Livro curto e certeiro, muito lúcido nas suas análises, embora escrito já há muitos anos (1955). Castoriadis parte da análise marxista, onde se originou e da qual se distanciou progressivamente ao longo da vida. Foi contundente crítico da URSS a partir dos anos 40, tema que também percorre esse livro, mas não sob o viés trotskista que é também rejeitado.
Castoriadis defende que a URSS manteve a sociedade de classes, substituindo a burguesia pela classe dos burocratas, que faziam a gestão da sociedade e dos espaços de trabalho explorando os trabalhadores, que eram mantidos alheios das decisões sobre sua vida. A alienação da gestão assim produzida é comparável à alienação do trabalho, podendo ser mesmo pior, visto que retira o potencial criador de milhões de trabalhadores e os benefícios diretos da inventidade e atuação autonôma de toda a massa.
Diferentemente ao que sucede na revolução burguesa, que pode instituir a sociedade capitalista que já vinha sendo construída dentro do sistema feudal, Castoriadis diz que o socialismo não vem pré-formado pelo capitalismo. "A transformação capitalista da sociedade termina com a revolução burguesa, a transformação socialista começa com a revolução proletária". O argumento é que o socialismo precisa transformar todas as relações instituídas por mandantes e mandados, gestores e empregados, e podemos acrescentar opressores e oprimidos. No entanto, não precisamos colocar empecilhos tão grandes ao fim do capitalismo, pois a própria luta contra o capital indica os caminhos da nova sociedade - a vivência nos movimentos sociais e nas lutas já devem trazer suas novas relações de autonomia, de solidariedade, fraternidade. Para isso é necessário sempre a autocrítica dentro das lutas, o debate das relações que se trava dentro dos espaços que questionam o capital, pois são eles que darão vida à nova sociedade.
Além disso, o livro contém um texto de Castoriadis de 1986 na qual ele contradiz uma leitura do Maio de 68 realizada por Gilles Lipovetsky, Luc Ferry e Alain Renaut, que diriam que esse evento histórico representa algum tipo de guinada social em direção ao individualismo, e que teria sido influenciado por autores como Foucault, Lévi-Strauss, Lacan, Barthes e Althusser. Segundo Castoriadis, os autores estruturalistas só se tornaram bastante lidos e aclamados após o fim dos eventos de maio, quando estava derrotado o movimento, e justamente pelo seu fim é que ganharam espaço. Castoriadis, que estava presente durante os acontecimentos, defende que se as pautas eram efetivamente coletivas, sociais, e que traziam novidades na forma e no conteúdo à esquerda tradicional, mas que não abandonavam seus objetivos históricos, embora partindo de uma época de falência do projeto da esquerda partidária e autoritária, que era rejeitada tanto quanto o capitalismo pelos manifestantes de 68.
"O problema da capacidade histórica do proletariado de realizar a sociedade sem classes não é o da capacidade de derrubar fisicamente os exploradores do poder (o que está fora de dúvida), mas de organizar positivamente uma gestão coletiva, socializada, da produção e do poder. Torna-se desde logo evidente que a realização do socialismo por um partido ou uma burocracia qualquer em nome do proletariado é um absurdo, uma contradição em seus termos, um círculo quadrado, um pássaro submarino; o socialismo não é nada mais do que a atividade gestionária consciente e perpétua das massas."