A província é fogo: mais uma prova disso está neste romance que, por sua vez, prova que Vitória, apesar do Espírito Santo, pode ser o umbigo do mundo - ou mundos. AS MÃOS NO FOGO: O ROMANCE GRACIANO, que teve também o título de O CENTAURO NA FORCA, é a primeira parte da TRILOGIA GRACIANA, que continua com o POEMA GRACIANO. Neste livro, o personagem elabora lentamente o seu poema e seus retratos místicos. Graciano, o noivo, conhece desconhecendo as mulheres da sua vida, na sacrossanta cidade de Vitória, endereço fantástico de uma pequena nobreza interiorana, delicadamente decadente e sobriamente bêbada de um prazer quase impossível. O segredo do fascínio de AS MÃOS NO FOGO começa no acoplamento mitológico de uma língua recém-nascida, com as realidades da contemporaneidade. Assim, RSN vai buscar inspiração tanto naquilo que formou consciência e modo de ser (as raízes mesmas da linguagem), como naquilo que é o ato social de estar vivendo. O resultado da pesquisa linguística é uma força poética enorme do texto, sua capacidade de refletir com precisão a vacilante atualidade dos seus personagens. Graciano diz, revelando um segredo, que o centauro é o único animal de dois corações. Os dois corações pulsam neste romance cheio de encantos, cuja chave talvez seja exatamente a ambiguidade. A duplicidade é revelada quando o autor diz ter feito no livro um exercício de "intertextualidade", apoiando-se em inúmeras referências literárias para criar a personalidade do romance. Acredito que surge (dessa cópula) com maior nitidez a exploração do terreno da intersexualidade: essa terra de ninguém entre os sexos, e entre o sexo e a imagem do sexo, tal como Graciano a carrega. O romance é habitado por figuras hermafroditas. Aqui incesto e homossexualidade, perversão e norma, gozo e culpa fazem um mosaico que manipulando com os tabus originais desvenda a própria formação da cultura - e seus limites. Não é a toa que a parte final da trilogia se inspire no sensual paganismo do Satyricon. Já é possível perceber que no final de AS MÃOS NO FOGO um "retorno" aos valores de um classicismo pagão. Rapidamente: um ótimo livro do qual não se pode falar rapidamente.
