...à medida que vou lendo. Acho que será uma inovação divertida e que me ajudará a ler o livro de forma mais proveitosa!
Os “Ensaios” de Montaigne, pelo que entendi, fazem um total de três livros. O volume 1 da coleção Os Pensadores trouxe o primeiro livro e a metade do segundo. Esse volume 2 traz a outra metade do segundo e o terceiro livro. Em cada livro, os ensaios são divididos em capítulos numerados. Esse volume 2 já começa no capítulo 14.
Capítulo XIV – COMO O NOSSO ESPÍRITO CRIA SUAS PRÓPRIAS DIFICULDADES
Ensaio curtíssimo, de pouco mais de uma página. O título diz o principal.
Capítulo XV – NOSSO DESEJO CRESCE COM A DIFICULDADE
Esse já foi um bom exemplar da filosofia de Montaigne. É recheada de citações de autores latinos, tais como:
“A tristeza de ter perdido algo e o receio de perdê-lo, são uma só e mesma coisa” (Sêneca).
Traz também anedotas e episódios da vida dos antigos:
“O grande Catão (como nos ocorre também) cansou da mulher quando sua e tornou a desejá-la ao casar-se ela com outro.”
Mas tem também as excelentes tiradas de Montaigne, que na verdade constituem sua filosofia, ou seja, as conclusões espirituosas a que ele chega a partir da leitura dos sábios antigos e da observação dos costumes de então comparados com os de seu tempo:
“A seriedade de nossas amantes aborrece-nos, mas em verdade a facilidade com que porventura se entreguem ainda aborrece mais.”
“Ocorre com a beleza o mesmo que com a virtude: dois caminhos conduzem a ela, um fácil, outro semeado de obstáculos e nem sempre atingindo o seu objetivo. É entretanto o último que mais apreciamos, que achamos mais belo e digno.”
“Defender sugere o ataque: a desconfiança provoca a ofensa.”
E finalmente, para que esse seja um bom exemplo da prosa de Montaigne, não falta ainda um de seus ingredientes principais e mais saborosos, que é a maneira como o filósofo muda de assunto sem a menor cerimônia, de acordo com as inspirações que lhe batem no espírito. E é assim que o ensaio começa falando sobre o desejo sexual e termina com um discurso sobre a desnecessidade de um fidalgo fortificar a sua mansão!
(11.07.09)
Capítulo XVI – DA GLÓRIA
Aqui Montaigne disserta sobre a insensatez de basear a vida na busca de fama e de glória, pois nada é tão inconstante quanto a opinião das massas, e nada é tão passageiro quanto a “imortalidade” humana.
Curiosamente, a maior parte do ensaio destina-se a criticar aqueles que agem de forma virtuosa apenas com o fim de serem louvados por seus semelhantes:
“Seria a virtude coisa vã e frívola, se à glória pedisse recompensa”.
“Preocupo-me bem menos com o que posso ser aos olhos de outrem do que com o que sou a meus próprios olhos; quero ser rico por mim mesmo e não mediante empréstimos.”
Imagino o que Montaigne diria se pudesse contemplar a nossa sociedade, onde a fama virou um bem em si mesma e dificilmente está associada à virtude...
(19.07.09)
Capítulo XVII – DA PRESUNÇÃO
Nesse longo ensaio encontramos um pouco de tudo. Montaigne fala até mesmo da presunção:
“A presunção exerce-se de duas maneiras: em nos superestimando e em subestimando os outros.”
Para justificar que não é um presunçoso da primeira maneira (superestimando a si mesmo), Montaigne passa a desfiar uma longa lista de seus próprios defeitos e imperfeições. Fiquei feliz ao me identificar com ele em vários desses defeitos, como por exemplo o da péssima caligrafia:
“Sou tão desajeitado de mão que mal posso reler o que escrevo, a ponto de preferir escrever de novo a decifrar minhas garatujas.”
Muitas vezes, porém, Montaigne finge que vai dizer uma coisa e acaba dizendo o contrário. É esse o caso quando ele astutamente coloca na lista dos “defeitos” algumas inegáveis qualidades, com as quais fiquei mais feliz ainda ao me identificar:
“Se não encontro prazer na tarefa, se outra coisa que não minha simples e livre vontade me obriga a trabalhar, já não valho mais nada.” - Considero isso uma qualidade porque acredito que jamais deveríamos fazer algo de má vontade. Por isso, ou eu faço de boa vontade ou não faço!
