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    Os Ensaios - Livro III -

    Michel de Montaigne

    Martins Fontes
    2001
    501 páginas
    16h 42m
    ISBN-10: 8533614691
    Português Brasileiro
    4.2
    24 avaliações
    Leram55Lendo22Querem101Relendo1Abandonos1Resenhas4
    Favoritos5Desejados101Avaliaram24

    Pela primeira vez no Brasil a edição completa e fiel de uma das mais importantes criações do pensamento humano, onde Montaigne repassa, sempre a partir de sua experiência pessoal, a virtude, a cólera, a presunção, a crueldade, e muitas outras questões humanas fundamentais sobre as quais todos nos questionamos.

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    Fabio Shiva28/08/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    LIVRO III

    Capítulo I – DO ÚTIL E DO HONESTO Montaigne inicia o livro III bem a seu gosto, entre questões éticas e abundantes exemplos do passado clássico. Como em vários momentos anteriores, Montaigne revela ser um psicólogo sutil, um profundo conhecedor da natureza humana: “Nosso ser é um aglomerado de qualidades que são ao mesmo tempo defeitos.” “Mesmo a crueldade, esse vício antinatural, habita em nós, pois paralelamente à compaixão experimentamos uma volúpia agridoce, e doentia, ao espetáculo do sofrimento alheio.” “Quem extirpasse o germe dos maus sentimentos do coração do homem destruiria nele as condições essenciais à vida.” Surpresa foi ver Montaigne falando sobre a “malandragem”! “Mas seria desconhecer a realidade não dar à malandragem o mérito que lhe cabe, sei que não raro presta serviços e é necessária em mais de uma ocasião. Há defeitos lícitos como há boas ações ilícitas.” Como o Brasil havia acabado de ser descoberto, ainda não estava em voga o jeitinho brasileiro... Capítulo II – DO ARREPENDIMENTO “Outros autores tem como objetivo a educação do homem; eu o descrevo.” Aqui Montaigne volta ao tema central de sua filosofia: “A vida íntima do homem do povo é de resto um assunto filosófico e moral tão interessante quanto à do indivíduo mais brilhante; deparamos em qualquer homem com o Homem.” O que ele faz sempre com carisma e bom humor: “Eu e meu livro estamos bem aparelhados. Em outros casos, pode-se apreciar a obra e não gostar do autor; no meu caso, não.” Essa frase me fez refletir: “Os vícios de outrora tornaram-se os costumes de hoje.” (Sêneca) Pois a frase é de um autor da Roma clássica, e foi citada por Montaigne como se aplicando a sua própria época, mas nada impediria que alguém a usasse para descrever nosso próprio tempo. Isso significa que de Roma para cá só fizemos decair??? Ou será que tudo é uma questão de perspectiva??? Será que tudo é mesmo relativo??? Ética é uma parte da filosofia que se dedica a descobrir qual é a melhor vida possível, um saber que ensine a bem viver. Hoje a palavra ética está no senso comum mais associada a um código de conduta, a regras de bom comportamento na vida profissional e na sociedade como um todo. Se pensarmos que a Ética, em sua origem, é a busca da felicidade, fica mais fácil compreender que o mundo seria um paraíso se todos agissem com ética... A Ética de Montaigne é bastante profunda, pois não se limita às aparências: “Todos podem fazer-se comediantes e representar o papel de um personagem honesto. Mas dentro de nós, onde somos senhores, onde tudo permanece secreto, é difícil não nos afastarmos da regra. E ser ponderado em assunto que não suporta a interferência alheia, é aproximar-se da perfeição.” “As tendências naturais desenvolvem-se e se fortalecem pela educação, mas não se modificam. Tenho visto milhares de indivíduos voltarem-se para a virtude ou o vício, apesar