Vanyel Ashkevron é o filho mais velho de Lorde Withen Ashkevron de Forst Reach, como primogênito, cabe a ele o papel de tomar o lugar de seu pai quando chegar a hora, mas as coisas não são bem assim. Enquanto todos seus irmãos e primos são como seu pai, que não apenas são parecidos com ele — fortes, altos, sem muito interesse nos estudos —, mas também seguem a risca cada palavra que Lorde Withen diz. Vanyel é fisicamente parecido com a sua mãe, ele é menor, delicado, com alguns traços femininos e gosta de ler, além de ter sido muito mimado por ela e suas damas de companhia, já que Vanyel é muito bonito, tem um ouvido bom para música e toca bem para alguém em sua posição, ele não quer assumir o lugar de seu pai, mas sim ser um bardo. A história tem vários detalhes, mas basicamente ele leva uma surra do mestre de armas, o que é bastante covarde de um homem feito e com muita experiência para um garoto de 16 anos, apanhando por tentar outro estilo de luta que seu pai e o mestre de armas consideram errado. Vários ossos quebrados e meses depois, Lode Whiten resolve exilar o filho. Como o adolescente que é, Vanyel resolve que se ninguém vai se importar com ele, ele não vai ser importar com ninguém.
Antes de começar de fato a resenha, um ponto que devo citar. Nós sabemos que Vanyel será um Herald-Mage lendário, cujos poderes nunca antes foram vistos, mas isso demora pelo menos 200 páginas para acontecer, porque inicialmente ele não tem NENHUM dom. Mas ao invés de esperar por isso acontecer, o livro só me deixou frustrada porque não acontecia. E existem vários outros pontos na sinopse que só vão acontecer depois da metade do livro, e causam a mesma sensação de frustração.
The Last Herald-Mage vem depois da trilogia The Heralds of Valdemar, ambas histórias se passam no mesmo universo, mas não é necessário ler uma para conseguir entender a outra. Mesmo assim, várias coisas sobre o sistema de magia não são explicadas, pelo menos nesse primeiro livro. É possível entender a história, são apenas detalhes, mas eu teria me sentido mais confortável dentro do universo se eles houvessem sido explicados. Então me pergunto se essa falta de explicação se dá ao fato de tais detalhes terem sido explicados na trilogia que não li.
Esse é o tipo de livro que eu chamo de livro do personagem. Nós estamos acompanhando a jornada de Vanyel, seu descobrimento e amadurecimento, não um grande acontecimento em Valdemar, por exemplo. A história toda é do Vanyel, quando não estamos o acompanhando, acompanhamos seus companheiros. Para me fazer entender melhor, posso usar uma comparação simples, Neve e Cinzas não é um livro do personagem, nele nós acompanhamos sim a protagonista e seu desenvolvimento, mas também temos a história de uma nação escravizada tentando se reerguer e lutar contra um grande mal. Não há nada de tão grandioso acontecendo no fundo de Magic's Pawn, apenas algumas coisas com um intervalo entre si que acontecem para o andar da história e desenvolvimento do personagem principal. Isso é um problema? Não. O problema é que o Vanyel muitas vezes é um chato. Do tipo adolescente chato mesmo. Gosto dele? Gosto. Mas ele é muito... Adolescente. Toda vez que ele começava a falar sobre não se importar com ninguém, eu revirava os olhos. Era muito bobo, muito mesmo. Não conseguia levar a sério, muito menos quando começavam a falar de "máscaras". Mas tenho que admitir que teve o propósito de dar mais coragem para o Vanyel na história.
Assim que chega em Haven, conhecemos Tylendel, um aprendiz de Savil, que é muito poderoso e vai se tornar um grande Herald-Mage. Ele é abertamente gay e leva dois segundos para ter um crush pelo nosso protagonista. Depois de alguma enrolação, Vanyel assume que também tem interesse e temos nosso casal formado. Eles são um casal fofo e fácil de comprar, os dois são adoráveis. E terem de se manter em segredo só faz você torcer mais para os dois, já que Lorde Whiten não gostaria nenhum pouco de descobrir que seu filho está namorando outro homem. Eu tentei manter na minha mente que os dois tinham 16 e 17 anos, por isso as coisas entre eles aconteceram tão rápido, mas então percebi que não fazia ideia de quanto tempo estava se passando na história. Eu sabia quanto tempo havia levado desde a chegada de Vanyel até o começo de seu relacionamento com o 'Lendel, mas depois disso não fazia mais ideia. Mesmo assim, muito pouco tempo, muita pouca interação entre eles para começarem a namorar tão rápido.
