O prefácio de Frank Miller a "O Anjo Caído" diz tudo o que poderia ser dito sobre a estória, mas em benefício daqueles que não tem a edição em mãos para lê-la: compre. :-)
Para entender "Astro City" primeiro é preciso entender o que aconteceu com o mundo das HQs de super heróis nos anos 80 e 90. Abrindo caminho vieram em 1985 Allan Moore e Dave Gibbons com "Watchmen" ao lado de Frank Miller com "O Cavaleiro das Trevas". Estas estórias, ao mesmo tempo em que exploravam temas adultos e uma profundidade psicológica desconhecida anteriormente, tinham duas outras características: estavam inevitavelmente amarradas à personalidade de seus autores e ecoavam uma resposta e uma crítica ao império durante a década de 70 do "Comics Code", o principal responsável pela infantilização do conceito de super herói e mais genericamente da mídia HQ.
Infelizmente vários autores que se seguiram não perceberam isto e acreditaram que o mérito de Moore/Miller estava na contestação pura e simples e nos cenários "noir", algo que ambos viriam a criticar. Os personagens de "Watchmen" e "O Cavaleiro das Trevas" são amargos e adultos principalmente para nos lembrar que o verdadeiro herói é aquele que passa por cima de sí mesmo e de suas fraquezas e é ao agir assim que merece ser chamado de herói. Mas ao longo da década de 90 imperou o modelo do super herói problemático e psicótico que, antes de ser sequer um anti-herói, chegava a ser um vilão: desprovido de valores, violento e amoral.
Não foi senão na década de 2000, quando uma nova geração de autores começou a se questionar sobre o que diferencia um herói infantil e um adulto, que o tema voltou a ter qualquer interesse. Entram em cena Kurt Busiek e "Astro City". Seus personagens são tão humanos quanto sobre humanos, são pessoas que sabem o quanto são falhas, mas nem por isso desistirão de ser heróis.
"O Anjo Caído" é uma estória de escolhas erradas, arrependimento e a tentativa de se viver com ambos. Vemos isto a todo momento não apenas em Blindado, mas em diversos outros que o rodeiam. Recém saído da prisão, querendo apenas permanecer fora dela e lidar com seus próprios demônios, Blindado se vê aos poucos levado ao centro de uma intriga envolvendo os assassinatos de diversos criminosos com super poderes. O leitor o acompanha neste processo, sobre o qual não é preciso dar detalhes, para evitar estragar surpresas.
O elementos mais essencial, humano e sensível de "o Anjo Caído" não é a estória, mas os personagens. Vale à pena relê-la e relê-la cada vez prestando atenção aos diferentes aspectos e detalhes deles, cada vez analisando com cuidado os desafios representados em cada um deles, e de que forma cada um está tentando lidar com seu passado. Após algumas reflexões, fica difícil entender qual dentre todos é de fato "O Anjo Caído".