de uma educação que os deveria impelir para o lado oposto.” Falando sobre o arrependimento, Montaigne demonstra conhecer bem os intricados mecanismos da culpa: “O que verdadeiramente nos condena, e afeta a maneira de ser de todos, é que o próprio arrependimento se acha corrompido pelas más intenções. Temos apenas confusamente o desejo de nos corrigir, iludimos a penitência e nos conduzimos então pior ainda do que no pecado.” (03.08.09) Capítulo III – DA COMPANHIA DOS HOMENS, DAS MULHERES E DOS LIVROS Montaigne reflete sobre as três coisas que lhe dão mais prazer: conversar com os homens, amar as mulheres e ler os livros (não necessariamente nessa ordem...). Para que esses prazeres não se misturem, ele critica a moda das mulheres em seu tempo quererem se instruir e debater filosofia (por mais que tenha visão e sensibilidade, Montaigne é também um homem de seu tempo). A melhor parte do ensaio é mesmo quando ele fala sobre sexo e se sai com algumas boas tiradas: “Mas a atitude dos homens de nossa época faz, como o demonstram os fatos, que as mulheres se unam para nos escapar ou, imitando-nos, representem igualmente e se prestem à comédia das relações íntimas sem paixão nem ternura.” Montaigne é contra o sexo pelo sexo, desprovido de alguma aspiração mais sublime: “Os que fizeram uma deusa de Vênus, levaram principalmente em apreço a sua beleza imaterial e espiritual; ora, o prazer que buscam os trapaceiros é unicamente sexual. Não é o que o homem deveria ambicionar, nem mesmo o do animal.” Por isso mesmo é que “O comércio dos livros é mais seguro”: “Para afastar uma ideia importuna, nada como recorrer aos livros; apossam-se de mim e fazem-me esquecê-la.” Me identifiquei com essas duas frases avulsas: “Não há como nos apiedarmos do doente que tem a cura a seu alcance.” “Acho mais suportável estar sempre só do que não poder estar nunca.” Capítulo IV – DA DIVERSÃO A diversão de que trata Montaigne é todo assunto que nos desvie de algum tema, como por exemplo o fato inevitável da morte. Nesse ensaio ele dá boas mostras de sua profunda psicologia: “Quando uma ideia penosa me invade, mudo o curso de meu pensamento em vez de tentar suplantá-la. Substituo-lhe uma ideia contrária se possível ou pelo menos diferente.” Jung resumiria bem essa sábia estratégia ao dizer que não adianta tentar NÃO pensar no elefante branco: “Tudo a que se resiste, persiste.” Dá-lhe Montaigne! (05.08.09) Capítulo V – A PROPÓSITO DE VIRGÍLIO Não se deixe enganar pelo título. Nesse longo ensaio, um dos mais divertidos até aqui, Montaigne usa a filosofia para explicar porque o sexo é assunto popular. Mas até que o ensaio começa bem sério, apesar do ótimo conselho: “Mistura à sabedoria um grão de loucura”. (Horácio) Gostei bastante dessas afirmações de Montaigne: “O pior de meus atos, a pior das situações em que me encontre não me parecem tão feios que não possam ser confessados, pois mais feio e covarde é não ousar dizê-lo. Todos se mostram discretos na confissão, mas na verdade deveriam tê-lo sido na ação: a ousadia no erro é em parte compensada pela ousadia na confissão. Quem se obrigasse a tudo dizer, obrigar-se-ia a nada fazer que não pudesse ser dito.” Que demonstram a sabedoria de nosso Orkut, que diz praticamente a mesma coisa ao nos brindar com a sorte diária: “Se você não quer que ninguém saiba, não faça.” Essa frase clássica também expressa belamente a mesma ideia: “Por que ninguém confessa seus vícios? Porque continuamos escravos deles. É preciso estar acordado para contar um sonho.” (Sêneca) Finalmente Montaigne entra no assunto sexo, e para valer! Inicialmente, parece que o seu discurso vai ser bem conservador, quando