Ainda hoje impressiona a multiplicidade e diversidade de papéis que Maria Lacerda de Moura desempenhou em seus agitadíssimos cinquenta e oito anos de vida. Dona de uma personalidade forte e combativa, ela parecia nunca estar satisfeita, pois sempre buscava novos enfrentamentos. Feminista rebelde, educadora libertária, escritora socialista, intelectual militante, jornalista polêmica, tantos rótulos e ainda assim nenhum dá conta de seu espírito transgressor e anarquista. Dentre nossas feministas, Maria Lacerda foi uma das poucas que se envolveu diretamente com o movimento operário e sindical. Para ela, a luta feminista devia ser parte integrante do combate social; e homens e mulheres deviam lutar juntos pela eliminação de toda injustiça e forma de preconceito. Quem primeiro nos apresentou esta mulher - tão radical quanto utópica - que nossa fraca memória ia perdendo de vista, foi Miriam Moreira Leite, ainda em meados dos anos 80, através de importante estudo intitulado: ''Outra face do feminismo: Maria Lacerda de Moura''. Junto, a professora nos ensinava também, com seu olhar carinhoso e investigativo, que a ética e a seriedade eram indispensáveis à pesquisa com fontes primárias. Com ela, aprendemos como era a vida de nossas mulheres ao longo do século XIX, e a surpreendente existência de diários escritos por mulheres viajantes, tão corajosas como aventureiras. Apaixonada pela imagem, e para as potencialidades iconográficas do vídeo e da fotografia, Miriam Moreira Leite tem dado ainda importante contribuição aos estudos da antropologia visual. O retorno de Maria Laderda de Moura, através dessa publicação, é excelente oportunidade para verificarmos a atualidade de seu pensamento, principalmente no que diz respeito à repressão da família, do Estado e da igreja, sobre o corpo da mulher. Constância Lima Duarte (UFMG)
