O ensaio aborda 5 questões de fundo: 1. O sistema em que vivemos, em constante crise e depredado pelo domínio da razão; 2. Fissura escandalosa entre ricos e pobres; 3. Liberdade que o poverello busca pela bondade que cativa todo homem; 4. A eclesiogênese, renascimento constante da Igreja como acontecimento de fé que responde à palavra de Deus. 5. Integração do negativo da vida, pelo qual o próprio Francisco transformou suas sombras em luz.
São Francisco de Assis - Ternura e Vigor
Leonardo Boff
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Trechos sublinhados: “...O vazio emana do sentimento de impotência de que pouco podemos mudar na própria vida e na sociedade, finalmente, de que nada é importante. A solidão exprime a perda de contato com a natureza e com os outros em termos de amizade e ternura; não há coragem para o compromisso. O medo é fruto das ameaças objetivas à vida, ao trabalho, à sobrevivência coletiva do gênero humano. A ansiedade se origina do medo imaginário, da ignorância acerca do que fazer, em que crer e no que esperar; quando a ansiedade toma conta de uma cultura inteira significa que toda ela se sente ameaçada e pressente seu fim próximo... Hoje vivemos sob este imperativo: quase tudo é montado em vista da produção. A produção se destina ao mercado de consumo. O consumo para a satisfação das necessidades reais, principalmente daquelas induzidas artificialmente pela propaganda. A classe burguesa, sujeito histórico portador do projeto da modernidade, realizou só para si os ideais dos fundadores: gestar uma sociedade de abundancia. Mas alcançou-o com um custo social exorbitante com a criação de desigualdades e níveis de exploração e pobreza insuportáveis à luz de critérios humanísticos e éticos... Na ternura a relação não é angustiante, porque não há luta de poder e vontade de dominação ou de auto-satisfação, mas serena e forte. Ela deixa aparecer brilho que é uma luz não ofuscante, mas adequada à circunstancia e à pessoa. A ternura e o cuidado é o Eros no seu equilíbrio e na sua regra... Francisco configurou, genialmente, este ideal de santidade que procede pela ‘emocionalidade extática’, pela vontade de identificação com o outro, especialmente o menor e o mais sofrido, pela via da ternura e da com-paixão... A verdade da paternidade universal de Deus forma o cerne da mensagem de Jesus. A tradição cristã pregou sempre esta verdade; entretanto o primeiro a vivê-la nesta dimensão de comoção com todas as criaturas sentidas como irmãs foi sem duvida S. Francisco... Pobreza é um modo de ser pelo qual o homem deixa as coisas serem; renuncia a dominá-las e a submetê-las e a serem objeto da vontade de poder humana. Abdica de estar sobre elas para colocar-se junto delas. Isso exige uma ascese imensa de despojamento do instinto de posse, de domínio sobre as coisas e da satisfação dos instintos humanos. A pobreza constitui a caminhada essencial de S. Francisco feita no lugar físico dos pobres. Quanto mais pobre, mais livre e fraterno se sentia... Francisco abandonou efetivamente sua classe social, a ordem dominante daquele tempo; deixa a sociedade dos ‘maiores’, como se chamavam, e decididamente quer ser ‘menor’; abandona também o estilo de Igreja organizada fortemente na sua hierarquização piramidal para se tornar frater, irmão de todos, sem nenhum titulo hierárquico. Deixou um lugar e definiu o outro com o qual se identificou; os pobres e os leprosos... A pobreza consiste no esforço de remover as propriedades de qualquer tipo para que daí resulte o encontro entre os homens e se possibilite a irmandade. Ser radicalmente pobre para poder ser plenamente irmão, eis o projeto de Francisco com referencia à pobreza... O extraordinário do ensaio de Francisco foi tentar viver uma plena fraternidade no pressuposto de uma pobreza voluntariamente assumida para estar junto com os pobres e com eles reconstruir uma sociedade verdadeiramente comunista no sentido bíblico da palavra. Não seria um socialismo da abundancia, mas da pobreza. Este ensaio de Francisco pressupõe pensar e construir todas as relações humanas sempre a partir dos que menos têm, na preocupação dos que menos são. O pobre é visto como uma aparição da divindade. Esta perspectiva, de si tradicional no cristianismo, jamais ganhou uma configuração social ou cultural; ficou adstrita à meditação religiosa e à caridade que daí se inspirou... Francisco libertava os pássaros presos, a ovelhinha levada ao matadouro, se indignava com aqueles que maltratavam os animais... Supõe que em cada pessoa humana mora um ladrão possível e em cada ladrão vive um frade possível. E o frade santo e bom dentro do ladrão pode ser resgatado desde que investirmos ternura, compreensão e cuidado. É a estratégia de S. Francisco, a libertação pela bondade... Francisco introduz um elemento materno na comunidade. Cada um deve ser mãe para com o outro, solícito nas urgências e nas enfermidades. Esta ajuda não se reduz às necessidades materiais, mas abrange também os problemas interiores. Que os irmãos se abram mutuamente com confiança, confessem-se uns aos outros, se alegrem pelo que Deus faz com cada um... No coração de cada um moram anjos e demônios; a passionalidade vulcânica se ramifica em toda a tessitura humana; instintos de vida e de morte dilaceram o interior de cada pessoa; impulsos de ascensão, de comunhão com o diferente e de doação convivem com pulsões de egoísmo, de rechaço, de mesquinharias. Tudo isso não está ausente na vida dos santos. E se são santos é porque sentiram tudo isto mas não con-sentiram com as energias destruidoras, antes pelo contrário souberam enfrentar-se com elas, não recalcá-las e canalizá-las para um projeto de bondade. Não é sem razão que os santos representam o que há de melhor na raça humana. Ninguém pode subtrair-se ao seu fascínio e ao secreto desafio que eles lançam... A liberdade se realiza no interior de um espaço definido e seu alargamento implica sempre um oneroso processo de libertação. Pertence aos signos da maturidade o assumir com serenidade e desprendimento interior aquelas realidades que, objetivamente, não podemos modificar... A determinação exterior pode ser chance de crescimento para dentro e a oportunidade para se mostrar respeitoso e solidário para com realidades diferentes. Francisco mostrou-se mais forte ao assumir tais determinações...”
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