ele propõe que as esposas não sejam amadas com uma paixão muito ardorosa, pois isso desperta a lascívia e é contrário à finalidade maior do casamento, que é a procriação. Em seguida ele diz: “Um bom casamento, se é que existe, recusa-se ao amor; deve antes visar a uma boa amizade.” Mas logo Montaigne engata em uma veia mais divertida, e imagino o impacto que suas frases não causaram entre as “senhoras de sociedade” no seu tempo: “Tem razão as mulheres quando se recusam a acatar as regras de conduta estabelecidas pela sociedade, tanto mais quanto foram feitas pelos homens que as não ouviram a respeito.” “Quando as mulheres abrandam um pouco sua atitude cerimoniosa e concordam em falar com toda a liberdade, percebemos que não passamos de crianças ignorantes ao seu lado.” “Todo o movimento do mundo tem essa conjunção dos sexos como objetivo; ela se encontra em toda parte; é o centro para o qual tudo converge.” “Digamos a verdade: não há entre nós quem não receie mais a vergonha provinda das faltas de sua mulher do que a decorrente de seus próprios erros.” “Nada nos seduz mais do que uma mulher que se mantém honesta sem deixar de ser carinhosa e amável.” “Neste século é preciso mais temeridade do que tenho, essa temeridade que os jovens atribuem ao entusiasmo da idade, mas que, se a olharmos de perto, não passa, na realidade, de desprezo pela virtude das mulheres que assediam.” “E bom psicólogo foi quem disse que, para um casamento feliz, é necessário unir um homem surdo a uma mulher cega.” “Os povos e religiões coincidem em certas coisas: oferendas, sacrifícios, luminárias, incensos, jejuns e condenação do ato sexual. (...) E talvez tenhamos mesmo razão em condenar o ato que engendra coisa tão estúpida quanto o homem, e em tachar de indecentes as partes que dele participam.” “Mil motivos, fora da vontade, podem levar uma mulher a entregar-se; a coisa não é, em si, uma prova de afeição.” “Ademais, exigindo o papel ativo maiores esforços do que o passivo, a mulher está sempre em estado de desempenhar o seu, ao passo que pode ocorrer-nos o contrário.” A conclusão, a favor da igualdade sexual, antecipa o feminismo em 400 anos: “para acabar, portanto, com este comentário, direi que machos e fêmeas saem de um mesmo molde e que, salvo pela educação e os costumes, em bem pouca coisa diferem.” Mas Montaigne atinge o auge da sinceridade mesmo ao confessar que é pouco dotado sexualmente: “Lamentável imperfeição, pois cada uma de minhas peças é igualmente minha e nenhuma mais do que essa me torna mais essencialmente homem.” Admirável sinceridade! Um homem capaz de falar a verdade a esse respeito deve mentir muito, mas muito raramente! Claro está que ele já se considera velho e fora do jogo do sexo: “Em outras palavras, após inúmeros contratempos libertei-me dessa paixão perigosa e posso falar abertamente.” “Compreendo porém muito bem que o amor não se recupera; por fraqueza e experiência nosso gosto se faz mais exigente e requintado; e tanto mais queremos selecionar quanto menos possibilidades temos de ser aceitos.” Não seria um texto de Montaigne se ele não fugisse do tema um pouco (mesmo que o tema já fosse uma fuga de outro tema!), e daí saiu essa bela frase sobre a arte de escrever: “Quando vejo essa maneira ousada, tão viva e profunda de se exprimir, não considero o que escrevem ‘bem escrito’, mas sim ‘bem pensado’.” Penso exatamente assim! Platão mesmo já dizia: “quem concebe bem, escreve bem”. E também essas outras pérolas saíram de um desvio do tema principal: “os que pretendem opor a gramática ao costume são ridículos”. – também concordo totalmente, pois penso que a língua é viva, pertence ao povo