“Por temperamento fujo da mentira; o simples pensamento da mentira é-me odioso; sinto vergonha em mim mesmo e um pesado remorso se por vezes me ocorre mentir, quando surpreso e obrigado a responder sem refletir. Não há como dizer sempre tudo; seria tolice; mas o que se diz deve ser o que se pensa.” – Aqui Montaigne exercita livremente sua ironia, pois considera um defeito não saber mentir em uma época em que a mentira é valorizada.
A ironia, aliás, sempre está presente no melhor de Montaigne:
“Há males que vem para o bem: é vantajoso nascer neste século de depravação, porque passamos por virtuosos com bem pouco; quem não é, em nossos dias, parricida ou sacrílego é homem de bem.”
“Ensinamos as mulheres a corar ao ouvirem o que em absoluto não receiam fazer; não ousamos chamar a nosso sexo pelo nome certo, mas não tememos empregá-lo na devassidão.”
“O avarento vive pior do que o pobre por causa de sua paixão: e o ciumento pior que o enganado; e não raro há menor prejuízo em perder o vinhedo do que lhe disputar a posse nos tribunais.”
“Acredito no meu bom senso. E quem não acredita no seu?”
Das frases dos autores romanos antigos, essa foi a que mais gostei:
“Ninguém acredita mais em si do que um mau poeta.” (Marcial)
Uma coisa interessante é que aqui e ali aparece em Montaigne um pensamento de sensibilidade especial, que se destaca da sucessão de frases de efeito que compõem seu estilo. Essa é uma delas:
“Não existe alma, por mais pobre e grosseira que seja, em quem não se desenvolva alguma faculdade especial.”
Capítulo XVIII – DO DESMENTIDO
Montaigne critica a sociedade de seu tempo, mas poderia estar falando de nosso mundo atual:
“O primeiro sintoma de corrupção dos costumes está no desamor à verdade.”
“Entre nós, hoje em dia, a verdade não é o que é, mas o que consegue persuadir os outros.”
Embora o tema do ensaio seja a crítica social, a denúncia da hipocrisia reinante, esse conflito que aqui aparece é na verdade essencial à filosofia. Poderíamos definir esse confronto básico assim:
Existe uma verdade X Existem concepções da verdade
Teríamos Sócrates como campeão da primeira assertiva, e como representante da segunda bem poderia estar Protágoras de Abdera, grande sofista que assim definiu o mundo: “O homem é a medida de todas as coisas.”
Sócrates acredita em uma Verdade acima dos homens. Protágoras defende que toda verdade é uma verdade humana, uma interpretação humana.
E você, de que lado fica nessa batalha filosófica???
(25.07.09)
Capítulo XIX – DA LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA
“É frequente vermos as boas intenções, quando mal orientadas, provocarem os piores resultados.”
A primeira foi também a melhor frase do ensaio.
Capítulo XX – NADA APRECIAMOS INTEIRAMENTE PURO
Esse valeu pela citação de “um antigo versículo grego, cujo sentido é: ‘vendem-nos os deuses todos os bens que nos dão.’”
E também por esse inspirador pensamento sobre a indecisão:
“Quem procura e pondera todas as circunstâncias de uma questão, não a leva a cabo; um espírito de mediana capacidade basta para resolvê-la, e tudo pode realizar muito bem, tanto as coisas grandes como as pequenas.”
(27.07.09)
MONTAIGNE Volume 2 – Coleção Os Pensadores
Capítulo XXI – DA INDOLÊNCIA
De vez em quando Montaigne dá uma de Maquiavel e fica falando sobre sucessos e fracassos de guerra, histórias de batalha, como exemplos de alguma hipótese. Talvez seja um tipo de discurso comum na época, mas como o próprio Montaigne citou Maquiavel de uma forma meio despeitosa (será que essa palavra existe? Mistura de despeito com desrespeito) em um desses ensaios, concluo que estava mesmo imitando o estilo italiano maquiavélico. Mas em matéria de maquiavelismo, ninguém pode se comparar a Maquiavel, ora pois!
