Há filósofos que eu considero que:
Escrevem bem e têm boas ideias, como o Schopenhauer;
Escrevem mal, mas não gosto das ideias, como o Kant;
Escrevem bem, mas não gosto das ideias, como o Spinoza;
E há um caso raro que eu acho a escrita péssima e as ideias horríveis. Ex.: Esta dupla nada dinâmica, Deleuze e Guattari, nesta obra.
Não desceu pra mim, e ainda entalou na garganta. A dupla afirma que Kafka é um escritor que não se encaixa nas categorias tradicionais da literatura, e que sua obra pode ser compreendida de maneira mais eficaz se considerada dentro de um contexto de "literatura menor". Essa literatura menor é algo que subverte padrões da cultura hegemônica, mas não percebem (ou não citam) que a literatura sempre foi assim, pois diferente do direito onde as leis servem para serem cumpridas, na literatura e arte se criam regras para serem quebradas. Percebam que sempre houve uma literatura menor, que se torna maior, então a maior se torna a menor e se impõe. Temos um exemplo hoje em dia com o retorno da literatura clássica se impondo ao modernismo e pós-modernismo. Na verdade isso é uma característica marcante da cultura ocidental: desejo de subverter a moda do momento, e quando a subversão se torna predominante, se enjoa, não tem mais muito que inventar e se sente falta e se vê que é necessário retornar aos clássicos, sendo que alguns “subversivos” são engolidos pelos tempos e se tornam clássicos.
Kafka é um clássico, e acho que Deleuze e Guattari tentaram subverter o autor subversivo, e até pervertê-lo nessa obra. Eles jogaram uma casca de banana para escorregarmos, acabou com eles mesmos escorregando na própria casca de banana. Um dos dois autores tem uma escrita boa (quando digo boa é apenas normal), mas o outro, provavelmente Deleuze, talvez por tentar ser extremamente subversivo que se torna quase ininteligível. Talvez tenha tentado quebrar o inquebrável, que é o fato de que nos últimos tentos se inventou tantas formas de escrita e representação (desde literatura, até música, cinema, artes plásticas) que já não tem muito que fazer. Gastamos todo nosso arsenal. Deleuze precisaria ter a consciência de que se pode tentar subverter, mas não de qual quer jeito, se não logo iríamos escrever coisas tipo assim: kjjfwper oekkwe´f5465fwmjf 4568f4449foj$%$#fmmd ldihf ;;sçLKj Kkç~.ngg]55 55 4 KHPiNto dmmda (não duvido nada que já tenha livros escritos somente deste modo,e mais chocante, pessoas que compram livros assim e o leem). Se buscarmos uma literatura cada vez menor, então deixaríamos um macaco, um cachorro ou um recém-nascido escreverem livros, já que seriam obras minoritárias e fora das convenções. Claro que um extremo-subversivo radical lendo isso daria a pena na mão do cachorro para me provocar, mas é isso que quero e o que acho que logo vai acontecer, é bom que me diverte ver macacos fazendo macaquices. Pareço o Monteiro Lobato criticando a subversão de Anita Malfatti, porém hoje Malfatti é cultura predominante e Monteiro Lobato o subversivo.
Kafka tem o dom da agonia, nos mostra que não nos sentimos à vontade na modernidade, diria até que Kafka é pós-pós-modernista, além de nosso tempo, já mostrando o desfecho trágico e apocalíptico de todos esses modernismos e pré-estruturalismos nos levarão: há uma morte “espiritual”, a morte do gênio humano e a desumanização. De certa forma Deleuze e Guattari replicam Kafka, mas tentam ir além, tentando ser pós-pós-pós-modernistas, ou seja, já nasceram mortos. Acabaram se tornando chatos.
Não digo que o livro foi de todo inútil, pois além de me ensinar tudo o que não se deve fazer quando se escreve, mostrou pontos importantes da obra de Kafka que não percebi, mas não com a interpretação dos autores (falando que Kafka é escritor vampiro, que tem tesão por máquinas, que é crítica ao capitalismo, fascismo, comunismo etc.). Dizem que a hermenêutica em nossos dias é a arte de interpretar o autor melhor que o próprio autor. Deleuze e Gattari fizeram o contrário, interpretaram mal e interpretaram até pior que eu que sou ninguém e nem nada.