Todos os itens de um folhetim estão lá: mocinha indefesa perde a família e se apaixona por um estranho que a faz se sentir amada. Tipico livro para virar Best Seller, mas nada disso quer dizer que seja um livro fraco ou bobo, pelo contrário, mesmo tendo todos os itens do folhetim Best seller, a autora conseguiu escrever um livro extremamente original.
O primeiro ponto positivo é a época em que se passa o livro: Idos de 1600, época em que a America estava sendo colonizada. No meu caso já li livros que falavam da colonização sob o ponto de vista dos portugueses e espanhóis, mas acho que nunca tinha lido um livro que falasse sobre o inicio da colonização dos EUA. E é para lá que a autora nos leva, e com tremendo sucesso, pois sentimos todas as dificuldades dos personagens.
O livro inicia-se na Inglaterra, onde vive o médico Daniel e suas filhas, May e Hannah. May, linda, altiva e independente, foi criada pelo pai para casar com um homem com um bom dote. Prendada, sabe cozinhar, cuidar da casa e costurar, porém desde cedo descobriu que conseguia cativar os homens, e sentia extremo prazer nisso, e mesmo tomando cuidados para nunca engravidar, aos olhos da vila em que morava era vista quase como uma prostituta. Hannah, totalmente diferente, sem atrativos sensuais/sexuais, foi criada pelo pai como se fosse seu filho homem, aprendendo as escondidas o conhecimento medico de seu pai,já que a sociedade não aceitava que mulheres pudessem exercer medicina. No começo parece que o livro vai seguir para um caminho típo O Fisico, mas como disse, a estória é bem original, então segue um caminho bem diferente.
Ser médico naquela época não era sinal de riqueza, principalmente para Daniel que atendia muitas pessoas em troca de comida e afins. Assim, com uma condição financeira ruim, Daniel vê-se obrigado a oferecer a filha mais velha em casamento para um primo distante, que a aceitava mesmo sabendo que ela não era mais virgem. E assim, May embarca naquilo que considera uma aventura: Atravessar o oceano, da Inglaterra para a America, onde este primo distante tinha uma fazenda de tabaco e um filho em idade de casar.
Hannah, fica para cuidar de seu pai, pois conforme o padrão da época, esta era a obrigação da filha mais nova. O tempo passa devagar, e o que mais nos mostra isso é a diferença de comunicação que havia nessa época. Uma carta demorava seis meses para chegar da Inglaterra até os EUA,e mais seis para voltar, pois a única maneira desta carta chegar ao destino era via o navio que levava pessoas e produtos, de um lado para o outro. Neste período em que Hannah fica com seu pai, chegam poucas cartas de May contando sobre sua vida na America.
Porém após a morte do pai, Hannah só resta a Hannah continuar seu destino pré-traçado: ir para a America morar com a irmã e sua nova família. E é ai que o livro fica mais interessante.
Primeiro devido as descrições daquele novo mundo. A autora deve ter pesquisado muito, pois dá um show nas descrições. Como era tudo difícil. Como podemos reclamar de tudo o que temos hoje? O transporte no navio durante meses, cartas demorando meses, a impossibilidade de rever um familiar devido a distancia realmente global, a possibilidades de doenças, a falta de informação, o tempo passando devagar, a diferença entre sonho e a realidade de desbravar uma nova terra, as dificuldades e a rotina trazidas pelas estações (estocar comida para o inverno, mosquitos no verão), viver de caça, como cozinhar, como conseguir um pedaço de tecido para fazer uma roupa, partos somente com a ajuda de parteiras, etc.
Depois, devido ao enorme suspense que nos envolve, quando Hannah chega a America e ao invés de uma fazenda de Tabaco, encontra somente uma tapera e um rapaz que se veste como um índio e vive de caça, como um eremita, buscando esconder um passado aparentemente cruel. Este é Gabriel, o primo que recebera May como esposa. Um quase de menino de olhos azuis e olhar indefeso.
Com o tempo e a solidão do local, eles acabam se envolvendo, e ambos descobrem juntos o quanto é bom amar e ser amado.
Mas existem sempre os fantasmas pairando no ar. O que terá acontecido com May e seu bebê? Estaria Hannah se deitando com o ex marido de sua irmã em pecado? E os criados, onde foram parar? Gabriel é o mocinho ou o vilão? Qual o motivo dos boatos dos vizinhos? Dizem a verdade ou só querem roubar as terras de Gabriel? Hannah está correndo perigo?
A autora vai nos envolvendo de tal maneira com os personagens que nos pegamos torcendo ferozmente para que a verdade não seja tão cruel quanto aparenta. Há tempos não torcia tanto por um casal, e confesso que fiquei extremamente triste no final. No ponto de fuga, quando todas as linhas se encontram, queria muito que o resultado fosse outro, mas assim como em Reparação de Ian Mcwean, aqui a autora nos mostra a crueldade que pode existir em certos atos, e que para certas coisas que fazemos , as conseqüências são enormes e não existe retorno.
Dependendo de sua sensibilidade, livro de despedaçar a alma. Mas vá sem medo. No mínimo será pego por uma ótima estória.
Recomendo!