que a fala, e não aos eruditos e gramáticos que se arvoram em seus senhores. “Se olho atentamente para alguém, algo dessa pessoa se imprime em mim; aposso-me do que analiso” – aqui mais uma vez Montaigne dá mostras de uma rara compreensão da psique humana. Há também umas boas anedotas: “Houve na Catalunha um processo célebre em que a mulher se queixava da frequência com que seu marido a solicitava (...), que mesmo nos dias de jejum não podia deixar de possuí-la dez vezes.” Por decisão da rainha, a esposa ficou obrigada a um máximo de seis relações por dia! Outra anedota bizarra refere-se ao castigo dado pelos atenienses ao que eram pegos cometendo adultério: eram “empalados” com nabos e cenouras!!! Imagine se a moda volta nos dias de hoje: iria faltar legumes na feira... (11.08.09) Capítulo VI – DOS COCHES INACREDITÁVEL!!! Nesse ensaio Montaigne faz referência a algo que só pode ser a tal Profecia Maia, de acordo com a qual o mundo irá chegar ao fim de um grande ciclo em 21 de dezembro de 2012: “Os mexicanos eram algo mais civilizados e artistas do que os outros povos do Novo Mundo. Acreditavam, como já o acreditamos também, que o mundo está por acabar; e a desolação a que levaram seu país pareceu-lhes um sinal precursor. Pensavam que a existência do mundo comportasse cinco fases, cada uma delas correspondente à vida de um sol. Quatro já teriam terminado e estaríamos vivendo a quinta fase. (...) O autor dessas informações ignora o que os mexicanos pensam acerca da maneira por que se extinguiria o nosso sol, mas estaríamos às vésperas de uma conjunção de astros semelhante à que provocou, há cerca de oitocentos anos, o fim da quarta fase, anterior à nossa.” Não sei o que me deixa mais estupefato. Se é o fato de Montaigne ter tido acesso a essas informações, tão pouco tempo após a descoberta do Novo Mundo. Ou se é a onipresente lei da sincronicidade, que veio colocar um assunto que tanto me interessa onde eu menos esperava! Capítulo VII – DOIS INCONVENIENTES DAS GRANDEZAS Mais algumas boas frases de Montaigne: “Não aprecio em verdade o poder, nem para exercê-lo nem para suportá-lo.” “O ofício mais difícil deste mundo é sem dúvida o de rei.” E também esse interessante conceito: “Homero viu-se forçado a consentir em que Vênus, tão delicada e suave, fosse ferida em Tróia, a fim de outorgar-lhe coragem e ousadia, qualidades que não se agregam a quem não corre perigo. Se se admite que os deuses sejam sujeitos a cóleras, paixões, temores, ciúmes, sofrimentos, é para poder atribuir-lhes as virtudes opostas. Quem não corre risco, nem enfrenta dificuldades, não pode pretender honrarias nem se beneficiar com o prazer das vitórias.” (24.08.09) Capítulo VIII – DA ARTE DE CONVERSAR Sempre há as belas frases de Montaigne, que nos fazem pensar: “Começamos por hostilizar os argumentos e acabamos inimigos dos homens.” – Grande verdade! Por isso não gosto muito de debater minhas opiniões. É uma armadilha muito difícil de se vencer: nos primeiros cinco minutos, queremos honestamente trocar ideias. A partir daí, tudo o que importa é vencer o adversário! Prefiro agir como os Titãs: cada um que fique com o seu bom gosto! “E não é porque são sábios que são menos tolos.” – Outra grande verdade que merece ser lembrada, pois temos a tendência de confundir erudição e cultura com inteligência. Uma das pessoas mais estúpidas que conheci possuía doutorado pela Sorbonne! “Não há maior tolice, nem mais absurda, do que impressionar-nos e irritar-nos com as tolices alheias.” – Se formos cuidar de nossas próprias tolices, já teremos assunto para a vida inteira! “Nada me irrita mais, porém, na estupidez, do que a satisfação com que