The Naked Mountain me deixou com uma sensação difícil de explicar. Não foi admiração. Não foi empolgação. Foi um tipo de tristeza silenciosa que vai crescendo conforme a história avança. Talvez porque, trabalhando em altura, eu saiba como alguns metros acima do chão já são suficientes para mudar a forma como enxergamos o mundo. O vento parece diferente. O corpo fica mais atento. O coração percebe que existe algo maior do que a rotina lá embaixo. Não estou comparando meu trabalho ao que viveu Reinhold Messner no Nanga Parbat. O que eles enfrentaram está em outra dimensão. Mas existe algo familiar naquela mistura de respeito, fascínio e vulnerabilidade que só quem está longe do chão consegue compreender. Enquanto hoje confiamos em equipamentos modernos, linhas de vida, talabartes, ancoragens certificadas e protocolos de segurança, Messner e seu irmão caminhavam por um ambiente onde a tecnologia ainda era limitada e a natureza tinha muito mais poder sobre o destino de cada pessoa. E talvez seja isso que mais assusta durante a leitura. A consciência de que eles estavam entregues a uma montanha indiferente. Conforme avançava pelas páginas, eu conseguia imaginar o frio entrando pelos ossos, o ar ficando mais raro, o esforço absurdo exigido para dar mais um passo. Mas o que mais me marcou foi a solidão. Não a solidão de estar sozinho, mas a solidão de estar diante de algo tão imenso que nenhuma palavra consegue traduzir. Existe um momento em que a altitude deixa de ser apenas uma condição física e se transforma em um estado emocional. O mundo fica distante. Os problemas comuns desaparecem. Resta apenas a luta para continuar avançando. Durante toda a leitura, The Night We Met, da Lord Huron, parecia tocar dentro da minha cabeça. Porque o livro inteiro carrega a sensação de alguém que gostaria de voltar no tempo para impedir uma única tragédia. Cada página parece carregada pela pergunta que nunca será respondida: e se tudo tivesse acontecido de outra forma? Também pensei muito em Fourth of July, de Sufjan Stevens. Existe na música a mesma tristeza serena que atravessa o relato de Messner. Uma dor tão profunda que já não precisa gritar. Apenas existe. How to Disappear Completely, do Radiohead, também combina perfeitamente porque transmite aquela sensação de dissolução que a altitude extrema provoca. Como se a pessoa deixasse de pertencer completamente ao mundo comum. Como se estivesse em algum lugar entre a realidade e o vazio. E nenhuma música me pareceu tão próxima do espírito do livro quanto Black, do Pearl Jam. Porque ela fala sobre continuar vivendo quando algo essencial foi arrancado de você. E é exatamente isso que vejo em Messner. Um homem que sobreviveu à montanha, mas que jamais conseguiu deixar completamente para trás o que perdeu nela. Quando fechei o livro, não fiquei pensando no cume. Não fiquei pensando na conquista. Fiquei pensando na descida. Porque subir uma montanha talvez seja a parte mais fácil. Difícil é voltar para casa. Difícil é acordar décadas depois e ainda carregar lembranças que o tempo não conseguiu apagar. Difícil é continuar vivendo quando uma parte da sua história ficou congelada para sempre em algum lugar entre a neve e o céu. Talvez seja por isso que The Naked Mountain seja tão devastador. Porque no fundo não fala sobre escalar uma montanha. Fala sobre carregar ausências. Fala sobre sobreviver a algo que continua acontecendo dentro de você muitos anos depois que o mundo inteiro já seguiu em frente. Poucas leituras me fizeram sentir tão claramente o quanto somos pequenos diante da natureza, do tempo e das perdas que levamos conosco pelo resto da vida. Boa leitura. E, se possível, coloque os fones de ouvido e deixe The Night We Met, Fourth of July, How to Disappear Completely e Black acompanharem essa jornada. Algumas histórias merecem silêncio. Outras merecem uma trilha sonora capaz de ampliar cada emoção. Este livro merece os dois.
Naked Mountain -
Reinhold Messner
The Crowood Press, Ltd
2005
320 páginas
10h 40m
ISBN-25: 1861268017,_9781861268013
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