Contos - "O fruto do vosso ventre" (vencedor do Premio Casa de las Americas 1993) e outros contos inéditos. "Guiomar lembra, tanto nos temas como no estilo, a prosa cruel e a atmofera dramática de Nelson Rodrigues. (...) Seu olhar vê tudo sob um filtro feminino." - Augusto Massi, Folha de S. Paulo
Sudário -
Guiomar de Grammont
“Escrever é rasgar-se em palavras”
[resenha escrita em 3/10/2012] Sudário, de Guiomar de Grammont. Editora: Ateliê Editorial, 2006. Leitura em maio de 2008. Com o livro de contos “O fruto do vosso ventre”, a escritora mineira Guiomar de Grammont recebeu o “Prêmio Casa de las Americas, em 1993. Depois de publicar outros títulos - inclusive obras para teatro - somou contos inéditos (escritos entre 1994 e 2002) àquela coletânea premiada e publicou essa antologia. São 19 textos curtos, cuja unidade narrativa se dá pela quebra de tabus, pelo olhar feminino um tanto alucinado percorrendo corpos e almas: viagens ora cotidianas, ora descendentes e vertiginosas: abismais. Diante da sensibilidade da escrita de Guiomar, experimentamos a sedução pela tragédia, guiados por sua dicção livre, num tom transgressor, por vezes agressivo, de oposição às regras sócio- religiosas, quando temos acesso a temas inconfessáveis. Guiomar não apenas desnuda os corpos e os expõe aos olhos algo perplexos de seus leitores, como evoca muitas vezes o que essas vivas carnes humanas escondem: aborto, AIDS, violência sexual, castrações físicas ou simbólicas. Em alguns textos, há uma inversão de papéis – quando, numa alusão à narrativa masculina dos anos 1970: pornográfica e marginal - os homens são sexualmente dominados por mulheres; por outro lado, Guiomar consegue aliar aos elementos pornográficos ou eróticos, um quê filosófico, sem vitimizar personagens ou promover ativismo feminino. À medida que mergulhamos no mundo interior de suas personagens, é preciso tornar à superfície e recuperar o fôlego, pois não nos é confortável descer aos seus infernos. Nessa atmosfera densa, cujos dramas humanos Guiomar explora com lentes de aumento, ansiamos por um sinal de esperança. Desejamos alívio para situações-limite de seus personagens, incapazes de enfrentá-las; nesse contexto, o conto Sudário é bom exemplo: um velho obcecado pelo corpo da jovem criada que, sem poder possui-la, e sem disposição para seu ofício de pintor, faz da tela em branco sua própria mortalha; misturando tintas e esperma, como resultado de seu gozo e frustração (o desejo reprimido pela mulher que jamais seria sua). O mais obsceno, contudo, é a relação entre escritora e leitores: nessa transmissão de sentimentos e fluidos corporais, tudo que é íntimo fica exposto; o que é pessoal se torna público.
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