se exibe, maior do que poderia ter, com certa razão, a inteligência. (...) A obstinação e a convicção exagerada são a prova mais evidente da estupidez.” – Dá-lhe, Montaigne! Como sempre se revelando um excelente psicólogo e conhecedor da natureza humana. (11.09.09) Capítulo IX – DA VAIDADE “Não haverá talvez maior vaidade que escrever sobre esta e tão inutilmente.” Assim começa Montaigne o seu longo ensaio, mostrando que está preparado para lançar chumbo grosso, ainda que contra si mesmo: “Deveria haver leis que punissem os escritores ineptos e inúteis, como existem para os vagabundos e malandros. Assim se arrancariam das mãos do povo minhas obras e muitas outras.” Como sempre as citações dos clássicos romanos são abundantes. Gostei mais dessas: “Não se deve avaliar a fortuna pela renda, mas pelas necessidades.” (Cícero) “Suportaria estes tempos piores do que a idade do ferro, em que faltam nomes para os crimes e que a natureza não pode designar por nenhum novo metal.” (Juvenal) “Nada existe, mesmo útil, que seja útil a quem passa correndo.” (Sêneca) De modo geral Montaigne está meio rabugento nesse ensaio, o que nubla um pouco o seu brilho habitual. Mas aqui e ali encontramos pérolas: “Vil e tola atividade, essa que consiste em lidar permanentemente com o dinheiro, contando-o e pesando-o!” “Seja por artifício, ou por impulso natural, o fato de viver a compararmo-nos com os outros causa-nos mais prejuízos do que benefícios.” “Dizem que a vida não é melhor por ser longa mas que a melhor morte é a mais curta.” “Observam alguns jardineiros que as rosas e as violetas nascem com mais perfume se plantadas ao lado da cebola e do alho porque estes atraem e absorvem os maus odores da terra.” “Não porque o disse Sócrates, mas porque em verdade o penso, todos os homens são meus compatriotas; e sou mesmo levado a exagerar este sentimento.” “E água mole em pedra dura tanto bate até que fura, pois, como dizia Lucrécio, a água fura o rochedo.” Essa frase me deixou com a impressão de que foi Montaigne o autor desse famoso ditado. Será? Essa outra frase de Montaigne também remete aos ditos populares: “O que balança em geral não cai.” Aqui um belo exemplo da ironia de Montaigne: “Os ladrões não me odeiam particularmente, nem eu a eles, porque teria que odiar exagerado número de pessoas.” Há também uma declaração de amor a Paris: “só me sinto francês por causa dessa grande cidade (...) É a glória de França e um dos mais nobres ornamentos do mundo.” Vira e mexe, Montaigne volta ao tema central da vaidade, chegando ao ponto de considerar a própria filosofia uma vaidade: “Toda essa sabedoria, todos esses preceitos que serão senão vaidade?” No “gran finale”, Montaigne compensa totalmente a rabugice inicial. Aqui ele alia a sua poderosa capacidade de observação, sua fina psicologia e sua não menos apurada ironia: “Se os outros se analisassem tão atentamente como o faço, achar-se-iam igualmente vaidosos e frívolos. Não posso livrar-me desses defeitos sem me destruir. Todos valemos tão pouco uns como outros, mas o que o não percebem parece-me que saem ganhando, embora não esteja muito certo disso.” (29.09.09) Capítulo X – DO DOMÍNIO DA PRÓPRIA VONTADE “Os cidadãos de Bordéus elegeram-me prefeito da cidade”. A eleição “a pulso” e a falta de entusiasmo em seu cargo de prefeito são os motivos principais para Montaigne falar um pouco sobre tudo: “Nunca dirigimos com eficiência uma coisa que nos domina e obceca”. “Quem se apressa se atrasa.” (Quinto Cúrcio) “Observe-se que mesmo nas ocupações mais frívolas, como no jogo de xadrez ou da bola, o desejo imoderado de ganhar perturba o espírito e o corpo, ofusca a inteligência e