Um romance polêmico, mas nem tão apaixonante assim
D. H. Lawrence merece ser parabenizado por tanta ousadia. Além de corajoso, era preciso ser muito visionário para lançar uma obra como essa, com textos tão explícitos, numa época em que o conservadorismo era servido junto com o chá da tarde. Em resumo, Constance desde muito nova vive fora dos padrões. Casa-se com um homem de família nobre e acaba na infelicidade de ter que lidar com as tragédias do pós-guerra, que o deixam paralisado da cintura para baixo. Para satisfazer as suas necessidades amorosas e, principalmente, sexuais, ela se envolve com o guarda-caça do marido. Confesso que, apesar de toda a polêmica e as críticas ao sexo, ao sistema industrial e à intelectualidade vazia, essa obra não entrou para a lista das minhas favoritas. Talvez eu esteja sofrendo com as altas expectativas (assim como aconteceu na minha última leitura, Suave é a Noite). O romance entre Mellors e Lady Chatterley não é muito bem trabalhado. Minha impressão à todo instante era: "Mulher, esquece esses homens, eles te odeiam". Isso até me frustrou um pouco, porque, mesmo com as descrições dos encontros, parecia que Constance era a única realmente apaixonada, ao ponto de soar desesperada. Do início ao meio do livro, não consegui encontrar grandes atrativos em Mellors, a não ser o fato de representar a classe trabalhadora e de satisfazê-la sexualmente. Fora isso, os diálogos entre eles são tão rasos que fica até difícil entender como essa ligação amorosa foi construída. Sem contar a monotonia dos encontros: se não fosse pela adrenalina de não serem pegos, duvido muito se o romance teria durado tanto. No fim, o mais marcante foi a carta escrita por Mellors, na qual ele fala sobre os seus sentimentos em relação à indústria, ao seu passado e a Constance. Uma pena o autor relatar essa profundidade apenas no final. No fim das contas, a ideia de Lawrence é boa, mas a execução deixa a desejar. A história não tem uma sequência envolvente e os personagens não são tão cativantes. Apesar de tudo, consigo entender a importância dessa obra e por que Lawrence (que morreu tão jovem) se tornou um imortal da literatura. Sua genialidade vai além do desenvolvimento de Lady Chatterley; é admirável a coragem que ele teve em defender a sua arte. A edição que li foi a da antiga Editora Abril, de 1972, mas folheei também a versão da Antofágica, e a diferença é grande, principalmente na tradução. A da Antofágica achei mais clara, enquanto a da Abril, com um português antigo, é um pouco mais poética. Ambas são excelentes, mas recomendo a da Antofágica, por ser atualizada e trazer textos complementares e ilustrações belíssimas.