Valeu por essa frase:
“A atitude mais corajosa diante da morte, e a mais natural, está em a esperar, não somente sem espanto como também sem preocupação; está em continuar a viver, até que ela se apodere de nós”.
Capítulo XXII – DOS CORREIOS
Praticamente uma crônica moderna, esse breve ensaio. Montaigne fala sobre os tipos de correios: mais rápido através dos postos de troca de cavalo, criativo ao pintar andorinhas com cores diferentes e soltá-las de acordo com a mensagem, tradicional no uso dos pombos em Roma.
O indiscutível toque da crônica se dá quando Montaigne traz essas informações para sua vivência pessoal e reclama da dor e do cansaço de cavalgar.
Será que Montaigne é o pai da crônica?
Capítulo XXIII – DOS MEIOS E DOS FINS
Esse ensaio está em sintonia com Inácio de Loyola, o fundador da ordem dos Jesuítas e autor da frase: “os fins justificam os meios”.
Montaigne acaba dizendo quase a mesma coisa, talvez de uma forma mais sensível: “a fraqueza de nossa condição impele-nos não raro a empregar meios condenáveis para alcançar um resultado conveniente”.
Gostei principalmente dessa prece de Catulo:
“Ó poderosa Nêmesis, faze que não deseje nada a ponto de o tentar obter em detrimento de seu legítimo dono.”
Capítulo XXIV – DA GRANDEZA DE ROMA
Mais uma crônica de Montaigne, sobre como sua época não se comparava à glória de Roma.
Capítulo XXV – DA INCONVENIÊNCIA DE FINGIR DE DOENTE
...porque pode acabar ficando doente mesmo.
Capítulo XXVI – DOS POLEGARES
“Na Lacedemônia os professores puniam os alunos mordendo-lhes o polegar.”
Credo!!!
(28.07.09)
MONTAIGNE Volume 2 – Coleção Os Pensadores
Capítulo XXVII – A COVARDIA É MÃE DA CRUELDADE
Pelo que diz Montaigne, essa frase era bem comum em sua época: “A covardia é mãe da crueldade”.
Eu não a conhecia, e achei interessante a associação. Lembrei de meu ano no Exército, pois servi no CPOR e me chamou muito a atenção que os alunos mais preguiçosos, indisciplinados e “bisonhos”, depois que se tornaram aspirantes, foram justamente os mais cruéis, que mais perseguiam os soldados... ou seja, uns covardes!
Capítulo XXVIII – CADA COISA A SEU TEMPO
Deu um ataque de conservadorismo em Montaigne e ele resolveu criticar as pessoas de mais idade que se dedicam a aprender algo. Para com isso, Montaigne! Nunca é tarde para se aprender nada! Quem não tem mais o que aprender, está desperdiçando oxigênio...
Parece que Montaigne tem alguns grilos com a idade. Ele chegou a dizer que um homem que nada fez de significativo até os 30 anos provavelmente nunca chegará a fazê-lo. O detalhe é que ele começou a escrever seus Ensaios, pelos quais foi imortalizado, aos 35 anos...
Capítulo XXIX – DA VIRTUDE
Coletânea de diversos episódios da vida dos antigos e também de contemporâneos de Montaigne. Essa história de longe foi a mais bizarra:
“Há cerca de sete ou oito anos, um aldeão, que ainda vive, cansado das cenas de ciúme que lhe fazia a mulher, foi acolhido ao voltar do trabalho pela saraivada habitual de recriminações. Louco de raiva, com a foice que trazia à mão, decepou as partes do corpo que tanto agitavam sua mulher e jogou-lhas à cara.”
Capítulo XXX – A PROPÓSITO DE UMA CRIANÇA MONSTRUOSA
Montaigne descreve dois irmãos xipófagos, e finaliza com sensibilidade:
“Os que denominamos monstros não o são perante Deus, pois só Deus distingue e aprecia, na imensidade de Suas obras, as formas infinitas que imaginou.”