paralisa os movimentos. Quem encara com sensatez a vitória e a derrota, permanece senhor de si.” “A pobreza de bens é facilmente remediável; a da alma não tem cura.” “Se o homem se contentasse com o suficiente, eu seria rico; mas como o homem não se contenta, não há riqueza bastante para mim.” (Lucílio) “Sócrates, ao ver carregarem pelas ruas da cidade móveis e jóias de grande riqueza, disse: quantas coisas que eu não desejo!” “desconfio um pouco das coisas que ambiciono.” “É mais fácil não começar do que parar.” (Sêneca) Uma curiosa surpresa é quando Montaigne comenta sobre o episódio dos “dez dias roubados”: “Essa inovação que suprimiu dez dias do ano ocorreu agora no fim de minha vida, num momento em que não posso acomodar-me a essa ideia.” Em 1582 o papa Gregório XIII reformulou o calendário, suprimindo de 5 a 14 de outubro. Como havia a ideia de que os dias de cada um eram contados, houve uma rebelião popular, pois todos se sentiram lesados pela perda de dez dias de vida!!! O encerramento é muito bom: “Tanto aprecio ser feliz como ser sábio e quero dever meu êxito antes às mercês de Deus do que à minha atividade.” Montaigne não é bobo não!!! (09.10.09) Capítulo XI – DOS COXOS Montaigne começa reclamando novamente da reforma do calendário promovida pelo Papa Gregório XIII: “Faz dois ou três anos que foi o ano diminuído de dez dias, em França.” O tema do ensaio varia entre milagres, crendices e boatos: “os homens têm tendência para espalhar rumores falsos” (Cícero) “Com o hábito e o tempo, familiarizamo-nos com tudo o que é estranho; apesar disso, quanto mais me analiso e conheço, tanto mais minha deformidade me espanta e menos eu me compreendo.” “Muitos abusos se engendram no mundo (talvez todos) do fato de nos ensinarem a não manifestarmos nossa ignorância e a aceitarmos o que não podemos refutar.” “Se tivesse tido de educar crianças, eu as houvera habituado às dúvidas e não às afirmações. Diriam: ‘Como? Não sei, pode ser, será?’ Assim mais pareceriam aprendizes aos sessenta anos do que doutores aos dez, como acontece hoje. Quem deseja curar-se de sua ignorância precisa confessá-la.” “As feiticeiras de minha terra correm risco de morte desde que alguém afirme que os sonhos delas se realizaram.” “Mandar queimar vivo um homem apoiado em simples conjeturas é valorizá-las exageradamente.” O objetivo de Montaigne parece ser o de criticar a Inquisição, coisa que não se poderia fazer muito abertamente na época em que os desafetos eram enviados para a fogueira! Daí recorrer à ironia e à sutileza: “Quem, para provar o que sustenta, se revela arrogante, mostra que a razão não é seu forte.” O título do ensaio é justificado de forma surpreendente: “diz-se na Itália que não conheceu o amor no que tem de mais doce, quem não dormiu com uma coxa.” A explicação dos filósofos antigos para os coxos serem “bons de cama” é ainda mais curiosa: “Afirmam que as pernas não se alimentando como deveriam, em consequência da enfermidade, nutrem-se melhor as partes genitais, desenvolvem-se mais e tornam-se mais vigorosas.” Que coisa! (10.10.09) Capítulo XII – DA FISIONOMIA Esse é o penúltimo ensaio de Montaigne que tenho para resenhar! Sei que depois que terminar a leitura sentirei saudades, mas no momento estou ansioso por terminar a leitura, que já se estende por alguns meses. Nesses últimos ensaios Montaigne anda bastante rabugento, o que contribui em minha pressa para acabar a leitura. Ainda assim, sempre há frases memoráveis: “Quase todas as nossas opiniões nos são impostas por autoridade alheia.” “Se encararmos com calma a ciência, veremos que é um bem que, como os demais bens do homem, comporta muita vaidade e