Entre o Trem e a Plataforma, livro de estreia de Lucimar Mutarelli, foi publicado pela editora Prumo neste segundo semestre de 2012 e provou ser uma leitura surpreendente.
Nossa protagonista é Laura, uma mulher de 30 anos que vive uma enfadonha rotina “casa-trabalho”, mas sonha com um futuro feliz e uma família perfeita. Pensou em um chick-lit? Esqueça! A obra de Mutarelli passa longe do tom bem-humorado e otimista dos romances femininos modernos, revelando-se um texto sobre pessoas melancólicas e solitárias, isoladas em mundinhos pessoais insatisfatórios e frios.
Laura é uma personagem egocêntrica, carente e um tanto esquizofrênica, com dificuldade em identificar aquilo que acontece de verdade ao seu redor e o que é fruto da sua imaginação. Fora isso, também ouve as coisas de trás para frente. Seguindo orientações médicas, Laura começa a escrever seus pensamentos em um caderninho durante suas viagens no metrô paulista. O leitor é então sugado para esse universo fantasioso da protagonista e por muitas vezes fica confuso, sem saber de fato o que está acontecendo.
Um ponto que me chamou a atenção nesta leitura foi sua capacidade reflexiva. Quantas vezes não olhamos para o outro e imaginamos como é sua vida, se a pessoa é feliz, triste, se tem uma família ideal ou doentia, se está satisfeito com seu trabalho ou não? Esse ponto de partida do livro me encantou, assim como a necessidade da protagonista de se enxergar pelo olhar alheio. Muitas vezes buscamos atrair, chamar sua atenção do outro para nós em uma tentativa de criar ou fortalecer nossa identidade pessoal. Sem conseguir comover uma só pessoa nos vagões da vida, Laura leva esse instinto às raias da crueldade, mergulhando fundo em sua baixa autoestima e amargura. A busca por alento e redenção, contudo, acaba mascarada pelo anúncio da próxima estação, nos levando de volta a um cotidiano insatisfatório.
Essa leitura mexeu comigo, me deixando bastante triste. Enquanto o sol queimava a cidade do Rio de Janeiro, eu só pensava em me encolher na cama e rezar por uma chuva bem pesada, que se harmonizasse de alguma maneira com os temas de Entre o Trem e a Plataforma. Em muitos momentos achei o livro bastante hermético. Digo isso não pela sua linguagem, que é até bastante simples, mas sim pelo raciocínio fragmentado e desconstruído da narração. O desamparo dos personagens conecta-se de modo muito interessante com a impessoalidade dos olhares e das interações que se cruzam no metrô.
Não se trata de uma leitura que você pode fazer de modo ligeiro, com ideias bem encadeadas e de fácil “digestão”. Entre o Trem e a Plataforma é um livro sobre as lacunas nas nossas vidas, sobre os vazios que buscamos preencher ou que, em muitos casos, preferimos ignorar.