Capítulo XXXI – DA CÓLERA
“A cólera é paixão que em si mesma se compraz e a si mesma aplaude. Quantas vezes, tendo agido sob o impulso de um erro nós nos irritamos contra a verdade e inocência comprovadas?”
Montaigne começa denunciando o perigoso hábito dos pais de castigar os filhos no momento da raiva, quando geralmente se faz mais mal que bem.
Depois ele dá uma espetada nas mulheres:
“Quem já se houve com mulheres obstinadas sabe da raiva que as invade se opomos à sua irritação o silêncio e a indiferença. (...) Assim são as mulheres. Irritam-se apenas para ter uma oportunidade de irritas os outros, imitando nisso as leis do amor.”
Podem chamar de machismo, mas que tem um pingo de verdade aí...
Capítulo XXXII – DEFESA DE SÊNECA E PLUTARCO
...contra alguns que falaram mal dos dois autores prediletos de Montaigne.
Gostei dessa percepção:
“Se apresentam a alguém algo que outro fez ou imaginou, para o julgar, toma-se a si próprio como referência; o que nele se verifica é que deve servir de regra. Que perigosa e insuportável tolice!”
Realmente, é bem mais sábio tentar sempre se colocar no lugar do outro, e não achar o outro estranho porque ele não encaixa em nosso lugar...
Capítulo XXXIII – HISTÓRIA DE ESPURINA
Esse é um recurso bem usado por Montaigne: a tal história de Espurina só é contada no final do ensaio, que é principalmente um retrato das maiores qualidades do imperador romano Júlio César e também de seu principal defeito (segundo Montaigne), a ambição desmedida.
Quanto a Espurina, foi um jovem tão belo que despertava a volúpia de todos que o viam. Para fugir ao assédio, desfigurou seu rosto com uma faca...
Gostei desse pensamento:
“É talvez mais fácil abster-se de maneira absoluta de quaisquer contatos com o sexo feminino do que se conduzir sempre de modo perfeito com sua mulher. (...) O uso comandado pela razão é mais penoso que a abstinência.”
Capítulo XXXIV – OBSERVAÇÕES ACERCA DOS MEIOS QUE JÚLIO CÉSAR PUNHA EM PRÁTICA NA GUERRA
Montaigne empolga em sua paixão por César:
“Tais homens tem uma confiança como que sobrenatural em sua sorte, e eis porque [César], referindo-se a esses empreendimentos ousados, dizia que convinha executá-los sem indagar se deviam ou não ser tentados.”
Capítulo XXXV – TRÊS BOAS MULHERES
Montaigne estava com raiva de alguém, de alguma viúva que em sua visão ofendeu o defunto marido, daí resolveu desancar a hipocrisia das viúvas em geral! As três boas mulheres são exemplos da antiguidade de esposas que souberam acompanhar os homens na morte...
Gostei muito dessa conclusão:
“Eis minhas três histórias, todas verdadeiras, e tão trágicas e interessantes quanto as que inventamos para distrair o público. E espanta-me que os que se dedicam a isso, não as colham na realidade em vez de as inventar. Pois assim teriam menos trabalho e tirariam delas maior proveito. Quem com elas quisesse escrever uma obra, teria apenas que as ligar umas às outras, como com a solda se unem dois fragmentos de metais diferentes.”
(29.07.09)
Capítulo XXXVI – DOS HOMENS PREEMINENTES
Depois de falar das três boas mulheres, a sequência natural é louvar três grandes homens.
O primeiro é Homero. Fiquei feliz por Montaigne colocar Homero acima de todos. Durante muito tempo considerei a Odisseia simplesmente a maior história de todos os tempos. Essas palavras de Montaigne traduzem admiravelmente esse sentimento causado por Homero:
“É contrário à natureza das coisas, ter ele [Homero] produzido a melhor das obras criadas pelo espírito humano, pois em geral tudo é imperfeito em sua origem e só se fortalece e amplia na medida em que se desenvolve. Com ele entretanto a poesia e as ciências já surgem perfeitas. Por isso mesmo podemos considerá-lo o primeiro e o último poeta, porque, segundo o belo testemunho da antiguidade, não imitou ninguém nem ninguém o pôde imitar.”
