leitura simples. Naquela ocasião estranhei o estilo: linguajem econômica, ideias condensadas, retomadas frequentes de detalhes mencionados no decorrer do texto, algumas passagens de significado opaco. Tudo cobra do leitor concentração. Essa primeira leitura me exigiu perseverança para concluí-la. A releitura 28 anos mais tarde e o amadurecimento que logrei no período contribuíram para que o livro me proporcionasse prazeres e sabores que degustei com surpreendente deleite. O roteiro apresenta evidentes pinceladas autobiográficas. O personagem principal - Ralph Singh - decide escrever sobre sua trajetória de vida. Ele nasceu em uma ilha fictícia do Caribe denominada Isabella. O local é uma colônia britânica cuja demografia divide-se entre descendentes de escravos africanos, asiáticos e a comunidade branca. O personagem integra a comunidade indiana. O livro vai abordar quatro períodos bem demarcados da trajetória do autor: o período de formação acadêmica em Londres, seu casamento com uma inglesa e seu retorno para Isabella, sua infância na ilha e finalmente a última fase abarca sua atribulada experiência como importante liderança política em Isabella. O foco da obra é o permanente sentimento de deslocamento, a sensação de não pertencimento do personagem com relação a sua ilha de origem. Lá ele sentia-se um náufrago, à deriva. A vontade imperiosa era ir embora para seu lugar verdadeiro. A ilha/colônia era uma sociedade desordenada, caótica, pobre, causava constrangimento. Esse ultimo resultava em uma postura de negação, de não identificação com o lugar. Uma passagem que relata uma recordação do cotidiano escolar do autor é bastante esclarecedora desse sentimento de aversão: "Havíamos convertido nossa ilha num enorme segredo. Tudo o que dizia respeito a nossa vida cotidiana provocava risadas quando era mencionado em sala de aula: o nome de uma loja, de uma rua, das comidas vendidas na esquina. O riso era um modo de negar que conhecíamos estas coisas, às quais haveríamos de voltar depois das aulas. Negávamos a paisagem e as pessoas que víamos pelas portas e janelas abertas, nós que levávamos maçãs para nossos professores e escrevíamos redações sobre visitas a fazendas com climas temperados" O remédio para afastar-se daquela sociedade truncada, desarrumada e miscigenada era o plágio. Esforçar-se por encenar hábitos do mundo externo. "Todos assumíamos a postura de pessoas cosmopolitas ... Isso era fácil para nós, pois em Isabella, éramos todos imitadores natos ... Nós os mímicos do Novo Mundo". O autor debita essa sociedade desordenada e constrangida na conta do Império e suas ações, sobretudo por promover o transplante e a "convivência forçada entre povos que só poderiam se realizar na segurança de suas próprias sociedades". Por fim, chama a atenção a abordagem crua com que o autor trata questões que, na atualidade, seriam avaliadas com muita reserva por ferir a suscetibilidade politicamente correta vigente em nossos tempos. Assim, Ralph Singh ao chegar a Londres e deparar-se com a postura dos políticos britânicos de regozijar-se com suas origens pobres, surpreende-se: "Em Isabella, quando eu era pequeno, ser pobre era uma coisa vergonhosa. Infelizmente, agora não é mais. E fiquei atônito, quando vim para a Inglaterra pela primeira vez, ao constatar que aqui também não era. Cheguei numa época de reformas. Os políticos jactavam-se de suas origens humildes e, cheios de uma cólera virtuosa, afirmavam ter sido moleques descalços. Em Isabella, onde havia moleques descalços em profusão, esta expressão era muito empregada pelas crianças como xingamento; e eu, colocando-me no lugar destes grandes homens, sentia vergonha. Descender de gerações e gerações de vagabundos e fracassados, uma linhagem ininterrupta de gente sem imaginação, sem iniciativa e oprimida, sempre me parecera motivo para sentir uma vergonha profunda e inconfessa". Ou ainda essa outra passagem onde o personagem descreve sua reprovação à atitude de imigrantes africanos nos salões de dança do Conselho Britânico que frequentava a procura de companhia feminina: "às vezes o ambiente era desagradável, cheio de africanos de sotaques ásperos com colarinhos brancos muito engomados e óculos com armações de ouro, cultivando seus ressentimentos raciais como se fossem virtudes e buscando sua recompensa sexual entre jovens que não tinham nenhuma culpa". Por fim, a obra oferece um retrato implacável de uma sociedade situada nas margens afastadas do eixo principal do mundo, dissecando, sem piedade, mas com talento, os dramas, angústias e constrangimentos que atormentam e enredam os personagens que a povoam.

    1 curtida

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    Vidiadhar Surajprasad Naipaul

    Vidiadhar Surajprasad Naipaul nasceu em Trinidad e Tobago, em 1932, filho de brâmanes indianos. Por incentivo do pai, que era contista, começou a escrever desde cedo. Mudou-se em 1950 para a Inglaterra, onde trabalhou como jornalista para a BBC. Doutor honoris causa pelas universidades de Cambridge, Londres, Oxford e Columbia, foi sagrado cavaleiro britânico pela rainha Elizabeth II em 1990 e recebeu o prêmio Nobel de literatura em 2001. Durante a premiação, Naipaul foi elogiado por "unir narrativa perspicaz e escrutínio incorruptível em obras que nos obrigam a ver a presença de histórias reprimidas". Sua obra é marcada por uma análise irônica e concisa do lado pessimista da natureza humana.

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    Vidiadhar Surajprasad Naipaul