Enganam-se aqueles que pensam que esta é apenas uma obra secundária de Kundera. Essa narrativa tem tanto potencial quanto o de seu romance mais famoso, A Insustentável Leveza do Ser.
Primeiramente, faço um adendo importante: há um punhado de spoilers sobre a narrativa de As Relações Perigosas, de Laclos. Se você é um leitor que tem repulsa a conhecer partes da história de uma obra que ainda não consumiu, e planeja lê-la, convém ter cautela.
A narrativa traça um paralelo entre a obra de Laclos e as aventuras de Vincent, ambas ambientadas no mesmo castelo. O jogo temporal é típico do autor: mudanças surgem sem aviso prévio, o que pode causar certo estranhamento no início.
E aqui retorna aquilo que mais me encantou em A Insustentável Leveza do Ser: a extraordinária habilidade de mesclar filosofia e narrativa. Nesta obra, Kundera contrapõe velocidade e tempo, lentidão e rapidez. Quando se quer esquecer algo rapidamente, anda-se mais depressa; quando não se quer que o tempo passe, quando se deseja lembrar, caminha-se com lentidão rumo ao futuro. O ponto alto está na aplicação desse raciocínio à sociedade como um todo: vivemos cada vez mais rápido porque queremos esquecer, esquecer de nós mesmos.
A obra suscita reflexões instigantes e, de fato, a força com que pisamos no pedal do amanhã diz muito sobre quem somos. No fim, essa rapidez com a qual lidamos diariamente torna-se um eficaz mecanismo de manipulação, ou será que você consegue dizer, com detalhes, o que determinada figura influente fez ou deixou de fazer nos últimos tempos?
Enfim, é uma ótima obra e acentuou ainda mais meu desejo de desbravar o universo de Kundera.