Quem era aquela criança na cidade de Gloucester, no interior da Inglaterra, que, no quintal de sua casa, gostava de subir num tablado de madeira e, erguendo os braços, levantava o rosto e falava sem parar, se imaginando diante das multidões? Gloucester já estava marcada na história por outros três nomes. O mais conhecido era Tyndale, tradutor da Bíblia para o inglês. Hooper, o mártir, bispo de Gloucester, fora queimado vivo durante o reinado da Rainha Maria. Por fim, o corajoso Miles Smith, também Bispo de Gloucester, havia se recusado, até o dia da sua morte, a entrar na sua catedral, depois que esta começara a fazer concessões romanizantes. Assim, ao verem aquela criança, os habitantes de Gloucester já deveriam suspeitar que sua cidade se preparava para dar ao mundo mais um herói da fé protestante: George Whitefield.
A criança cresceu e sua fome e sede de “algo mais” o incomodavam. Na faculdade, começa a participar do “Clube santo”, um grupo de jovens que estudavam a Bíblia, que, entre outros, contava com os irmãos Wesley. Neste momento da sua caminhada, Whitefield faz a sua famosa oração: “Um homem pode frequentar a Igreja, fazer suas orações, receber o Sacramento e, no entanto, não ser cristão... Senhor, se eu não for cristão, se eu não for um cristão autêntico, por amor de Jesus Cristo, mostra-me o que é o cristianismo, para que eu não seja condenado em última instância”. Mas qual a razão de Whiltefield fazer essa oração em meio à Inglaterra cristã? Afirma JC Ryle que “o cristianismo parecia jazido como morto, a ponto de se poder dizer: Está morta”! Analisando aquele triste século e sua liderança religiosa, Ryle diz que os pregadores e teólogos haviam deixado o diabo em paz e nada faziam pelos corações e almas. O clero, segundo Ryle, parecia decidido a conhecer toda mundanidade e imoralidade - exceto a Jesus Cristo e este crucificado.
George Whitefield entra no seminário aos 22 anos de idade e, aos 24, diante de uma igreja lotada, prega o seu primeiro sermão, depois do qual o Bispo da cidade recebe a queixa de que a pregação de Whitefield enlouquecera 15 pessoas. O jovem sempre pregava sermões que geravam grande comoção nas igrejas em que passava. “A verdade simples é que um pregador realmente eloquente, extemporâneo, proclamando o evangelho puro com dons incomuns de voz e presença, era, naquela época, uma novidade absoluta em Londres” (JC Ryle). Porém, o ardor missionário no coração de Whitefield logo encontra direção para além do oceano atlântico, quando recebe o convite dos irmãos Wesley para conhecer a Geórgia, na América do Norte, onde cuidaria de um orfanato para os filhos dos colonos. Um ano depois, Whitefield retorna para ser ordenado na Inglaterra. Mas o seu sermão com forte ênfase na regeneração e no novo nascimento fechou-lhe as portas de muitas igrejas. O que o levará para a sua grande característica ministerial e que o marcará na história dali em diante: as pregações ao ar livre.
Com as portas da Igreja Anglicana fechadas para ele, Whitefield saiu em busca das pessoas que não iam às igrejas. Em Londres, numa única pregação, ele chegou a ser ouvido por mais de trinta mil pessoas na rua. De cidade em cidade, ele pregou por toda a Inglaterra, Escócia e País de Gales. Durante 31 anos, calcula-se que ele tenha pregado 18 mil vezes. Visitou a Escócia 14 vezes. Cruzou o Atlântico 7 vezes, pregando em Boston, Nova York e Filadélfia. Foi para a Irlanda. Finalmente, um prédio foi construido para que ele pudesse pregar durante o inverno. Ali, ele pregava 13 sermões por semana. Contudo, morreu como missionário em outras terras para além do Atlântico, com apenas 56 anos, no dia 29 de setembro de 1770, em Newbury Port, na América do Norte.
Indo para Newbury Port, Whitefield foi convencido a pregar numa região chamada Exeter, sem saber que seria o seu último sermão. Com a saúde muito debilitada, ele orou: “Senhor Jesus, estou cansado em Teu serviço, mas não do Teu serviço. Se ainda não concluí minha carreira, permite que eu fale por Ti mais uma vez nos campos, que eu sele Tua verdade e então volte para casa e morra.” Depois, pregou por duas horas, vindo a falecer naquela noite.