E temos outro ponto sobre o relacionamento dos dois. No geral, o livro pode ser dividido em duas partes distintas, a primeira parte se trata de descobrimento, a seguda, de cura. Uma antes e outra depois de acontecimentoX, esse acontecimento muda completamente o rumo da história. Bem, um pouco antes disso, no que mais tarde iria levar para esse acontecimento, para mim, o Lendel usou e manipulou o Vanyel da maneira que quis. Ele o manipulou emocionalmente, escondeu informações, não se preocupou com o bem-estar de seu parceiro e o colocou em risco abertamente. Vanyel viera de uma família em que conhecera pouco amor, quando ele encontra alguém que lhe dá a atenção e carinho que todos querem, é óbvio que vai seguir essa pessoa sem questionar, como fazia antes com Lissa, que era como uma mãe para ele. Como a parte claramente mais madura da relação, era de se esperar que o Lendel percebesse isso, mas tudo o que fez foi negar para si mesmo a existência dessa dependência emocional e depois usá-la. Ele estava passando por um momento difícil, mas deveria ter pensado um pouco mais não só em seu parceiro, mas em outras possíveis soluções para a situação em que estava, não machucar o namorado daquela maneira. Eu gostava muito do Lendel, foi triste vê-lo agir dessa maneira.
Vamos para um ponto ótimo da história, a Savil. Ela é maravilhosa. Minha personagem favorita é Herald-Mage Savil, tia do Vanyel. Normalmente, algo que me incomoda bastante com personagens badass é que elas parece que tem de ser frias, não demonstrar qualquer coisa e não ter fraquezas. Savil é muito badass e ela tem tudo isso, ter fraquezas a faz ser ainda mais forte, por conseguir não deixar que essas fraquezas a impeçam. E ela é... Humana! Ela tem amigos, um antigo amante que você consegue entender que é mais do que amigo, ela vê o Lendel como um filho. Além disso, Savil já é uma senhora, não me lembro exatamente a idade dela, mas a imaginei o tempo todo como uma mulher de sessenta anos. A idade a faz ser muito boa no que é, mas também lhe traz problemas, ela não é a mesma que era antigamente, não tem a mesma força, e mesmo assim precisa fazer todas as coisas que sempre fez, sem deixar a idade impedí-la. O relacionamento dela com o Andrel, o amigo-não-só-amigo, é delicioso, melhor ainda do que o casal principal, mesmo que não apareça quase nada sobre os dois. Também fica entendido que ela teve um caso com Jaysen, mas isso quase não aparece.
"The great love is gone.There are still little loves — friend to friend, brother to sister, student to teacher. Will you deny yourself comfort at the hearthfire of a cottage because you may no longer sit by the fireplace of a palace?"
Um ponto que ficou obscuro na história foi os lifebounded. Eles são basicamente soulmates, almas gêmeas. Só que em nenhum momento nos é explicado o que isso realmente quer dizer dentro daquele universo. Temos a noção geral de duas pessoas ligadas pelo destino que nasceram para ficar juntas, mas depois aparecem outro parzinho cujo laço foi feito depois deles se conhecerem há um bom tempo. Então...? Esse é mais um detalhe que não é explicado.
Na segunda parte do livro, temos muito angst. Temos assassinato, suicídio, violência, preconceito, trauma... E o que mais você conseguir pensar. Eu vi várias resenhas reclamando do Vanyel ficar choramingando por qualquer coisa, isso é verdade, mas eu achei difícil julgá-lo por isso na primeira parte, incomoda em alguns momentos, mas eu relevei, ele é jovem e passou por várias situações difíceis, vai amadurecer. Mas na segunda metade, isso toma conta de todo o livro. Ele tem sim um grande motivo para estar daquela maneira, mas seu sofrimento é esfregado na cara do leitor em busca de mais simpatia pelo personagem. Vanyel tinha minha simpatia antes disso, eu teria lamentado ainda mais por ele se a autora não tivesse feito dessa forma... Escancarada.
Nós temos outro casal adorável entre os Hawkbrothers, Starwind e Moondance, ambos k'Treva. Eles são mais maduros, porque tem um tempo de vida maior. Não foi explicado se eles envelhecem e morrem, mas muito mais lentamente que os humanos, ou se são como os elfos de Tolkien.
O tema de tolerância também é algo abordado sem sutileza alguma. Talvez isso seja necessário para o público-alvo, ainda mais na época em que foi lançado. Não me incomodou, mas é um ponto que poderia ser melhorado.
Magic's Pawn é um livro despretensioso, mesmo que o leitor esteja conhecendo um personagem que se tornará uma lenda. Ele é fácil de ler, a escrita da autora é gostosa, e apesar de todos os problemas que meu senso crítica me aponta, houveram alguns momentos em que eu simplesmente não conseguia parar de ler. Ele é uma fantasia gostosa, com uma mensagem de tolerância importante e nos prepara para os grandes acontecimentos dos próximos livros.