O livro de poemas sempre é um desafio – oferece resistências e propõe perigos. Tem-se de ir para a leitura da poesia como quem vai pra vida, imbuído de audácia e agente de criatividade. Assim me sinto quando pego uma obra da Cyana Leahy. Para escrever este post, abri suas páginas, revisitei minhas marcações e descobri tesouros desapontados – porque ler poemas de Cyana é sempre se deparar com formas novas, com imagens inéditas e vanguardistas, com rotineiros não-óbvios. “E quando viajo / nunca volto ao ponto de partida / minha partida é sempre despedida” (“caminhadas em Paraty”, p.12). Muito mais do que reunir poemas, “(re)confesso poesia” coloca seu leitor defronte a si próprio e a suas percepções.
O nome, por si só, rende uma análise à parte. Em linhas gerais, coloco a sua escritura com letra minúscula inicial negando o desleixo e contestando o acaso da diagramação: está-se diante de um livro que, ao expurgar toda solenidade, não inaugura ideias, mas as trabalha. A obra está no meio de um discurso que perpassa o ser humano, que excede sua primeira observação – normalmente descuidada. Anuncia o título uma antologia que fala de sujeitos poéticos identificáveis nas nuances emocionais dos próprios leitores, familiarizados com as confissões (ainda que baixas e breves) de pecadilhos e de bem-aventuranças. Logicamente, este processo se dá na esteira da emoção, colocando em jogo todas as conclusões do ato comunicativo.
Os poemas, repletos de imagens sensoriais, transitam pelas áreas do sagrado (“Quase que a fé o fulmina” – “diálogo em noite de tempestade”, p.27) e do profano (“enquanto por dentro eu-frágil / tremo toda / me molho toda / me ardo inteira / em desejo” – “delicada”, p.34), do conservadorismo (“Criança, aprendi nos ombros o peso da morte” – “famine”, p.54) e da audácia combativa (“Intelectualizou-se a negra / e ela brinca / faz chiste / com essas palavras tristes” – “da raça”, p.44), das verdades irrefutáveis (“Há buracos que devem permanecer vazios” - “saudade e alívio”, p.59) e das instabilidades individuais (“sensual prazer sentia / na extração da carne branca / adocicada” – “edema de glote”, p.51). Textos que impelem o leitor a uma experienciação quase “cronínica”, alimentos em sua própria lente. Com uma construção melancólica, não são simplesmente noturnos. “por um segundo restamos nós / e nossos olhos negros / examinando o fundo de nossos poços” (“milagre”, p.29). De certa forma, ler Cyana nesta obra é ler a si próprio, lição de espelhos teatrais e de personas relativas.