Só recentemente tive acesso ao épico indiano Mahabharata, bem mais antigo e inacreditavelmente ainda mais colossal que a Odisseia e a Ilíada juntas! Mas na época de Montaigne o Mahabharata ainda não era conhecido no Ocidente...
“O segundo desses homens superiores é Alexandre, o Grande. (...) Que coisa grandiosa ter percorrido, com trinta e três anos, todo o mundo conhecido em seu tempo, e alcançado em uma metade de vida normal o máximo a que aspira um homem!”
Foi só a custo que Montaigne não deu a coroa a Júlio César ao invés de Alexandre. “Mas, ainda que a ambição de César tenha sido mais moderada, causou tanta infelicidade a seu país e ao mundo que, bem pesados ambos, não posso deixar de manifestar-me a favor de Alexandre.”
“O terceiro e, a meu ver, o melhor de todos, é Epaminondas. (...) Os gregos honraram-no com o título de ‘maior dos gregos’ e ser o maior na Grécia correspondia a ser o maior no mundo.”
E eu nunca nem tinha ouvido falar desse Epaminondas!
(30.07.09)
Capítulo XXXVII – DA SEMELHANÇA DOS FILHOS COM OS PAIS
Montaigne sofre com ataques de cólica nefrítica (cálculos renais) e chega a pensar na morte:
“(...) dizendo para mim mesmo que chegara a hora de partir; que é preciso interromper a existência, cortando-a no vivo e na parte ainda sã”.
“Essas cólicas comportam ao menos a vantagem de me familiarizar enfim com a ideia da morte, pois quanto mais me atormentam e importunam menos me sinto preso à vida.”
“Que não me censurem os males que nesta hora me ferem; já vivi quarenta e sete anos com excelente saúde, parece-me suficiente. E se minha vida findasse agora, ainda seria das mais longas.”
Isso acaba levando Montaigne a um longo discurso contra a incompetência dos médicos de seu tempo, o que ele faz de forma inteligente e muitas vezes engraçada:
“Um mau lutador fizera-se médico: ‘coragem’, disse-lhe Diógenes, ‘tens razão; vais agora poder derrubar todos os que te derrubaram outrora’. Como observa Nícocles, ‘tem eles [os médicos] a sorte de o sol iluminar-lhes os êxitos e a terra esconder-lhes os erros’.”
O que não impede que o próprio Montaigne se arrisque a elaborar algumas hipóteses sobre doença e saúde, o que faz com muita sensibilidade:
“Julgo que os banhos são salutares e que muitas afecções provêm do fato de termos perdido o hábito de lavar diariamente o corpo, como se fazia em quase todas as nações do passado e ainda se continua a fazer em algumas. Não posso compreender que hava alguma vantagem em conservar os poros obstruídos pela sujeira.”
O que mostra que o filósofo, assim como o poeta, é aquele que enxerga o óbvio!
Mas o mal que a filosofia se propõe a curar é mesmo a ignorância:
“Toda ideia preconcebida é destituída de razão e portanto má. É doença que cumpre combater.”
E filosofia, como Montaigne a entende, nunca será um conhecimento vazio, é necessário incorporá-lo à prática:
“É para nós mesmos e não para os outros que nos educa a filosofia; para que sejamos e não para que pareçamos ser.”
O tema que dá título ao ensaio aparece quase de passagem:
“Prodigioso é com efeito que o sêmen prolífico engendra e traz a marca não somente da constituição física de nossos pais, mas ainda de seus pensamentos e tendências. (...) Quem me explicar a causa pode estar certo de que aceitarei também as explicações que porventura me venha a dar acerca de outros milagres, conquanto não se valha de alguma teoria mais fantástica ainda do que o próprio fato, o que se verifica não raro.”
Fiquei pensando o que Montaigne acharia de uma explicação a respeito do DNA... o que me lembrou algo que li há algum tempo, a afirmação de que uma criança de 10 anos, em nossos dias, possui muito mais conhecimentos sobre o mundo que Aristóteles! Vivemos em uma época privilegiada, repleta de oportunidades de crescimento para a espécie humana.
Com esse ensaio termina o livro II. Esse pensamento me trouxe alguma tristeza: depois que eu tiver lido o livro III, não haverá mais Montaigne para ler!!! 
(01.08.09)