fraqueza natural.” “Não é preciso saber muito para ser sábio.” (Sêneca) “Nada mais falaz do que uma religião que justifica crimes com o interesse dos deuses.” (Tito Lívio) Interessante é a referência que Montaigne faz a suas periódicas crises de depressão: “sou de quando em quando sujeito a depressões melancólicas, que me dominam enquanto não me armo para rechaçá-las.” Até que ponto essas crises fazem parte da natureza humana? Ou será que só as pessoas “sensíveis” padecem desse mal? Outra curiosidade é a referência à peste, que Montaigne vivenciou de perto: “a peste grassou na região com uma violência nunca vista.” Depois Montaigne se entrega à questão maior da filosofia, que é a do ser diante da morte. Dessa vez ele está disposto a adotar uma atitude contrária à normalmente defendida pela filosofia e a negar o valor de se preparar para a morte: “Se não sabeis morrer, não vos atormenteis; a natureza ensinar-vos-á no momento preciso de um modo suficiente.” “Se não soubemos viver, não adianta aprendermos a morrer, e se o soubemos com calma e serenidade, também saberemos morrer do mesmo modo.” O ponto alto do ensaio é uma longa citação à defesa de Sócrates, uma das mais belas passagens da filosofia. Acusado de corromper a juventude com suas ideias, Sócrates faz a sua defesa de forma bem original: ao invés de pedir clemência ou alegar inocência, ele diz que o que merece mesmo é ser sustentado pela cidade, como o são os heróis de guerra. Não é à toa que Sócrates é tão admirado!!! Montaigne não deixa de expressar seus temores com a aproximação da velhice em máximas pouco auspiciosas: “o espírito amesquinha-se e embota-se ao envelhecer.” Sorte a nossa que tantos anciões de brilho provaram por A mais B que nessa Montaigne errou feio! Caso ele estivesse certo, a experiência humana seria algo muito triste e sombrio. Gostei desses pensamentos: “confio facilmente na sorte e a ela me entrego, do que tive até hoje antes razões para me louvar do que para me arrepender, tendo-a constatado mais avisada e amiga de meus interesses do que eu próprio. (...) Creio que nos malogramos não confiando suficientemente no céu e pretendendo que se deva mais a nosso esforço do que se deve na realidade.” (16.10.09) Capítulo XIII – DA EXPERIÊNCIA No último de seus ensaios, Montaigne faz um passeio por alguns de seus temas prediletos. É claro que ele acaba falando até mesmo do tema principal do ensaio: “quando a razão não basta apelamos para a experiência.” “Escutemos nossa experiência, e veremos que nos diz tudo aquilo de que temos necessidade especial.” “Quem se lembra do papel feio que fez quando tomado de cólera e a que excessos essa febre o impeliu, já sabe a que ponto uma tal paixão é lamentável e não precisa que lho diga Aristóteles.” “Ensinou-me ainda a experiência que nós nos perdemos por falta de paciência.” Um tema muito caro a Montaigne é a análise de si mesmo, objetivo maior de sua filosofia: “A atenção de que há muito aplico em analisar-me, habilita-me a julgar com algum discernimento os outros.” Ele também gosta muito de falar mal da medicina e do direito. Contra os médicos, dessa vez não encontrei nenhuma frase marcante, mas há várias contra as leis e os juízes: “A natureza cria sempre leis melhores do que as nossas.” “Por que nossa linguagem comum, tão cômoda e fácil, se torna obscura e ininteligível quando empregada em contratos e testamentos?” “Quantas condenações mais criminosas do que o crime não tive a oportunidade de ver!” “A autoridade das leis não está no fato de serem justas e sim no de serem leis. Nisso reside o mistério de seu poder; não têm outra base, e essa lhes basta.” “Nada há tão grave, ampla e comumente defeituoso quanto as leis; quem as obedece porque são justas, labora em erro, pois é a única coisa que em verdade não são.” Ele fala bastante também sobre a dicotomia corpo x alma: “Aristipo cuidava do corpo, como se não tivéssemos alma; Zenão só considerava a alma, como se não tivéssemos corpo. Ambos erraram.” Mas o melhor de Montaigne são suas tiradas sobre todo tipo de assunto: “Não morres porque estás doente e sim porque estás vivo; a morte não precisa da doença para matar.” “Nunca duas pessoas julgaram uma mesma coisa da mesma maneira e é impossível observarem-se duas opiniões idênticas, não só de indivíduos diferentes mas ainda de um mesmo homem em dois momentos distintos.” “Quem teme sofrer, sofre mais do que receia.” “Dormir foi e continua sendo a grande ocupação de minha vida.” “A mais admirável obra-prima do homem consiste em viver com acerto.” “é com o traseiro que nos sentamos no mais alto trono do mundo.” Vira e mexe Montaigne vem também com algum assunto inusitado. Dessa vez foi o hábito de fazer cocô: “Reis e filósofos precisam diariamente esvaziar os intestinos; e também as mais belas damas.” Em seguida Montaigne faz considerações sobre a melhor hora do dia para esse hábito muito importante para o bom funcionamento do corpo... Outro assunto inusitado foi a relação entre dieta e sonhos: “Os historiadores afirmam que os atlantes não sonhavam nem comiam carne; associo essas coisas porque na segunda está possivelmente a causa da primeira. Não recomendava Pitágoras uma alimentação especial a quem quisesse ter sonhos de acordo com seus desejos?” Achei curioso o tradutor aguardar até o último ensaio para fazer esse desabafo: Nota do tradutor: “O pensamento de Montaigne carece por vezes de ligação lógica e há que apelar para certas associações de ideias para entendê-lo.” Não podem faltar as citações em um texto de Montaigne: “Procurai, vós que o desejo de aprofundar os mistérios da natureza atormenta.” (Lucano) “Defiendame Dios de mi” (ditado espanhol) “É um grande passo para a liberdade saber disciplinar o estômago.” (Sêneca) E é com esta bela súplica que Montaigne encerra seus Ensaios: “Peço-te, filho de Latona, que me deixes gozar o fruto de meus trabalhos, dando-me uma saúde constante e perfeita, livrando-me da senectude, surda aos doces cantos das Musas.” (Horácio) Mui estimado Senhor de Montaigne, Agradeço de coração as boas horas que passei em companhia de vossa bela prosa. Sinto-me enriquecido por tê-lo conhecido e a vossos distintos pensamentos, a tal ponto que é como se os tivesse recebido de vossos próprios lábios, em ocasiões de boa mesa e melhor conversa, e não de um livro cujo autor já se encontra morto há vários séculos. Não sei se eu seria bem vindo ao Castelo de Montaigne, sendo um reles plebeu baiano, e Vossa Senhoria um mui distinto fidalgo, mas é certo que me senti muito bem acolhido à mansão de vossa filosofia, a tal ponto que doravante me considerarei dela um hóspede permanente. Com votos da mais elevada estima e apreço, Fabio Shiva (21.10.09)

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    Michel Eyquem de Montaigne

    (Saint-Michel-de-Montaigne, 28 de fevereiro de 1533 — Saint-Michel-de-Montaigne, 13 de setembro de 1592) foi um escritor e ensaista francês, considerado por muitos como o inventor do ensaio pessoal. Nas suas obras e, mais especificamente nos seus "Ensaios", analisou as instituições, as opiniões e os costumes, debruçando-se sobre os dogmas da sua época e tomando a generalidade da humanidade como objecto de estudo. É considerado um céptico e humanista.

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    Michel Eyquem de Montaigne